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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Pesquisa Datafolha: Lula ou Dilma, no primeiro turno"

No último domingo, dia 16, o Datafolha divulgou uma pesquisa de intenção de voto para a presidência do Brasil em 2014, quando vence o primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff. É claro que, sendo feita pelo Datafolha, instituto do conservador jornal Folha de S. Paulo, a pesquisa intentava captar, sobretudo, a força do processo da ação penal 470, batizada de "mensalão", sobre a intenção de voto dos brasileiros.

Para surpresa da grande mídia, chamada pelos mais progressistas de golpista, a pesquisa traz Lula ou Dilma como vencedores, já no primeiro turno. A independer da candidatura a ser defendida pelo Partido dos Trabalhadores em 2014 (sendo que Lula já afirmou que sua candidata é a atual presidenta), a pesquisa mostra que o PT ganharia facilmente a eleição, o que assustou, e muito, a grande mídia, fazendo com que tal pesquisa sequer fosse mencionada pela Rede Globo, carro chefe - ao lado da revista Veja - do que é hoje chamado de PIG - Partido da Imprensa Golpista.

O excelente Observatório da Imprensa chegou a conjecturar que talvez a mídia não tenha tanta força assim, ao se pensar em formação da opinião pública. Afinal, a voracidade com que Globo, Veja, Estadão e Folha trabalharam o evento "mensalão"  não poderia ser paga com um povo que "parece que não entendeu nada"! Sim, parece que a força da grande mídia não atingiu o demos, o povo; não atingiu a democracia.

Se o Observatório estiver com a razão, Marx poderá ser mais problematizado, uma vez que uma sua tese defende os detentores do poder econômico como detentores também do poder de formar opinião e gerar as demandas que mais lhes interessam. Agora, se o povo, apesar do teatro promovido em torno da ação penal 470, não mudou radicalmente de intenção, buscando uma direita que sempre o recebe (em épocas eleitorais) "de braços abertos", é porque tal povo, o demos, não forma sua opinião pela grande mídia! Se essa afirmação for verdadeira, existe razão para se ter esperança no Brasil. Existe motivação para se buscar o fim da corrupção no país. Existe, pois, saída para todos as demais mazelas sociais brasileiras, visto que a pior delas, a opinião publicada tentando ser entendida como pública, gerando alienação e manipulação, já não se conseguirá efetivar. 

Que todos os culpados por corrupção sejam punidos, sejam do mensalão do PSDB, sejam do mensalão do PT, sejam de quaisquer outros órgãos e organizações. Que o ministério público e a polícia federal tenham  sempre liberdade para investigar a todos, incluindo o procurador geral da República Roberto Gurgel, o ministro do STF Gilmar Mendes, o banqueiro Daniel Dantas e o jornalista da Veja Policarpo Júnior. Enquanto os sonhos deste parágrafo não se realizam, que o povo possa votar com liberdade, independentemente do que pensam Globo, Veja, Estadão, Folha e os demais organismos que pensam que o demos são eles. O demos é o povo; eles, na verdade, são o "demo".

liberdade, beleza e Graça...
  

sábado, 1 de dezembro de 2012

"Toda Teologia é uma Antropologia"

Se existe uma formação que sempre terá problemas para se estabelecer academicamente, essa é a formação em Teologia. São vários os problemas que perpassam essa cadeira acadêmica, a começar pela etimologia da palavra. Sim, para começo de conversa, temos de iniciar esta provocação com uma construção lógica: quem busca a logia (reflexão, conhecimento) do socius, estuda Sociologia. Quem busca a logia do antropós, estuda Antropologia, quem busca a logia da psiquê, estuda Psicologia, quem busca a logia das palavras, estuda a Filologia, e assim por diante. Seguindo-se esse lógica, chegamos ao primeiro problema provocado por este texto: quem estuda Teologia, busca a logia do Theós, o conhecimento de Deus?

Embora a Teologia queira se estabelecer como disciplina científica, ainda está longe de o ser. Isso porque uma ciência precisa ter objeto de análise, bem como métodos e teorias. Por conta disso, a Teologia sempre foi relegada a uma posição acadêmica menor, sendo chamada de "disciplina confessional" e não de "ciência humana". Se a busca da Teologia for pela logia do Theós, o Ministério da Educação estará com a razão, pois o estudo de Deus simplesmente não pode existir, senão numa vertente confessional religiosa.

Para que se torne ciência academicamente reconhecida, a Teologia precisa se admitir como inexistente. Sim, Teologia não existe, bem como teólogos não existem! Explico, questionando: o que tem de científico no estudo teológico? Ao "fuçar" uma grade curricular de tal curso, encontraremos as razões que justificam o presente escrito. Sendo muito honesto, todas as disciplinas de um curso de Teologia são confissões de fé dogmatizadas, ou Antropologia pura e simples, com uma pitadinha de História aqui e ali. Teologia Sistemática, por exemplo: dogma puro e total razão à veemente negação do MEC (importante lembrar que quem acaba de escrever isso é um professor de Teologia Sistemática). Hermenêutica, nada além do que uma boa Análise do Discurso (Linguística) não consiga fazer. Isso se for para buscar uma construção para além do dogma, claro, pois hermenêutica em estudos teológicos mais parece uma nova Sistemática e, consequentemente, confissão de fé.

Eliminando História (de Israel, da formação das escrituras entendidas como sagradas, ou das religiões e denominações religiosas que aparecem nos cursos), que é História mesmo, e as humanidades, como Psicologia, Sociologia e Antropologia, o que sobra que se possa chamar de teológico? Nada. Alguns poderão arguir que sobra a exegese. Bem, sejamos honestos, exegese não é Teologia, levando-se em consideração a logia do Theós; é uma metodologia de pesquisa que lança mão da Arqueologia, da História, da Sociologia, da Antropologia e dos muitos estudos da Linguística para tentar chegar o mais perto possível da intenção que um autor ou texto teve para uma específica época.

Assim, já que a Antropologia Social é uma disciplina comparativa, de base sociológica, com conceitos nucleares como estrutura social, normas, estatutos e interação social, sendo por Franz Boas dividida em quatro campos de estudos, dificilmente se poderia encontrar a Teologia fora de tal alcance acadêmico. Para Boas, a Antropologia deve ser entendida com uma "abordagem de quatro campos" que a dividem em Linguística, Antropologia Física, Arqueologia e Antropologia Cultural. Como a Teologia não consegue fugir desses quatro campos para se justificar como ciência, não resta muito a dizer, senão que toda Teologia é uma Antropologia.

Agora, se admitirmos que o que buscamos analisar não é a logia do Theós, mas os discursos e práticas de grupos sociais em relação às suas divindades (tudo sendo muito bem analisado pelas quatro abordagens da Antropologia), aí sim, estaremos num caminho que se poderá chamar de científico. E, após isso, se nos perguntarem se falar em Teologia não seria um erro semântico, diremos, na boa: "Isso é só um nick; é só um fake, afinal, estamos na era do facebook!".

liberdade, beleza e Graça...