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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Paralelos teológicos"

Uma jovem de 23 anos, filha de um sério pastor - e com formatura na graduação e casamento marcados para o final deste ano - faleceu de forma abrupta e pouco explicada. Uma adolescente de 17 anos, filha de um sério casal evangélico, após uma batida de carro, onde ela se encontrava dormindo no banco de trás, acabou na UTI de um hospital, sem garantias de que volte a andar um dia, tendo em vista a força com que sua coluna vertebral foi ferida. Conversando com um jovem sobre esses dois episódios, ouvi uma frase que deu motivação para o presente texto de reflexão teológica. A frase do jovem evangélico foi: "Mas para quem tem fé é mais fácil passar por isso". Discordei, afirmando categoricamente que fé não conta nessas horas e que o modo de passar por tais catastróficas situações depende do equilíbrio e da força emocional/psíquica de cada um. O rapaz discordou e disse que "se fosse assim, a força estaria no ser humano e não em Deus", o que para esse jovem não tem razão de ser. 

O debate então começou a versar sobre fé e confiança em Deus. Lançando mão de frases do próprio jovem, e tendo o arcabouço teórico do filósofo francês Jacques Derrida como chão argumentativo, passo a trabalhar num exercício intelectual de desconstrução. O rapaz, que afirma que segue a Bíblia como fonte de respostas, defendeu que "todo mundo tem fé, mas a fé em Deus é diferente da fé que todo mundo tem". Ao defender que todo mundo tem fé, o jovem trabalhou o conceito de fé assim: "se eu faço por onde e luto por algo, consigo alcançar o que quero". A fim de me exemplificar tal conceituação, o rapaz disse que se eu tivesse fé de que ao final deste ano estaria com um carro, bastaria trabalhar, dando aulas em universidades no próximo semestre, que, ao final do ano, o carro estaria em minhas mãos. Por conta disso, afirmei que não era preciso ter fé para tal, pois até um incrédulo de tudo e de todo poderia assim pensar, pois as condições para se alcançar tal carro estariam dadas e isso não careceria de fé alguma. 

O jovem perguntou então se eu tinha outro conceito de fé e eu disse que sim, mas que não falaria a ele, pois seria melhor ele mesmo buscar tal conhecimento, já que eu não dava respostas, mas apenas instigava perguntas. Dizendo-se conhecedor do caráter de qualquer pessoa que conversar com ele durante cinco minutos, o rapaz disse que eu não tinha outra maneira de conceituar fé, pois, se tivesse, a apresentaria a ele. Assim, meu modo de não responder às perguntas de meus alunos, mas apenas indicar como encontrá-las, foi tido como um blefe de minha parte, já que, ao fim e ao cabo, eu não saberia trabalhar a questão de outra maneira. Deste modo, inspirado por um debate que "pegou fogo", decidi trabalhar desconstruindo algumas das matrizes de pensamento cristão do rapaz que me provocou o presente paralelo teológico.

O jovem proferiu algumas frases: "todo mundo tem fé"; "quem tem fé, tem confiança, mas nem todo mundo que tem confiança tem fé"; "tem dias em que se é possível acordar com mais fé e, em outros, com menos fé"; "a fé da gente pode ser abalada, a depender da situação"; "ter fé em Deus é também obedecer a Deus". 

No entendimento teológico deste que vos escreve, ninguém, por si mesmo, tem fé. A fé é um dom de Deus, derramada como presente sobre alguns - e pode ser sobre todos os que pedirem -, em algumas circunstâncias especiais, nada tendo a ver com confiança. E, já que a Bíblia precisava ser o nosso chão de debates, decidi que a frase de Jesus de que "se alguém tiver fé do tamanho de um grão de mostarda, poderá ordenar que uma montanha se mova de lugar" seria uma bela ilustração da impossibilidade de o ser humano ter fé. Assim, o que o ser humano tem é confiança em um Deus que para ele já provou que pode fazer coisas incríveis, uma vez que ele, o ser humano, atribuiu tais ações ao Sagrado. 

Minha resposta ao jovem, então - resposta que ao vivo foi negada - é que, ao contrário do que ele pensa, a confiança difere da fé justamente na estrutura básica do argumento, uma vez que fé está atrelada a fiar-se e confiança está atrelada a confiar-se, já que só vem depois de se ter confirmada - até empiricamente - uma possibilidade. Para exemplificar, uso algo muito simples: uma criança muito pequena, ao ser incentivada a pular de uma mesa nos braços do pai, o faz pela fé na primeira vez, pois está fiada em que o pai a segurará, impedindo-lhe a queda. A partir da segunda vez, não há fé, pois a fiança dá lugar à confiança, visto que passa a haver a busca por uma confirmação de fiança, algo que já se espera, uma vez que, quando inicialmente se fiou (fé), o resultado foi satisfatório, gerando material para se confiar.

Confiança, pois, seria a postura de esperar por algo que tem razão de ser e estar, pois já se provou - até empiricamente - que é e está justamente onde se espera. Fé, por outro lado, é o total depósito de certeza no que não é e não está no lugar onde se espera, pois tal ser nunca foi conhecido e tal lugar nunca foi visitado. A confiança é um passo na direção do que já se experimentou; a fé é um total salto no escuro, um passo onde não se tem certeza de que haja chão. Também, e por outro lado, fé não pode ser atrelada à obediência, pois isso faria com que quem obedecesse mais, tivesse mais fé, o que não se pode confirmar como verdade, visto que quem obedece está atrelado a um corpus dogmático de leis que traz em si mesmo um considerável montante de razões, o que se coloca no caminho da confiança e não no da fiança. Fé, também, não pode ser algo abalado, pois o que se abala é a confiança, quando do momento de não confirmação de uma fiança anteriormente feita; a fé, que não é de natureza humana, fica sempre inabalável, já que os humanos abalos de toda natureza não têm poder para atingir e abalar tal dom. 

Portanto, lançando mão da reflexão teológica de Paul Tillich - para quem Deus, sendo o Absolutamente Outro, não existe; É - e do pensamento de teólogos e exegetas de linha crítica, deixo a final provocação acerca da fé em Deus: fé em Deus é conhecer e esperar pelo que não existe, com a plena e inabalável certeza de que Ele virá e fará.

liberdade, beleza e Graça...