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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sábado, 3 de maio de 2014

"A ética pública e a estrutura social que teima em não mudar"

Lecionando Ética Pública numa faculdade capixaba, defendia eu que a desestruturação da sociedade brasileira, que atinge as esferas política, social e econômica, chegando por fim à esfera psicológica, acaba, por isso mesmo, por gerar um povo adoecido, descrente dos meios que o possam redimir, e com uma classe média canalha, não mais atenta aos pleitos dos menos favorecidos, aqueles que necessitam de uma mediação entre si e a classe alta, despudorada até à alma no intuito de aceitar quaisquer meios para atingir o fim desejado; o lucro.

Se duas atitudes passam a fazer parte do ideário da nova classe média, uma delas é aquela que Jurandir Freire Costa chama de "razão cínica", isto é, a postura de também "mexer os pauzinhos" sempre que se precisar dar um "jeitinho" para se sair de uma situação embaraçosa. Claro que isso, exemplificado em atitudes como estacionar em fila dupla ou tripla, conseguir uma receita médica fake para abater o imposto, adquirir um atestado para justificar uma ausência injustificável e tantos outros artifícios, não seria chamado de corrupção, pois corrupção é o que o político e o policial fazem; o que eu faço é, no máximo, "dar um jeitinho numa situação desestruturada de um país que já se corrompeu e que não tem mais jeito".

A razão cínica é a postura de fazer as mesmas coisas que os outros - chamados corruptos - fazem, tal como cometer deslizes e contravenções, mas valorando tais atos de forma a chamar meu roubo de "subtração" e o do político de "corrupção merecedora de cadeia", uma vez que "o valor roubado por ele é infinitamente maior". Outra postura, ilusoriamente chamada de "mais ética", também faz parte do novo jeito de ser do brasileiro; trata-se da postura do "mínimo-eu". Por tal postura, não há uma visão teleológica da vida e das ações (foco nos fins, independentemente do que precisarei fazer com os meios para chegar lá), mas uma postura deontológica de ser e estar no mundo (foco no cumprimento das regras, os meios, no intuito de chegar a um fim benéfico).

O problema da razão cínica é que se forma um exército de canalhas, ávidos por apontar a corrupção alheia, sobretudo a de pessoas públicas e figuras políticas, mas se esquece de seus atestados, receitas e filas triplas. Já a postura do mínimo-eu, tão ou mais nociva à sociedade, se entende como a detentora da moral e dos bons costumes, ávida por "se separar do joio que está aí nesse mundo perdido e corrompido".

No dois casos, no da razão cínica e no do mínimo-eu, a sociedade não muda, já que não se reflete sobre uma sociedade fundada em hierarquia, patriarcalismo e violência física e simbólica. Isso porque a razão cínica faz de nós um bando de inescrupulosos que lutam por "um mundo melhor", sendo que ao mesmo tempo são o pior dele. Do outro lado, o mínimo-eu reflete a postura daquele que se pode considerar até pior, pois é onde se encontra o indivíduo farisaico, que se entende como melhor, o cumpridor de dever, zelador dos bons costumes, mas que só pensa em seu próprio mundo, pregando um fazer mínimo, valorizador da coisa privada em detrimento da pública; é aquele que defende que "não adianta votar, pois o Brasil já está perdido e são poucos os que não se misturam à sujeira".

Sem um foco no público e achando ilusoriamente que o problema não chegará a nós, classe média formadora de opinião e maior parte do eleitorado brasileiro, corremos o risco de encontrar a classe menos favorecida nas "quebradas da vida". Um dia, sem nem mesmo um tempinho para pestanejar num sinal de trânsito, a gente ouve o "perdeu!". Não haverá tempo para nada; a questão pública terá chegado a nós, que temos nos mostrado tão entusiasmados pelo privado de nossos condomínios fechados e de nossos carros comprados em 72 parcelas. 

liberdade, beleza e Graça...