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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

"O que teria acontecido com a primavera brasileira?"

Estando ele revoltado com o estado de corrupção atual (mas que vem logicamente de longa data) nas instituições, e perguntado-me acerca das razões de o Brasil ser o que é, respondi a um aluno que não é possível entender nosso país, senão lançando mão dos chamados "intérpretes do Brasil", grupo que abarca nomes como Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Raimundo Faoro, Florestan Fernandes e outros. Ainda assim, não é tão fácil responder à questão do tal aluno, já que o chamado Pensamento Social Brasileiro, campo das Ciências Sociais que busca entender a formação e as transformações da sociedade tupiniquim, precisa ser constantemente atualizado.

Colocando em pauta as manifestações de rua que tomaram o Brasil em junho de 2013, consideradas como uma revolução que acordou um gigante há muito adormecido, debatíamos sobre as razões de tais manifestações terem sido rapidamente ligadas à Primavera Árabe, movimento que sacudiu vários dos países do Oriente Médio e da África alguns meses antes da forçosamente chamada "primavera brasileira". A questão, então, era acerca do que de fato teria restado do movimento que parecia ter, enfim, acordado um gigante que teimava em querer não ser incomodado. Percebendo aumentos de preços muito mais robustos do que os que instigaram a nossa "primavera", bem como atentando para a nova formação do Congresso Nacional, ainda mais conservadora e autossuficiente, com uma classe política e empresarial imersa na sujeira que teima em crescer e se mostrar sem qualquer vergonha, chegamos à conclusão de que nada de concretamente positivo tinha sido alcançado, o que nos fez buscar as razões para isso.

Assim, com o olhar voltado para as teses de alguns dos intérpretes do Brasil dos anos 1930 e 1940, percebemos que o país é, desde a colonização, um país de caráter acomodatício, isto é, no Brasil, apesar de sempre acharmos que algo vem para radicalmente modificar as estruturas sociais, sempre existiu a possibilidade de se acomodar o grito dos insatisfeitos, fazendo-os logo se esquecerem do que os levou às ruas em atos mais do que justificados. Voltando às teses sobre o Brasil, vemos que, comparando os portugueses com os espanhóis, Sérgio Buarque de Holanda defende que não houve aqui uma colonização visando transformar o meio, algo mais radical, como no caso espanhol, mas uma colonização de adaptação ao que estava posto, sem que grandes batalhas ou mudanças estruturais fossem instigadas ou tidas como necessárias.

Pelo lado de Florestan Fernandes, falando sobre uma possível revolução burguesa no Brasil, o autor defende que a revolução possível aqui não foi popular-democrática, mas burguesa-autocrática, uma vez que o novo chegou sem que o velho tivesse sido vencido, isto é, as transformações que aqui ocorreram e ocorrem não trocam o arcaico pelo novo, mas são revoltas onde a acomodação entre o novo e o arcaico acontece de forma bastante branda, deixando o poder sempre nas mãos das mesmas pessoas, aquelas que Raimundo Faoro denominou justificadamente de seus "donos". Assim, vemos se formar um povo que, já desde a colonização, desde a sua formação enquanto nação, entende, olhando para os grandes desafios oriundos de uma postura revolucionária, que "não vale a pena".

Deste modo, fica a questão de como se poderia reconstruir uma nação, refundar um país, se é que é possível pensar em algo do gênero. O problema é que, quando tal consciência política a alguns de nós chega, a tendência é que tais pessoas já tenham se sobressaído em meio a uma multidão de famintos por respostas que nunca chegam. Neste momento, as duras cenas de um teatro da crueldade se estabelecem de forma efetiva, visto que a tendência é que, querendo conservar o que conquistamos e não querendo que o incômodo de uma revolução nos atinja, cheguemos à postura ratificadora de um discurso defensor de que realmente não vale a pena.

liberdade, beleza e Graça...