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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

segunda-feira, 23 de março de 2015

"Não é o povo brasileiro; é uma parte dele"

No último dia 15, surgiu aquela que seria uma possível resposta à provocação aqui feita na postagem anterior, já que o caráter acomodatício do povo brasileiro parecia ter sido incomodado por este mesmo povo, que tomava as ruas das principais capitais e cidades do país. A sensação que se tinha era a de que o Brasil estava nas ruas, posicionando-se radicalmente contra aquilo que tinha escolhido há poucos meses. O tempo, todavia, era curto demais para que se mudasse de ideia, passando agora a imagem de que o que se fez nas urnas em outubro passado fora um grande burrice.

A ciência, no entanto, sempre é uma excelente auxiliar na luta contra a manipulação midiática, que sempre tenta transformar a opinião publicada por ela em opinião pública. Deste modo, no intuito de buscar uma refinada compreensão do que estava acontecendo, o Instituto Datafolha (que, sendo da Folha de S. Paulo, sempre se mostra contrário aos governos de esquerda, como o do PT) foi às ruas e fez pesquisas entre os milhares de manifestantes em todo o país. Resultado curioso, e talvez contra o que eles realmente gostariam de apresentar: 85% dos manifestantes eram eleitores de Aécio Neves e, portanto, de oposição ao governo Dilma.

Na grande mídia brasileira, e sobretudo na mídia internacional, a imagem vendida era a de que o povo brasileiro está contra a presidenta, ideia que, fomentada e incentivada pelas manchetes nada isentas dos grandes veículos de mídia, fez com que a popularidade de Dilma Rousseff caísse vertiginosamente, chegando quase ao patamar de um presidente impedido de continuar no poder, a saber, Fernando Collor de Melo, hoje senador da República.

Embora não haja razões jurídicas para tal, a ideia de impeachment passou a fazer parte do imaginário social brasileiro, lançando o caráter democrático da escolha de seu povo no lixo, e fazendo surgir exatamente o que a grande mídia deseja: retirar do poder aqueles que não lhes agradam, já que, embora não sejam mais tão radicais num discurso e prática de esquerda, esses governos não permitem que o mercado tome conta de tudo e de todos, algo tão sonhado pela direita que detém os meios de comunicação de massa no país. 

Um aluno, que se encantava com as manifestações, informando-me que agora acontecerão todo mês, já tendo a de abril pré-marcada, questionou-me então se eu estava feliz com tanta corrupção sendo revelada. Respondi na lata: "mas isso não é bom?!". É claro que a extremada juventude do aluno não o deixa entender a realidade brasileira, fazendo-o crer, via grande mídia, que a corrupção começou no Brasil "da Era Lula para cá". No entanto, foi um bálsamo para a alma ler uma entrevista da Revista Fórum com o grande fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, onde o mesmo proferiu esta pérola: "enxergamos a corrupção só agora, porque pela primeira na história do país os que estão no poder não são os mesmos que detêm os meios de comunicação". 

Pode ser que a turma antidemocrática do Aécio Neves, Aloísio Nunes, Agripino Maia e Álvaro Dias faça manifestações mensais, chutando as conquistas da democracia brasileira e desrespeitando a vontade da maioria, expressa nas últimas eleições. Mas, se eles têm chegado ao cúmulo de clamar por aquilo que pela Constituição Brasileira é considerado ilegal (a volta da ditadura militar), que repensem ao menos o que têm incluído em seus discursos, já que até a mídia internacional ficou estarrecida com o "chega de Paulo Freire!", jamais pensado para estar ao lado do "que voltem os militares!" ou do "fora Dilma!". 

É claro que, para os mais atentos à política nacional, o discurso e a prática da direita brasileira não surpreendem mais, já que sua fala chegou ao cúmulo de pedir pela "chegada do vírus ebola ao país, começando a matar pelas crianças do nordeste, aquele povo que não tem nada a ver conosco". No entanto, minha petição é uma só: mostrem a cara e não digam que é o povo brasileiro que está nas ruas contra a presidenta, pois a própria pesquisa científica refutou isso. Se não respeitam a democracia e não aceitam a derrota nas urnas, ao menos respeitem o Sebastião Salgado, pois a lente dele vê o que pouca gente consegue ver, visto ser uma janela da alma.

liberdade, beleza e Graça...