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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sábado, 25 de abril de 2015

"E a Operação Zelotes, você conhece?"

Todos os dias somos inundados por informações vindas dos veículos de mídia, mas quase nunca se pergunta sobre o que não é trazido. Nunca ouvi alguém esperar da mídia o que a mídia não revelaria. Sim, parece que somos acostumados a acreditar que a grande mídia de massas no Brasil traz à tona aquilo que tem de ser trazido, por pura obrigação social, compromisso com a verdade e responsabilidade de imprensa. Mas não é assim que a banda toca, já que desde março de 2014 ouvimos ininterruptamente falar da Operação Lava Jato, mas não conseguimos, nem com muito esforço, ter a grande mídia empenhada em dar míseras linhas para a Operação Zelotes.

Vendo e ouvindo panelaços e buzinaços em dias de fala da presidente do país, bem como de quaisquer de seus aliados, pergunto sobre as razões, e encontro falas que apontam para a Lava Jato, para a corrupção no país e para os desmandos de "um governo que o povo não quer mais", sendo que, como eu disse em texto anterior, não se trata do povo, mas da parte dele que não votou na presidente, segundo dados do próprio Instituto Datafolha. Mas, perguntando aos adeptos de tais barulhos, não encontro um sequer que conheça a Operação Zelotes. E me pergunto a razão, já que, perto de tal operação, a Lava Jato é apenas um cantinho onde se pode lavar um carro pequeno.

No intuito de contribuir, então, para o aumento do nível de informação e crítica de um contingente que se entende "informado e muito bem munido intelectualmente", apresento aquilo que não aparece em telejornal algum, em revista semanal golpista alguma, em nenhum anúncio que se mostre contra a corrupção no país. A Operação Zelotes investiga 105 mil processos, que totalizam um montante de 520 bilhões de reais em fraude tributária (sim, eu disse 520 bilhões!), sendo tudo escondido mediante propinas de montadoras de veículos, bancos privados, corporações de mídia etc.

A grande crise é: onde estão os "furos de reportagem", os "vazamentos de informação" (nos quais a Veja sempre se mostrou "especialista"), onde as "fontes idôneas", que nos possam revelar os nomes de gente de projeção nacional nos âmbitos político e empresarial? E onde está a opinião pública, que "não tolera mais a corrupção do PT"? Simplesmente não há. Opinião no Brasil é publicada e não pública, como já mostrei aqui, utilizando-me de teorização de um intelectual interessante chamado Patrick Champagne. Portanto, se a grande mídia não publica, se o Jornal Nacional não veicula, não há opinião pública, pois ela não se alimenta criticamente; só repete o que dizem ser a verdade.

A explicação para não termos opinião pública quanto a isso começa por uma afiliada da Rede Globo em Santa Catarina, a RBS, que, acusada de pagar 15 milhões de reais em propina para esconder um débito de mais de 150 milhões, se apresenta como razão, para lá de justificada, para que a emissora da família Marinho não dedique um minuto sequer a mostrar a corrupção que assola o país, via sonegação fiscal, algo que a "vênus platinada" faz com muita destreza em se tratando da Lava Jato e de quaisquer ilícitos praticados pelo PT, ou qualquer aliado de um governo que eles querem ver derrotado.

É claro que a Globo, via RBS, não é a única envolvida nisso tudo. Estão sendo investigadas a Ford, a Mitsubishi, a BR Foods, a Camargo Corrêa (que também aparece na Lava Jato), a Light, a Petrobrás, o Bradesco, o Santander, o BankBoston e o Banco Pactual. Tudo gente grande, tudo gente fina, tudo gente que bate panelas e faz buzinaços "contra a corrupção do PT", sendo que só essa turminha já usurpou de nossos cofres a bagatela de 5,7 bilhões de reais! 

O esquema, como não poderia deixar de ser, é sofisticado. Tais empresas atuavam junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão da Fazenda onde contribuintes podem contestar administrativamente (sem passar pela Justiça) certas tributações aplicadas pela Receita Federal. O negócio era reduzir - ou até fazer desaparecer - os débitos fiscais no Carf, controlando os resultados dos julgamentos por intermédio de pagamentos de propinas, como a de 15 milhões da afiliada da Globo, e deixando de pagar aos cofres públicos o montante assustador de 520 bilhões de reais, no total dos 105 mil processos investigados.

Por isso tudo, não vejo qualquer sentido ou empolgação em panelaços e buzinaços, pois trata-se de uma turma que, ou não sabe de nada, ou é gente que, achando que vai mudar o mundo e que está lutando contra a corrupção, está referendando uma situação muito mais corrupta, ainda que acobertada por uma inocência que vai sempre entender que lava jato é lugar de carro e zelotes são os membros do grupo ao qual também pertencia Judas Iscariotes. Se pelo menos esses apoiadores de um terceiro turno no Brasil, via panelaços e buzinaços, à luz deste texto, alcançarem tino para ligar a Operação Zelotes ao Judas, traidor da verdade, eu já estarei satisfeito. Mas duvido muito. Sabem de nada, os "inocentes".

liberdade, beleza e Graça...