Quem sou eu

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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

"E chegou o grande dia"

Era o meu aniversário e eu descia bem cedinho de um ônibus na rodoviária Novo Rio, na cidade do Rio de Janeiro, para aquele que seria um dia com algo bem mais importante do que fazer mais um ano de vida; eu seria Doutor em Sociologia, tão logo o sol desaparecesse naquela quinta-feira, 05 de novembro, dia da cultura e do cinema brasileiro.

Tornar-me doutor era um sonho de muitos anos. Para falar a verdade, poderia até ser algo impensado para um jovem que passou a infância em um orfanato no interior de São Paulo, e que há poucos anos estava capinando pés de laranja em São José do Rio Preto. Filho de uma família de analfabetos funcionais, colar grau de doutor era a honra que faltava ao meu povo, gente de tão poucas letras.

Relembrar os momentos em que, com a enxada na mão, eu olhava para o horizonte e perguntava a mim mesmo se eu seria alguém na vida um dia, foi algo fantástico, pois enfim eu poderia dizer: "sim, acho que agora deu certo; posso falar que sou alguém". Não que apenas colar tal grau me faria "alguém", mas, tendo em vista a situação em que eu me encontrava há anos, o título de doutor era algo para além de um grande sonho bom.

Os amigos não puderam lá estar, já que estavam em horário de trabalho, mas confesso que tal solidão foi até benéfica, pois a ansiedade com a situação me faria ainda mais nervoso, caso eu encontrasse "torcedores" no local. Assim, ninguém viu. Se eu não tivesse a ata para provar, poderiam até duvidar que o ocorrido tenha mesmo se dado. Comer sozinho no Giraffas da rodoviária, aguardando o ônibus sair de volta para Vitória, foi também algo emblemático. A primeira grande solidão de um doutor.

Cumprindo a promessa de que eu me daria um chapéu panamá de presente, agora sou um homem que usa tal acessório. Talvez o chapéu me envelheça, é certo, mas tem coisas que só a "velhice" deveria mesmo trazer. Assim, de panamá na cabeça, agradeço a Deus por ter me possibilitado chegar tão longe, sentindo-me feliz por estar em um grupo que, dadas as circunstâncias de outrora, teria tudo para não me receber. Todavia, sendo agora recebido, confirmo a poesia da Elisa Lucinda, defendendo categoricamente que "sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final". Eu quero.

liberdade, beleza e Graça...