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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF, Doutor em Sociologia pela UERJ e Pós-doutor em Sociologia Política pela UENF. Pesquisador de Relações Raciais, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor do Instituto Federal de São Paulo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

“Caminhos da espiritualidade”

No evangelho de Lucas, um episódio curioso toma a parte dos versículos de 36 a 50, do capítulo 7. Trata-se de um convite feito por um fariseu chamado Simão para que Jesus fosse à sua casa para uma refeição e um momento agradável entre pessoas amigas.
O texto diz que, estando eles à mesa, apareceu uma mulher “de má fama” e começou a lavar os pés de Jesus com um perfume muito caro e a chorar, enxugando os pés do mestre com os próprios cabelos. O detalhe do texto nos faz perceber que essa mulher se achega por trás e nem se deixa ver ao certo, pois já chega se curvando e ungindo Jesus.
O fariseu, ao ver esse ato, pensa consigo; “se esse homem fosse realmente um profeta, saberia quem é essa mulher e a fama que ela tem pela redondeza”. Jesus percebe o olhar daquele homem e pergunta: “Simão, quando uma pessoa deve 50 dinheiros e outra, 500, sendo as duas perdoadas pelo credor, qual será a mais grata?”. O fariseu responde que seria “aquela que devia mais”, e Jesus o aprova na resposta. Ao olhar para a mulher, o mestre completa: “Está vendo essa mulher? Desde que cheguei ela não cansa de molhar meus pés com as próprias lágrimas e a enxuga-los com seus cabelos, mas você não me ofereceu nem água para lavar os pés (era tradição oferecer água para lavagem dos pés aos convidados, uma vez que se andava de sandálias por ruas de terra). Você não me ungiu a cabeça com óleo perfumado (tradição dos ricos para com seus convidados ilustres) e ela gastou seu perfume nos meus pés (mostrando que ela se propunha a gastar até mesmo nos pés o que era para a cabeça!). Você não me beijou ao entrar (outra tradição para com convidados ao momento de maior intimidade que um judeu pode oferecer – chamar para uma refeição), mas ela não cansa de beijar os meus pés, depois de os enxugar de suas lágrimas sinceras de arrependimento por sua vida. Para quem foi muito perdoado, Simão, é normal mostrar mais amor, por isso essa mulher teve todos os pecados perdoados, uma vez que mostra que sabe amar sinceramente uma pessoa”.
Em dias como os de hoje, onde se tem “muita intimidade” com Jesus, chamando-o das maneiras mais variadas; em que se ouve CDs gospel aos borbotões; em que se tem simpatia pelo movimento evangélico ou se vai vez por outra a um culto, é natural vermos pessoas que têm “grande intimidade” com Jesus, mas que não o conhecem de fato. Essa era a situação de Simão; convidou o mestre para o momento de maior intimidade na vida de um judeu, mas não sabia nem se o convidado era profeta ou não! Nem conhecia de fato quem estava se achegando à sua mesa.
Tinha intimidade – ou a provocava – com alguém que não se deu ao luxo de saber quem realmente era, ao fim e ao cabo. Penso, por tudo isso, que ser “íntimo” das coisas de Deus, não faz de alguém verdadeiramente conhecedor do mesmo.
Os atos esquecidos por Simão foram os mais básicos de uma relação de proximidade: água para os pés, beijo de boas-vindas e perfume para mostrar honra. É muito natural vermos pessoas que têm Jesus como algo muito precioso, mas que se esquecem dos atos mais básicos de uma verdadeira espiritualidade. Vemos crentes praticamente “voando” nos cultos pseudo-evangélicos, mas os vemos fechando os vidros de seus carrões, para não ter de dividir a “bênção que Deus deu” com os mais “pobres e sujos” da igreja. Mas a prova da salvação está justamente nisso; na capacidade de exercitar fé e de amar, lembrando dos atos mais básicos que uma verdadeira espiritualidade oferece.
O texto diz que a fé salvou a mulher de má fama. A independer de sua vida, aquela mulher conhecia Jesus e por isso fez o que fez. Não faria se não tivesse a absoluta certeza de que se derramava diante de um profeta. Ou melhor, do profeta; aquele que pode perdoar a salvar.
E é por isso que digo sempre; não é difícil saber se alguém é salvo. Basta ver a capacidade de exercitar fé e de amar; quem, com fé, ama muito, foi muito perdoado e, por fim, salvo. Quem não exercita fé e ama pouco, foi pouco perdoado e não foi salvo. Simples assim. Você foi salvo?

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

"Quem vai prender o Gilmar Mendes?"

Uma das melhores leituras dos últimos dias foi a entrevista dada pelo delegado da Polícia Federal Protógenes Queiroz à sempre excelente revista Caros Amigos (edição de dezembro de 2008). Sempre indico essa revista aos meus alunos, dizendo que ela é “uma ótima opção para saber mais e ficar mais triste”. O conhecimento das coisas dessa nossa história traz sempre consigo uma boa dose de tristeza. É uma escolha de Sophia essa de saber e se entristecer, ou se alienar, conseguindo assim ser menos triste. É uma sinuca de bico mesmo.
O delegado Protógenes é um daqueles homens raros hoje em dia. Daqueles que parecem ter lido a Bíblia Sagrada e entendido o que é agradar a Deus, refutando a corrupção.
Acreditando em coisas que podem não ser mais valiosas hoje em dia, Queiroz deixou a função de advogado, com a qual estava já ganhando um bom dinheiro, e fez concurso para a Polícia Federal, visando trabalhar em um campo deveras minado; investigar caixa-dois, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e uma série enorme de outros “crimes de colarinho branco”.
Começando pelo Acre, e dando de frente com o ex-deputado Hildebrando Pascoal (o do massacre da serra elétrica, lembra?), e chegando aos criminosos chamados “peixes grandes” no sul e sudeste do país, Protógenes Queiroz investiu numa busca inédita.
O delegado prendeu nada menos do que o contrabandista Law Kim Chong, o Paulo Maluf, o Celso Pitta, o Naji Nahas e muitos outros “acima da lei”, como, finalmente, e com a Operação Satiagraha, o banqueiro Daniel Dantas.
Mas, apesar dessa maravilhosa empreitada em torno de “peixes grandes”, o delegado é que acabou sendo afastado do cargo, acusado de “usar de artifícios ilegais” pelos que defendem o bando acima citado. Protógenes foi afastado do cargo, mas, como descobriram que estava tudo dentro da legalidade, não o puderam expulsar, recolocando-o, numa transferência para um cargo apenas burocrático dentro da PF.
Dentre os mais escabrosos assuntos desse corajoso delegado, aparecem informações que de fato não teriam como não entristecer a qualquer alma viva. A narração do envolvimento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na ratificação da invenção da dívida externa brasileira, para beneficiar amigos corruptos, foi de arrepiar os pelos dos ouvidos daqueles que ainda são crédulos em alguma coisa nesse país.
Mas o pior mesmo foi saber que o Daniel Dantas não ficará preso por ter vários “tubarões” nas mãos. Isso, sim, assusta e tira o último fio de esperança de que esse país possa um dia dar certo. Tudo porque o Gilmar Mendes (presidente do Supremo Tribunal Federal), aquele que sempre manda soltar o senhor Dantas (e não sabíamos por que razões até dia desses), também está envolvido até o pescoço em atos de corrupção.
Gilmar Mendes nada mais é do que um empresário que faturou entre os anos de 2000 e 2008 a bagatela de 2 milhões e meio de reais em serviços prestados a órgãos federais, sendo que as contratações foram feitas sem licitação! Isso deu na também excelente revista Carta Capital. O presidente do STF é irmão de Francisco Mendes, o ex-prefeito de Diamantino, cidade próxima a Cuiabá, no Mato Grosso, que ganhou a ajuda do irmão mais velho (o nosso Gilmar) para usar a máquina pública e suas autoridades para a manutenção no poder de uma oligarquia nascida à sombra da ditadura militar. A tal oligarquia Mendes tem, como todas elas, assassinatos e corrupção de toda natureza em seu “currículo”, só que o “mais velho” é simplesmente o presidente do órgão jurídico máximo dessa República de Bruzundangas.
A Caros Amigos e a Carta Capital me abriram mais os olhos e contribuíram ainda mais para o entristecimento da vida minha. Mas prefiro assim; ser triste, mas saber. Embora confesse que para uma pergunta não encontrarei resposta jamais: "Quem vai prender o Gilmar Mendes?".

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

“A crise econômica e um neokeynesianismo possível”

A crise econômica que atualmente abala todo o mundo, após ter surgido nos Estados Unidos, está sendo comparada à grande crise surgida em 1929. Guardadas as devidas proporções, elas realmente se identificam. Porém, é preciso diferenciá-las onde isso é evidente e buscar saídas como as que funcionaram na década de 1930.
A grande diferenciação diz respeito à natureza das duas crises. Em 1929, a crise foi por excesso de oferta. A atual crise, começada em 2008, é uma crise de confiança na capacidade de pagamentos, restringindo posteriormente o crédito.
O economista John Maynard Keynes foi o grande pensador da crise naquele contexto depressivo nos anos 1930. Keynes contrariou a Lei de Say (“a oferta gera a sua própria demanda”), estabelecendo a demanda como geradora de oferta.
Para corroborar sua tese, Keynes apresentou um fator não levado em consideração até então; a expectativa dos atores econômicos. Por tal pensar, foi possível verificar que as “profecias”, em se tratando de expectativas econômicas, sempre se auto-cumprirão. Desse modo, ao se pensar que a situação será pior no futuro, e se externar tal crença e expectativa, a situação realmente piora, tendo em vista o fato de os demandantes não consumirem o suficiente, gerando com isso um ciclo recessivo, com demissões e menor produção.
A tendência à recessão tomou a todos, mas não atingiu a URSS daqueles anos. Observando isso, Keynes propôs uma intervenção estatal – negando a lógica smithiana e clássica de mercado onipotente e livre para tudo –, e defendendo que se o Estado interviesse, controlando o mercado e passando a gastar mais, os empresários produziriam para dar conta de tal demanda, admitiriam mais funcionários, voltando esses trabalhadores a consumir, ratificando o que foi chamado de “multiplicador keynesiano".
É sabido por muitos que o Estado interveio, universalizando (estatizando!) muitos serviços e, de fato, tirando os Estados Unidos daquela terrível crise, instituindo posteriormente os que vieram a ser chamados de "anos de ouro".
Porém, tal postura intervencionista - contrária ao liberalismo vigente na época -, com o tempo, mostrou-se também esgotada, pois o Estado ficou "inchado" e "pesado", oferecendo serviços de qualidade cada vez pior, e admitindo também grande margem para a corrupção. Mesmo assim, conseguiu responder positivamente em um momento de grave crise, além de ter possibilitado ganhos para os trabalhadores, através de um corpo de leis trabalhistas bastante relevante e uma política muito importante na área do bem-estar social, conhecida como welfare state.
No atual sistema econômico, depois de as instituições terem feito e acontecido numa política neoliberal tipo laissez-faire ("o mercado pode tudo"), que acabou por gerar verdadeiros cassinos irresponsáveis na economia mundial, parece ser a hora de uma nova intervenção estatal séria; um possível neokeynesianismo. A palavra estatização, tida como proibida por muito tempo, pois remetia ao "fantasma comunista", parece que voltará à moda com força e apoio. E, é certo, ninguém vai reclamar, pois todo mundo está querendo uma "doaçãozinha" dos governos. Quem diria...

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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

“Weber e a militarização da sociedade civil”

Uma das maiores contribuições de Max Weber à Sociologia diz respeito à análise da militarização da sociedade civil, feita por ele quando da unificação da Alemanha, no final do século XIX. Percebendo a eficiência do exército prussiano – que fora considerado superior aos exércitos francês e britânico em termos de coesão – Weber percebe uma lógica mais rigorosa nas obrigações de cada patente na cadeia de comando.
Esse modelo eficiente de gestão passa a permear a lógica das empresas e instituições da sociedade civil alemã, gerando – em nome da paz, segundo Bismarck – uma sociedade pronta para viver sem grandes conflitos e prevenindo-se da revolução.
A tal lógica militar tinha tudo para ser considerada “dura demais”, porém, Weber notou que ao perceberem que ocupavam uma posição clara e bem estabelecida na sociedade, dificilmente os trabalhadores se propunham a se revoltar contra o sistema e contra os donos do poder. Como num campo de batalha, esses “soldados” têm de obedecer mesmo sabendo que vão morrer. O pacto social, tal como no exército, tem de ser absoluto. Às vezes, o superior não tem razão, mas tem de ser obedecido. É a lógica.
O sociólogo Joseph Schumpeter defendeu que esse modelo militarizado dava mesmo lucro, pois cedeu lugar para que os investidores passassem a trabalhar com resultados mais previsíveis em longo prazo, já que não contariam com nenhuma grande insurreição da parte dos trabalhadores. O lucro não ficou para segundo plano, mas cedeu lugar a um cálculo prospectivo, muito mais lógico em um momento de investimentos em infraestrutura como a construção de ferrovias e de sistemas de transporte urbano.
É claro que podemos pensar “mas onde entra o trabalhador corroborando essa lógica?”. Não é tão difícil aceitar isso, visto que a busca de sindicatos e associações de trabalhadores era a estabilidade dos empregos, garantindo a posição dos trabalhadores.
Segundo a análise do sociólogo Richard Sennett, acerca da percepção de Weber; “O trabalhador passa a perceber sua vida como uma narrativa. Tornou-se possível definir como deveriam ser as etapas de uma carreira, relacionando um longo percurso de prestação de serviços numa empresa a passos específicos de acumulação de riquezas”. Enfim, muitos trabalhadores braçais eram então capazes de planejar a construção de suas casas, por exemplo. Em uma análise em economia política, então, Weber sustentava que o exército constitui um modelo mais lógico da modernidade que o próprio mercado!
A busca desenfreada de um emprego público – que fez surgir uma bolha de cursinhos preparatórios extremamente lucrativos em todo o país –, intentando estabilidade e manutenção de uma posição é um sintoma dessa lógica militar. A seguir-se esse modelo, continuaremos a ter uma sociedade militarizada e com indivíduos mais preocupados em manter seu posto e as ordens recebidas, sem nenhuma contestação ao estado de coisas imposto. Instituiremos o primado da voz sem vez. Seremos a “sociedade militarizada da paz”. Só que da paz sem voz. Mas paz sem voz não é paz, é medo.

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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"A Capitu de Luiz Fernando Carvalho"

Tinha tudo para ser a obra do ano em termos de teledramaturgia. Tudo parecia impagável e extremamente inovador. A leitura de tão imponente obra machadiana merecia mesmo essa enorme dose de ousadia cênica. A minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho beirou a perfeição, não chegando lá apenas por pecados muito ínfimos; pequenos momentos de infelicidade para um maravilhoso achado televisivo.
Os pontos positivos felizmente foram em maior número, o que é mesmo muito bom. A aposta em Michel Melamed foi o primeiro grande acerto. A capacidade ímpar de olhar nos olhos – coisa que Melamed sempre fez com maestria em seu programa na Tevê Educativa – fez desse artista uma das escolhas mais acertadas dessa produção de elenco. Melamed conseguiu ser chapliniano e machadiano ao mesmo tempo. O corpo, a voz e o expressionismo impostos pelo ator catapultaram a narração de Dom Casmurro à condição de antológica. A interpretação de Melamed só foi superada pelo brilhantismo de Antonio Karnewale que, na pele do mordomo José Dias, mostrou que existem atores que a mídia ainda não conseguirá pagar. O trabalho de Karnewale dispensa comentários, pois os adjetivos certamente faltariam. Simplesmente perfeito; disparado, o melhor presente que a minissérie Capitu nos trouxe. O trabalho de Eliane Giardini, embora muito naturalista e até "novelístico", não comprometeu o resultado final, ficando com a nota “deu pro gasto”. Fernanda Persiles, a estreante que teve a dura tarefa de interpretar a meninice de Capitolina, conseguiu passar a segurança necessária pedida pelo papel, sendo meiga e dissimulada, como exigia o texto de Machado de Assis. Não seria maldade dizer que a estreante não conseguiu ser ao menos equiparada pela atuação bastante fraca de Maria Fernanda Cândido, substituta na fase adulta da musa do bruxo do Cosme Velho. A escolha do Escobar, por outro lado, também foi um tiro certeiro, pois Pierre Bartelli conseguiu fazer o mistério do adultério ficar ainda sem qualquer solução, vivendo um misto de anjo e demônio, numa interpretação magistral. A interpretação da meninice de Bentinho não passou também do “dá para o gasto”, sem tampouco comprometer o resultado final da obra de Carvalho.
O restante do elenco, a direção de arte, o figurino, a cenografia e a música-tema de Bentinho e Capitu simplesmente embasbacaram a iniciados e a leigos. Mas o pecado, infelizmente, ainda persegue a obra de arte tupiniquim.
Depois de apostar com muita felicidade em uma espécie de ópera-rock expressionista, num cenário lúdico, que transportava o telespectador diretamente ao universo machadiano; depois de abusar da inovação, com sombras, luzes e um mar cenográfico de fazer inveja às mais caras produções estadunidenses, Luiz Fernando Carvalho “naturalizou o inaturalizável”. Não se sabe o porquê, mas a direção optou por mostrar no penúltimo capítulo um Rio de Janeiro contemporâneo, gratuitamente permeado pela música de Marcelo D2. Resolveu também “inovar” colocando headfone nos ouvidos das personagens em danças de dois séculos atrás. Menos absurdo, mas também desnecessário, foi o telefone celular colocado em cena – o que, porém, não comprometeu tanto, visto que foi nas mãos de um narrador que se quer atemporal. Se essa “naturalização” fosse minimamente cabível, seria sinal claro de que a construção da personagem Prima Justina, feita pela excelente Rita Elmôr, estaria fora do lugar, o que não aconteceu em momento algum.
Com tudo o que foi dito em elogios, essa crítica não merecia ter o parágrafo anterior. Pela beleza e sensibilidade apresentadas por Carvalho em todos os capítulos, tais “delitos” se fizeram demasiado dispensáveis. Não precisava.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

"Barack Obama: a esperança venceu o medo"

Aconteceu o que não parecia possível. Depois de muitos anos de Brasil imitando o que “funcionava” nos Estados Unidos, eis que o povo estadunidense se propôs a imitar a postura tupiniquim. Não se sabe se os marqueteiros de lá entraram em contato com os de cá, mas uma mesma frase serviu para que as duas nações suplantassem antigas pré-noções e preconceitos, aceitando o “inaceitável”; um bóia-fria cá e um negro lá, à luz da sentença a esperança venceu o medo.
Uma memória minimamente saudável se lembrará que a atriz Regina Duarte apareceu no programa eleitoral gratuito se dizendo “com medo do que poderia acontecer se Luis Inácio Lula da Silva se tornasse presidente da República Federativa do Brasil”. O mesmo terrorismo eleitoral tomou conta dos Estados Unidos, uma vez que por lá surgiram insinuações de que Barack Obama seria “simpatizante de grupos terroristas mundo afora e governaria apenas para vingar o que fizeram aos negros”. Para lá e para cá, portanto, nenhuma frase seria tão forte quanto uma que mostrasse que o medo incutido nas mentes deveria ser vencido pela esperança de real mudança do status quo.
Depois de tudo o que aconteceu no governo Lula, com seus números e avanços, é de se esperar uma nova entrevista da referida atriz global. Afinal, a pergunta que não quer calar é: estaria Regina Duarte ainda tomada pelo medo aterrorizante que a acometia? Só a “namoradinha do Brasil” poderia nos responder a tal intrigante questão.
A grande verdade é que não é mais apenas com uma minoria gritando por revolução que se vai mudar o estado de coisas vigente - embora isso contribua em demasia; o que muda de fato algo na estrutura social hoje é a concessão que a maioria está disposta a fazer. Os pobres não conseguiriam eleger Lula sem o apoio dos ricos e dos donos do poder, assim como os negros não conseguiriam eleger Obama sem o apoio dos brancos e dos donos do poder.
A aposta dos donos do poder deu certo por aqui. Pelo menos é assim que pensam 70% da população brasileira, segundo pesquisa do Datafolha. A esperança é que a aposta dos estadunidenses também seja acertada, pois somos – muito infelizmente – (in)diretamente governados por eles, sendo, por causa dessa mesma lógica, a política da boa vizinhança fundamental para a seqüência do que de bom nos tem acontecido até aqui.
Sim, somos muito parecidos agora; aceitamos um pobre torneiro mecânico, oriundo do território nordestino, bem distante dos centros do poder. Eles, por sua vez, aceitaram um negro de nome deveras estranho, oriundo do Hawaí, também bem distante dos centros do poder, e até fora do seu território contínuo.
A nossa vantagem em relação a eles é que tivemos apenas de aceitar um da Silva, o que já conclama a maioria, tendo, por isso mesmo, a facilidade da identificação. Na América de lá a coisa é bem mais complicada; eles têm de aceitar um Barack (nome árabe!) Hussein (sobrenome daquele que foi o inimigo número 1 dos Estados Unidos por anos e anos!) Obama (que rima com Osama, nome do inimigo número 2 dos estadunidenses!). Seria trágico se não fosse cômico, não?
Então, retifico: não temos vantagem. A vantagem volta a ser deles, pois é preciso menos peito para aceitar um Luis Inácio Lula da Silva do que para ser governando por um “queniano” de nome Barack Hussein Obama! Vive la différence!!

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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

"A propósito das eleições, a política como vocação"

O período de eleições sempre traz uma série de dúvidas aos que têm a obrigação (ainda é obrigatório!) de escolher apenas um dentre os vários candidatos que, em pouco - ou em nada - se diferenciam uns dos outros. É difícil votar e, sendo isso um dever, eleger alguém torna-se uma tarefa ainda mais hercúlea.
Tomando as eleições municipais no Rio de Janeiro como lugar para essa reflexão, percebe-se que os eleitores têm a opção de votar na "mudança" proposta por Eduardo Paes ou na "mudança" proposta por Fernando Gabeira.
A "mudança" de um intenta dar prosseguimento a uma ordem já instituída (seguir a rota já traçada pelo Cabral Filho no governo estadual). A "mudança" do outro, por sua vez, nada mais faz do que dar prosseguimento à essa mesma ordem instituída, visto que uma aliança entre o PV e o PSDB/DEM não seria pensada - e nem aceita - pelo próprio Gabeira pouquíssimo tempo atrás.
Sendo assim, parece que o povo carioca votará por uma "mudança que não muda nada". Ou muda bem pouco, se optar-se por uma postura mais otimista.
É, pois, chegada a hora de pensar esse fato à luz de pensamentos de outrora. O sociólogo Max Weber, em um dos seus clássicos - A política como vocação -, propõe o que seria um político e uma política verdadeiramente vocacionados.
Para Weber, o político por vocação seria aquele que vivesse para a política e não da política. Um outro critério weberiano para um político por vocação seria o fato de o indivíduo ter cálculo prospectivo e senso de responsabilidade. Traduzindo em miúdos, Weber defende que um político por vocação deve tomar suas decisões pensando não apenas em seu mandato, mas em um momento em que não estaria mais nos postos de governo, inclusive responsabilizando-se pelas implicações futuras de seus atos presentes. Além disso, o político deve ter em mente um projeto que consiga ver problemas futuros e, prospectivamente, propor - já no seu mandato - as soluções mais cabíveis.
Portanto, é possível escolher o próximo prefeito do Rio, sem precisar aceitar apenas "promessas de campanha" ou "musiquinhas bonitas" de uma classe artística bem representada. A escolha, se quiser passar pelos critérios weberianos, deve levar em conta os planos de governo, a vida de cada um dos dois candidatos, o que fizeram até aqui, e o fator mentira.
Quando dizem que em pesquisa popular pelas ruas não se encontrou alguém que dissesse que o Gabeira é desonesto, lembro que também não se encontrou alguém que dissesse algo diferente acerca do Paes. Nesse critério, portanto, não os consigo diferenciar. Quanto a viver para ou da política, parece-me que ambos vivem dela; novo empate. (Será que é por isso que está tão empatada a fatura?).
As propostas de Fernando Gabeira - mesmo que sem a fundamental clareza acerca de sua execução - parecem mesmo ser prospectivamente calculadas, uma vez que ele diz que seu projeto "visa preparar o Rio para os próximos 20 anos". As de Eduardo Paes não ficam longe da prospecção aqui defendida, pois falam de obras que não se poderiam fazer em um ou dois mandatos, tais como uma série de ações que envolvem a participação estadual, como o acordo acerca das novas linhas do metrô.
O senso de responsabilidade parece também fazer parte dos dois planos de governo, uma vez que os dois candidatos defendem que poderão ser cobrados no futuro por ações que estão sendo propostas agora.
Defendo que votar no Gabeira é uma boa por um lado; já imaginou, meu caro leitor, que decepção seria um governo ruim para uma classe artística que está colocando sua cabeça a prêmio por uma pessoa que nunca ganhou uma eleição majoritária? Já imaginou como seria encarar a opinião pública após terem defendido uma criatura que não conseguiu entender a diferença entre o legislativo e o executivo? Pouca gente se arriscaria tanto, não é fato? É de se pensar, pois.
O lado ruim desse voto é a aliança que o Gabeira fez com o PSDB. Ele não pode dizer que não haverá "leilão de cargos", pois os cargos já estão comprometidos com a aliança mantenedora do status quo.
Votar no Paes é uma boa por um lado; já imaginou, meu caro leitor, que desastre seria para as ambições de Lula - que intenta uma aliança Dilma/PMDB (Cabralzinho?) para sua sucessão em 2010 -, se o governo Paes "pisasse na bola"? O "terceiro mandato" estaria ameaçado, não?
O lado ruim desse voto é saber que, enquanto se louvam o poder das UPAs, os médicos são, para o mesmo governador que as exalta, "um bando de vagabundos"!
No final das contas, temos razões para votar e não votar nos dois candidatos. Deixei, no entanto, o fator mentira para o final dessa reflexão. Porém, Max Weber não teorizou nada nesse sentido. É preciso, então, que mandemos os dois candidatos ao Programa Silvio Santos, para passarem pelo "mentirômetro". Quem conseguir enganar mais a máquina, leva a fatura. Façam as suas apostas!

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