(Estou devendo esse texto).
Quem sou eu
- Cleinton
- Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF, Doutor em Sociologia pela UERJ e Pós-doutor em Sociologia Política pela UENF. Pesquisador de Relações Raciais, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor do Instituto Federal de São Paulo.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
terça-feira, 24 de março de 2020
"O vírus que fez o que as esquerdas não conseguiram"
É fato que o sistema capitalista está em frangalhos. Todavia, é também fato que não se conseguiu, ainda, uma alternativa a este que é um modelo econômico deveras cruel, visto que vive da desigualdade social, uma vez que referenda a concentração de renda, que, aos poucos, vai se tornando ainda mais esdrúxula, já que substitui o capitalista investidor em chão de fábrica pelo simples especulador financeiro - produtor de nada - que simplesmente aposta na alta e na baixa das bolsas. Para além disso, o tal sistema preza por uma postura liberal, dado que defende uma intervenção praticamente nula do Estado na economia e na vida das pessoas, a tal ideia de "Estado mínimo".
Acontece, porém, que o chamado Estado mínimo acaba se configurando como uma falácia da parte dos liberais e neoliberais, visto que, em tempos de crise, o mercado, transmutado há tempos em entidade onipotente, não consegue se sustentar, ainda que em lugares extremamente privatistas como os Estados Unidos da América do Norte. Por conta disso, a postura socialista clássica, que preza pela ideia de dividir a riqueza e usar o Estado para segurar as pontas de pessoas e empresas em tempos sombrios, acaba sendo acatada por todos, com direito a um silêncio sepulcral da parte dos neoliberais privatistas, defensores da falácia do "Estado mínimo".
Assim, caberia a um sistema alternativo se colocar e, como tentou fazer Salvador Allende no Chile, mostrar que é possível se falar em um Socialismo Democrático, mostrando que reduzir o Socialismo e o Comunismo ao stalinismo soviético é simplesmente uma maneira míope e maldosa de se ver os sistemas econômicos e políticos mundo afora. Por isso, embora posturas como a de distribuição de renda sejam criticadas pelos capitalistas neoliberais em tempos "normais", em tempos como o atual, com crise mundial por pandemia, tais posturas não são mais citadas como "coisas de comunistas", como certamente seriam taxadas, no caso do Brasil, se o governo atual fosse de esquerda.
No entanto, é sabido que, por mais que defendam essas mesmas ideias há tempos, as esquerdas mundiais não conseguiram fazer o que um pequeno vírus agora consegue: parar todo o sistema, colocar praticamente todos os trabalhadores "em greve" e, assim, colocar o capitalismo de quatro e fazer com que este siga a cartilha socialista, e sem qualquer crítica ou reclamação, já que não tem mesmo nada novo a oferecer, além de não saber lidar com crises sistêmicas que, de tempos em tempos, derrubam bolsas e anseios especulativos, justamente pelo fato de estes não terem lastro para sustentar materialmente o dinheiro ilusório que encanta os mais eufóricos "investidores em bolsa".
Por outro lado, porém, o que também se pode perceber, em uma mais detida análise, é que o sistema capitalista não está sendo posto em xeque, apesar do momento e dos pesares. Sim, o que se percebe é que, apesar da "greve geral", do desemprego, da possível falência de muitas empresas e do derretimento do dinheiro ilusório das bolsas, não se falou, ainda, em uma alternativa ao modelo atual, o que mostra que também as esquerdas estão sem algo para além do keynesianismo de outrora, aquela política estadunidense de distribuição de renda básica e investimento do Estado para superar a crise gerada pela quebra da bolsa de Nova York em 1929.
Por tudo isso, o que se percebe é mais do mesmo, já que, em especial no Brasil, a tal distribuição de renda nem é de verdade uma distribuição, salvo a esmola para os "sem nada", visto que, em grande parte, pode ser vista como um simples empréstimo bancário a ser pago assim que a tormenta passar, o que vai fazer com que, apesar da "greve geral mundial" e das "posturas comunistas" adotadas por capitalistas perdidos agora, o sistema volte a ser o que sempre foi; os bancos receberão tudo com juros e correção, as bolsas voltarão a superar 100 mil pontos, e "vendendo nada", os pobres voltarão a ser esquecidos (já que cesta básica momentânea toda a grande mídia e o grande capital incentivam, desde que a estrutura social permaneça a mesma após a pandemia) e ainda teremos de ouvir o presidente, alguns dos seus ministros e as hienas bolsonaristas defenderem que "o coronavírus e tudo o que ele trouxe foi culpa dos comunistas e do PT".
liberdade, beleza e Graça...
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
"Parasita"
O filme Parasita, do cineasta sul coreano Bong Joon-Ho, é de fato o melhor filme de 2019. Em um primeiro momento, pensei em eleger 1917, de Sam Mendes, mas, após ver a película sul coreana, não tive como não me render à potência da obra oriental. Como forças da obra, impossível não se enxergar os muitos elementos a explicarem de modo magistral a condição humana, bem como a luta de classes, tema que aparece em cada parte deste que já nasce como um clássico do cinema contemporâneo, além de o filme oferecer metáforas bastante enriquecedoras a justificarem sua escolha como melhor filme do ano na edição 2020 do Oscar.
O filme narra a condição de parasitismo de uma família muito pobre e que mora em um semi-porão, com pouquíssimo acesso à luz e à rua, os Kim, em relação aos Park, família rica da região alta da cidade, e que é o modelo máximo de uma possível meritocracia e disposição empreendedora de alguns indivíduos no capitalismo contemporâneo. A relação entre tais famílias tão distanciadas na questão de classe se estabelece quando o filho da família pobre consegue um trabalho como professor particular de inglês na casa dos ricos, articulando com sua irmã a possibilidade de ir empregando aos poucos toda a família, ainda que para isso ajam de modo a mentir e manipular situações e falsificar documentos.
A primeira sacada do diretor é a questão dos planos, já que os ricos e os pobres estão literalmente no plano alto e no baixo da cidade, respectivamente. Assim, todas as referências acerca do que está em cima e do que está embaixo diferenciam as classes sociais em questão, sendo a chuva um dos elementos a colocar as classes sociais em relação bastante diferenciada, já que, enquanto para os ricos, que moram no alto, a chuva se apresenta como um espetáculo da natureza, para os pobres é um suplício, uma vez que o risco de enchentes e perdas materiais, e até de vidas, sobretudo para quem mora em praticamente um porão, faz da chuva algo demasiadamente ruim e indesejado.
A primeira sacada do diretor é a questão dos planos, já que os ricos e os pobres estão literalmente no plano alto e no baixo da cidade, respectivamente. Assim, todas as referências acerca do que está em cima e do que está embaixo diferenciam as classes sociais em questão, sendo a chuva um dos elementos a colocar as classes sociais em relação bastante diferenciada, já que, enquanto para os ricos, que moram no alto, a chuva se apresenta como um espetáculo da natureza, para os pobres é um suplício, uma vez que o risco de enchentes e perdas materiais, e até de vidas, sobretudo para quem mora em praticamente um porão, faz da chuva algo demasiadamente ruim e indesejado.
Outra imagem a construir uma metáfora extremamente forte no filme é a "pedra da sorte" que aparece. Como o filme insinua, quando alguém resolve crer que um elemento da natureza tem poderes sobrenaturais, pode ser que nem perceba que o presente que pobres podem ganhar dos ricos na luta de classes sempre será algo que para nada serve e que não tem nem o valor de um prato de comida, a não ser que a relação com tal objeto inanimado se dê na base da superstição, o que acaba por fazer com que a tal pedra se torne um estorvo e até razão para que o crente no seu poder possa inclusive correr o risco de morte, quando vítima do próprio objeto em que tanto acredita.
Ainda que se pense que a luta de classes se estabeleça a culpabilizar ricos e isentar pobres, o filme é claro ao mostrar que as classes mais abastadas sempre conseguirão se manter no poder, justamente porque os pobres, ao perceberem outros em condição ainda pior - pois há os que vivem em situação ainda pior do que um semi-porão, já que vivem mesmo em um porão, e nem acesso à luz do sol têm - dificilmente se solidarizam na busca da união para o enfrentamento que se espera de quem compartilha as mesmas agruras do capitalismo selvagem que se estabeleceu dividindo ricos e pobres, mas agora também os pobres dos ainda mais pobres.
A ascensão social, apenas sonhada no final do filme, não seria possível, segundo a ideia de Joon-Ho, visto que os pobres, ainda que consigam conquistas como possuir roupas e até alguns bens que os ricos têm, nunca conseguirão se livrar de algo que os caracteriza como pobres, e que sempre os acompanhará, o que, no caso de Parasita, é o "cheiro de pobre", tão genialmente explorado na película sul coreana, e motivo para que um dos protagonistas se torne assassino ao final do filme, justamente por perceber que seu cheiro continua a ser um fator a provocar nos ricos muitíssimo mais incômodo do que a morte de uma pessoa até então muito querida por todos, mas que infelizmente continua a carregar o "insuportável cheiro". Parasita, de fato, merece fazer história.
liberdade, beleza e Graça...
Ainda que se pense que a luta de classes se estabeleça a culpabilizar ricos e isentar pobres, o filme é claro ao mostrar que as classes mais abastadas sempre conseguirão se manter no poder, justamente porque os pobres, ao perceberem outros em condição ainda pior - pois há os que vivem em situação ainda pior do que um semi-porão, já que vivem mesmo em um porão, e nem acesso à luz do sol têm - dificilmente se solidarizam na busca da união para o enfrentamento que se espera de quem compartilha as mesmas agruras do capitalismo selvagem que se estabeleceu dividindo ricos e pobres, mas agora também os pobres dos ainda mais pobres.
A ascensão social, apenas sonhada no final do filme, não seria possível, segundo a ideia de Joon-Ho, visto que os pobres, ainda que consigam conquistas como possuir roupas e até alguns bens que os ricos têm, nunca conseguirão se livrar de algo que os caracteriza como pobres, e que sempre os acompanhará, o que, no caso de Parasita, é o "cheiro de pobre", tão genialmente explorado na película sul coreana, e motivo para que um dos protagonistas se torne assassino ao final do filme, justamente por perceber que seu cheiro continua a ser um fator a provocar nos ricos muitíssimo mais incômodo do que a morte de uma pessoa até então muito querida por todos, mas que infelizmente continua a carregar o "insuportável cheiro". Parasita, de fato, merece fazer história.
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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
"Democracia em vertigem"
A democracia brasileira sempre foi um processo com rupturas e, embora o último período tenha durado o suficiente para pensarmos que, enfim, teríamos um amadurecimento das instituições republicanas, a ponto de evitarmos retrocessos nas relações institucionais e sociais em nosso país, eis que dois afastamentos de presidentes nos colocaram novamente na situação em que se começa a perder a crença de que por essas terras a democracia possa ser um sonho possível.
Documentando tal tema, e ancorando-se na última ruptura institucional ocorrida, aquela com o impeachment de Dilma Rousseff, a cineasta mineira Petra Costa traz em seu trabalho Democracia em vertigem uma visão bastante elucidativa dos acontecimentos que levaram Dilma Rousseff à derrocada e o ex-militar Jair Bolsonaro ao posto máximo de poder na nação, ainda que praticamente todos duvidassem que tal fato aconteceria, já que, tal como ocorreu nos Estados Unidos, a crença de que "qualquer um vence um tresloucado Donald Trump" se repetiu aqui com a máxima "do louco do Bolsonaro qualquer um ganha no segundo turno". Só que não.
Dilma caiu, Bolsonaro assumiu e a democracia, senão a República, parece mesmo estar em vertigem. Parece mesmo que tal instituto se configura cada vez mais como um sonho impossível. Isso porque várias das instituições e acordos sociais que mantinham o país em uma situação em que se mostrava um mínimo de previsibilidade parecem se esfacelar aos poucos ou, o que é pior, se mostrar como cooptados pelo poder executivo, que, sem a menor parcimônia, se vê no direito de obstruir justiça e ocultar provas de crimes, como no caso Marielle Franco e Anderson Gomes, tendo como garantidor de tal crime o próprio ministro da justiça, Sérgio Moro, que parece menos interessado em fazer seu trabalho do que garantir uma vaga no STF ou na eleição de 2022, quando se apresentaria como continuador do desmonte do Estado começado por Michel Temer e levado à carga máxima com Bolsonaro.
Sim, o filme de Petra Costa é apaixonado e tem um lugar de fala muito específico, e é o da esquerda no espectro político. Todavia, foi importante vez o que o governo, com o uso da máquina e do dinheiro públicos, foi capaz de fazer para tentar impedir que o filme fosse longe na disputa inédita de uma mulher brasileira por uma estatueta do Oscar. Tudo o que foi feito para que o Brasil não ganhasse notoriedade por essa obra foi feito pelo governo, e com verba pública, mostrando mais uma vez que o bolsonarismo é inimigo da cultura, assim como o é da educação e dos direitos sociais mais básicos, o que faz com que nossa democracia esteja não só em vertigem, que é quando há um desequilíbrio naquilo que vemos, mas que seja cada vez mais algo que não passa de miragem; só sonho.
liberdade, beleza e Graça...
terça-feira, 17 de dezembro de 2019
"Paulo Freire, o energúmeno e as verdadeiras hienas"
Segundo o dicionário da Língua Portuguesa, energúmeno é um ser possuído pelo demônio, um indivíduo possesso, podendo significar também, no sentido figurado informal, um indivíduo ignorante, boçal, imbecil. E foi com o termo energúmeno que o presidente Jair Bolsonaro se referiu ao educador Paulo Freire, uma das figuras mais respeitadas no mundo todo pelo seu método educacional, que consiste em ensinar a partir das vivências e dos materiais à disposição no cotidiano dos estudantes, quase sempre não tendo estes material tradicional para a aprendizagem.
É claro que, vindo de Jair Bolsonaro, tal ofensa não tem nenhum poder de se apresentar como surpresa, uma vez que o presidente já se mostrou totalmente inábil para o cargo, provando que não tem qualquer outra intenção, senão o confronto ideológico com um tal de comunismo que nem ele consegue mostrar o que é, já que enxerga comunismo na Argentina, no México e na Venezuela, mas não o enxerga na China, onde há inclusive o partido estatal, e único, o Partido Comunista Chinês. Para Bolsonaro, que foi instado a responder sobre a razão de não se afastar da China e nem criticá-la, como faz com outros "comunistas menores", a China não é comunista. Como o país asiático é nosso maior parceiro comercial, a leitura bolsonariana muda de estratégia e não aceita que a China seja comunista, ainda que a mesma afirme o comunismo seu de cada dia.
O que assusta, todavia, voltando à frase motivadora desse escrito, é que, ao chamar o "comunista" Paulo Freire de ignorante e imbecil, o presidente encontrou eco, em risos e aplausos, em um grupo que diuturnamente o espera em frente ao Palácio da Alvorada, com o intuito de tirar uma selfie e ouvir algum novo mantra do "mito", que sempre tem uma frase de efeito para motivar um grupo que está disposto até a desfilar e bater continência em frente à estátua da liberdade na entrada das lojas Havan. Sem ter qualquer noção de quem foi Paulo Freire e do tamanho de mais uma asneira cometida por Bolsonaro, tal grupo de apoiadores se comporta como um bando de hienas, comendo a merda (que sai da boca do "mito") e ao mesmo tempo rindo do "boçal" educador Paulo Freire.
Noutra frente, mas na mesma direção, um vereador de Salvador, Alexandre Aleluia (DEM), apresentou projeto de lei que retira o nome de Paulo Freire de uma escola municipal da capital baiana, alterando o nome do colégio para José Bonifácio, em homenagem ao patriarca da independência do Brasil. Não se sabe ainda se haverá reação das famílias dos 264 alunos da escola, que fica no bairro Arraial do Retiro, periferia de Salvador, mas já se sabe que a perseguição ideológica bolsonarista não parará tão cedo e tende a piorar as relações humanas dentro do país, bem como a imagem internacional do Brasil, sempre tão respeitado por ter indivíduos como Paulo Freire.
Não tenho esperanças de que Jair Bolsonaro possa um dia gozar plenamente do que é considerado sanidade mental, mas, olhando atentamente para o dicionário, tenho agora a plena convicção de que estamos sendo governados por um ser que não é apenas boçal, imbecil e ignorante, mas alguém possuído, possesso. A grande crise que se estabelece é que os maiores especialistas em expulsar o mal e livrar as pessoas da possessão são os evangélicos, que, ao fim e ao cabo, são aqueles que mais estão atiçando e fortalecendo os demônios do "mito".
liberdade, beleza e Graça...
terça-feira, 29 de outubro de 2019
"Meu segundo discurso como patrono de turma"
Queridas e queridos estudantes, na minha terra, quando a gente convida alguém para ser patrono, essa pessoa não fala na formatura. Assim, se fosse na minha terra, a paraninfa falaria a vocês hoje, mas eu ficaria calado. Ainda bem que não estamos na minha terra. É que eu gostaria muito de dizer-lhes algumas palavras nessa noite. Ah, mas, por outro lado, na minha terra o patrono dá nome à turma. Assim, vocês não seriam mais o 3A, mas a turma Professor Cleinton Roberto de Souza. Nesse sentido, eu prefiro a tradição da minha terra. Não por questões de vaidade, mas porque seria uma honra imensa ter meu nome atrelado a essa turma. É uma grande turma para se ser lembrado por ela, para se ter o nome ligado a ela. Eu vou sentir falta de vocês.
Sabe, meninos, existe uma passagem bíblica em que o apóstolo Paulo escreve ao povo de uma cidade chamada Corinto, e nessa passagem ele afirma que entregou a eles, os coríntios, a mesma coisa que ele, Paulo, tinha recebido de Jesus, seu mestre. Diz assim: "Porque eu recebi do Senhor o que também lhes entreguei", e prossegue falando sobre a última ceia de Jesus na terra, momento que retratou a comunhão entre um mestre e seus discípulos. Acho que hoje é a nossa última ceia. Quando eu lembro dessa fala de Paulo, desse versículo bíblico, eu lembro de mim e de vocês; da relação que conseguimos construir em dois anos e meio, já que cheguei a vocês apenas no meio do primeiro ano desse seu Ensino Médio.
A razão de pensar nisso diz respeito a uma frustração que tive. Isso porque eu não posso afirmar, como o apóstolo Paulo, que entreguei a vocês o que também recebi, pois não tive professores que olhassem a educação em Filosofia e Sociologia como eu olho. Como é sabido de vocês, quando eu estava no Ensino Médio, a gente jogava bola no horário dessas aulas, ou as mesmas eram apenas espaços para que cada um desse uma opinião pessoal sobre algum tema social, ganhando todos a mesma nota 8, independentemente da resposta dada. Não entendo porque 8 até hoje. Mas entendo que aquilo não era educação. Não pensaram em mim. Não pensavam nos estudantes. Por isso, nesses dois anos e meio, não lhes entreguei o que também recebi, pois não recebi. Precisei começar do zero. Entregar algo que não me tinha sido anteriormente entregue. Eu precisava criar algo, inventar um jeito de entregar o conhecimento que eu achava que vocês mereciam receber. E foi o que eu tentei fazer nesse pequeno espaço de tempo. Só vocês podem dizer se tudo deu certo.
A vida, meninos, é feita de encontros. E de despedidas. Se a gente aproveitar o encontro, se a gente viver muito o momento, com todas as forças, a despedida é leve, e é como algo mágico; é como algo sagrado. Eu quero que essa noite seja mágica, que seja sagrada para cada um de vocês. Costumo dizer que quando a gente coloca alguém como uma pessoa que tem algo a nos dizer, e que nos ensina algo, quando a gente estabelece uma relação de ouvir o que alguém tem a dizer, a gente sacraliza o chão entre nós e essa pessoa. Eu quero agradecer a cada um de vocês por terem feito isso. Encontrei bons ouvidos em vocês. Vocês tiveram a humildade de ouvir um cara que chegou com o bonde já andando, que caiu meio que de paraquedas no meio de vocês, e vocês sacralizaram o nosso chão.
Nessa noite tão especial de comemoração, de festa e de luz, a única certeza que tenho é a de que não me economizei em nada para com vocês. Dei tudo o que eu tinha para ser o melhor professor possível e, se não consegui ser melhor, é porque não sei ir além do ponto em que chegamos juntos, pois, se eu pudesse entregar mais de mim, podem ter certeza, eu de todo o teria feito. E essa minha vontade de entregar tudo o que eu pudesse lhes dar para a melhor formação possível me faz lembrar de uma cena maravilhosa no final do filme "A lista de Schindler", em que o protagonista, Oscar Schindler, se encontra com as 1200 pessoas que ele conseguiu salvar da morte pelos nazistas. Mas, ao contrário de comemorar a vida daqueles 1200 judeus, Schindler percebe que ainda usava um relógio e um anel. Olhando para si e para o que ainda possuía, Schindler diz: "Eu fiquei com esse anel; eu poderia ter salvado mais uma pessoa. Eu fiquei com esse relógio; talvez eu conseguisse salvar mais uns 5 ou 10". Consolado por aqueles que livrou da morte, Schindler ouve: "Você fez o melhor que pôde; estamos vivos, e somos 1200".
Queridos estudantes, metaforicamente falando, chego a essa formatura sem relógio. Chego sem anel. Eu entreguei tudo o que pude; não guardei nada. O que tinha de Filosofia, foi. O que tinha de Sociologia, foi. Não me economizei em nada. Tenho a paz de consciência de poder falar "porque eu lhes entreguei aquilo que nem eu mesmo recebi". E sem nenhum arrependimento. Podem ter certeza, fi-lo cheio de alegria e na certeza de que meu compromisso, que é com a educação pública, gratuita e de qualidade, e para todos, foi cumprido ao máximo, à risca. Enfim, tenha a plena convicção, turma Professor Cleinton Roberto de Souza, se eu pudesse, se eu soubesse fazer melhor, eu teria feito; eu teria lhes oferecido algo ainda melhor. Porque vocês sempre fizeram por merecer. "Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria. Isso pra mim é viver". Muito obrigado.
liberdade, beleza e Graça...
segunda-feira, 30 de setembro de 2019
"Bacurau"
Passar duas horas em uma sala de cinema vendo o filme brasileiro Bacurau é entender muito do que somos enquanto povo e nação. Afinal, poucos filmes conseguiriam ser tão eficientes ao retratar o Brasil de modo atemporal - mostrando o que sempre fomos - e, ao mesmo tempo, dialogar de modo tão profícuo com o momento político que vivemos no país, ainda que o filme intente falar do "futuro". Por conta disso, se alguém me perguntar do que trata o filme, não tenho como dizer outra coisa, senão o óbvio não tão óbvio: "trata-se do Brasil". Um Brasil; o que resiste. Fala de resistência. Todos os aspectos que o ato de resistir pode apresentar.
A película de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles retrata a vida de uma cidade do sertão do estado de Pernambuco, a fictícia Bacurau, sendo que, ao mesmo tempo, retrata cada vila, cada município, cada estado, cada canto de um país que, pelo filme, acaba por ser o mesmo em qualquer circunstância, o que faz com que a obra nasça já com todas as credenciais para se tornar premiada por onde passar, recebendo a alcunha de um clássico do cinema brasileiro.
Tudo isso se dá por causa das metáforas apresentadas e pela catarse pela qual parecem passar os diretores e roteiristas, uma vez que ambos escancaram tudo o que deve ser escancarado ao se pensar um lugar esquecido pelo poder público, um lugar sobre o qual os de fora não querem saber, já que o orgulho da cidade, o museu que todos incentivam à visitação, não recebe qualquer atenção dos forasteiros, que, mesmo quando são brasileiros, teimam em considerar um local do país como inferior, "fora do mapa", em especial quando se trata da região nordeste.
É claro que o Brasil atual e a polarização política aparecem no filme, sobretudo quando se trata de falar sobre figuras como Lunga, que nada mais é do que um líder perseguido pela justiça, mas que é defendido com unhas e dentes pelo povo, já que tem o poder de catalizar a indignação popular e fomentar a luta resistente contra a invasão estrangeira. Claro que o próprio nome Lunga faz menção ao ex-presidente Lula, também em embate com a justiça brasileira, mas defendido com unhas e dentes por milhões de pessoas, em especial pela população do nordeste, de onde ele também vem. Para além de Lula, nomes como Marielle e Anderson são citados no filme, quando da homenagem do povoado aos mortos do local, o que traz, do modo muito exemplar, a política para dentro do filme.
Em um dos mais interessantes momentos da obra, surgem brasileiros que, não querendo ser comparados aos seus patrícios, mas considerando-se mais parecidos com os estadunidenses, são pelos estrangeiros execrados, já que os exploradores vindos do exterior sempre nos verão como inferiores e com marcas muito peculiares, ainda que pensemos que falamos um inglês "sem sotaque" ou mostremos o quão branca também pode ser a nossa pele de "colonizados por alemães ou americanos". Interessantíssimo ver que, ainda que muitos nos rebaixemos diante de estrangeiros, buscando algum elemento de solidariedade, o filme mostra que os exploradores nunca nos quererão como iguais.
Se a resistência se estabelece com a arma que os próprios estrangeiros criaram, também é interessante perceber que a tecnologia não conseguirá se estabelecer como mais importante do que a coesão social de um povo que resiste à invasão de oportunistas, ainda que um povoado não apareça no mapa ou que não tenha sinal de internet. Também é interessante notar que o local de proteção e de revide é a escola, que no filme se torna o espaço em que todos podem se refugiar, já que quem tem a educação como proteção sempre terá como resistir aos desmandos dos que vêm de fora e menosprezam um povo.
Em meio a tantas metáforas, pois, fica a dica para que valorizemos o que é nosso, nunca abandonando a nossa história, assim como o povo de Bacurau valorizava o museu que guardava seu passado. Que também saibamos que quem nasce em um lugar desconhecido e desvalorizado por muitos não é outra coisa, senão "gente", e que, ainda que queiram nos diminuir, tratando tudo o que é nosso no diminutivo, possamos mostrar que Bacurau é um pássaro, e não um "passarinho", e que, embora pareça, não está em extinção, pois só sai à noite, já que consegue enxergar e se fazer perceber até mesmo no escuro; em tempos obscuros.
liberdade, beleza e Graça...
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