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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF, Doutor em Sociologia pela UERJ e Pós-doutor em Sociologia Política pela UENF. Pesquisador de Relações Raciais, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor do Instituto Federal de São Paulo.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"Instalações poéticas"

"As estações e os cafezais"

E era como um lapso de memória
Que em trazendo potência, alma, história
Irradiava um breu de luz
E dos tomados velhos vícios, desesperanças, desperdícios
Caos, silêncios de interstícios, já obrigava à cura o pus

E em pressa, luta, correria
Ao transmutar descrença pia, desrespeitando a agonia
Nada mais quis do que inventar
Só fez da Mata, alma bela
Correr por mares, vilas, vielas
Sendo usurpadas já em Vilelas
Por transformar o mar em A-mar

E num pulsar mais que ingente
Ao desnudar o incorrente
Para animar alma nascente em plantações primaveris
Mudou em vida a morte crua
Inspirou gritos, choro em rua
E apaixonando uma alma nua
Pra eternidade pôs raiz


liberdade, beleza e Graça...

terça-feira, 20 de julho de 2010

"Edir Macedo e a musicalidade teopoética de Vander Lee"

Estava lotado o Maracanã. Nem na apresentação de Frank Sinatra o público tinha sido tão grande, disseram muitos, e parece que com razão. Mas a Rede Globo ignorou completamente o evento, não citou qualquer número e nenhuma nota foi dada, pois havia uma briga - e ainda há - com a Rede Record.
Edir Macedo dirigia uma "reunião de milagres" e convocava todos os que usavam qualquer tipo de auxílio para viver - óculos, muletas, cadeiras de rodas, aparelhos de audição etc. - a abandonarem aqueles objetos todos e a receberem a cura.
A sagacidade de uma repórter fez com que perguntasse àquele líder espiritual a razão de ele incentivar as pessoas a jogarem fora os seus óculos, se ele mesmo continuava com os dele. Edir Macedo não titubeou e respondeu: "É que eu não tenho a fé deles".
Lembrei-me deste episódio ouvindo Sonhos e pernas, do cantor e compositor mineiro Vander Lee. Tal como Aonde Deus possa me ouvir e Alma nua, essa canção me traz algo de teológico. Algo de teopoético, eu diria.
Pensando na temática do discipulado, defendo que o testemunho de vida deve fugir à tese de Macedo, pois não é bom apenas falar do que se deve crer, mas é imprescindível que se viva a fé professada. Bom mesmo é ter o peito para dizer: "Quer aprender de Jesus, olhe para a minha vida". Parece bastante radical, mas se mostra muito mais correto e mais bíblico, uma vez que o grande apóstolo S. Paulo convidou aos que o seguiam, sem qualquer crise: "Sede imitadores meus, assim como eu o sou de Cristo".
Penso que, ao contrário do que queria Edir Macedo, é hora de fazer mais do que falar o que os outros devem fazer e, seguindo a teopoética de Vander Lee, ratificar Sonhos e pernas: "Olhe, não venha me mostrar o que você não vê; não venha me provar o que você não crê. Não tente se enganar". Vemos por esta frase que, ao contrário do que muitos pensam, não é aos outros que se consegue enganar em termos de fé, quando se faz o que fizeram e fazem muitos dos nossos líderes espirituais. Parece-me que é o grande Macedo que engana-se a si mesmo quando faz o que faz. Manda olharem, mas ele mesmo não vê. Tenta explicar, mas ele mesmo não crê. Afinal, foi ele mesmo que disse "não tenho a fé deles".
Apesar da lógica neopentecostal do Edir, baseada no "você pode tudo", ainda fico com a oração do nosso músico mineiro: "Ó, meu Pai, dá-me o direito de dizer coisas sem sentido; de não ter que ser perfeito, pretérito, sujeito, artigo definido".
Que possamos nós, os que devemos ser curadores d´almas, nos deixar envolver pela teopoética, como a apresentada por Vander Lee, deixando também que as pessoas não se obriguem à cura e ao impossível, mas que possam viver o milagre de ser gente, com todas as implicações - para o bem e para o mal - que isso sempre traz.

liberdade, beleza e Graça...

sexta-feira, 25 de junho de 2010

"Três anos de blog: enfim, acho que já tenho leitura!"

Eu era ainda um graduando em Ciências Sociais quando ouvi de um grande professor meu, doutor em Literatura por uma importante universidade, que ele aprendera a ler apenas no mestrado e a escrever somente no doutorado. Confesso que achei um tremendo exagero, pois na minha cabeça eu já sabia ler e escrever até mesmo antes daquela graduação.
Afinal, quando criança eu já tinha ajudado um senhor a pegar o ônibus certo, pois ele dissera que "sempre pegava o ônibus errado porque não tinha leitura"; era analfabeto.
O tempo passou e eu, que no final da formação em Ciências Sociais comecei com esse negócio de blog, cheguei a três anos ininterruptos de postagens. Foram três anos onde me obriguei a escrever pelo menos um texto por mês. Consegui nestes escritos passar pelas três formações que Deus me deu a oportunidade de ter - e que dão nome ao blog -, discutindo temas que a elas são bastante caros. Tentei escrever da melhor maneira possível sobre as áreas das Artes Cênicas, da Teologia e das Ciências Sociais. Todavia, preciso reconhecer; o grande Luíz Carlos tinha mesmo toda razão.
Preparando aulas para meus alunos que agora se graduam, enquanto eu rumo para o doutorado, percebi que, enfim, aprendi a ler. Textos que outrora me eram extremamente áridos são agora bastante acessíveis. Tudo ficou mesmo muito mais fácil. Depois do mestrado, eu, tal como o amigo Luíz Carlos, aprendi a ler e me sinto já alfabetizado!
Do mesmo modo, se achava que já sabia escrever quando da graduação, percebi pelos escritos deste espaço que só agora estou aprendendo a fazê-lo de fato. Foi só olhar para os vários textos postados e perceber que uma agradável evolução aconteceu, fazendo-me dar um passo a mais no feliz casamento com a Última flor do Lácio.
Muitos me diziam e ainda dizem que para aprender a escrever é preciso ler muito, mas não é verdade, embora ajude. Para se aprender a escrever é preciso escrever. Só se aprende a escrever escrevendo.
Tenho certeza de que em alguns anos poderei reler tudo isso e afirmar com a alegria do moço que agora sou; "Enfim, acho que aprendi a escrever!". Que o Senhor seja louvado lá, quando eu bem souber escrever, como é cá, quando já tenho leitura!

liberdade, beleza e Graça...

domingo, 23 de maio de 2010

"El secreto de sus ojos"

Sempre após a festa do Oscar é possível se ter uma noção de qual é o melhor filme do ano. Em geral, a película que ganha o prêmio de melhor filme estrangeiro é o melhor trabalho do ano, pois os estadunidenses não dão esse título a uma película que não seja produzida por seus patrícios. Para eles, o melhor filme terá sempre de ser o que das ideias deles saiu e ponto final.
Mas os bons cinéfilos sabem o que fazer assim que a festa termina; torcer para que o melhor filme estrangeiro chegue logo por essas terras, pois trata-se quase sempre do melhor trabalho cinematográfico do ano, sendo bem poucos os anos em que essa tese não se confirma.
Esse ano não foi diferente; o argentino "O segredo dos seus olhos" é disparado o melhor trabalho de cinema feito no ano passado. Com todas as honras, a película de Juan José Campanella é o melhor filme do ano e, nos dizeres de um cinéfilo de marca maior, é IMPAGÁVEL.
Desde "Clube da lua" que o ator Ricardo Darín entrou para o panteão daqueles intérpretes inesquecíveis. No 'quase romance' que vive com a personagem interpretada por Soledad Villamil, o Benjamín Espósito de Darín é mais um daqueles papeis que valem o ingresso e o incontido choro no final.
Guillermo Francella é outro que faz do filme algo de uma preciosidade de fazer calar. A música é perfeita, como sempre no cinema argentino, e a turbulenta e extremamente romântica Buenos Aires dos anos 1970 é trazida com uma minuciosidade, uma potência, uma poesia de fazer embasbacar.
A trama conta a história da tentativa do investigador de polícia Benjamín Espósito de escrever uma novela, sendo que nada nela será inventado, já que a pretenção é narrar algo de que ele mesmo foi protagonista anos antes. Tratar-se-á de uma história de amor, vivida em meio à investigação de um estupro seguido de assassinato, em que Espósito trabalhou, tendo o grande amigo, interpretado por Francella, como parceiro leal e amoroso, algo demonstrado sempre e até o fim de uma vida.
Espósito não consegue contar a própria história, pois ela é dividida com uma bela mulher casada, por quem ele sempre nutriu a razão de ser da novela que teima em não sair. O romance só será possível de ser concluído se o tal objeto de desejo vier a participar de maneira a fazê-lo, Espósito, compreender suas escolhas, ações, decisões e equívocos do passado. A busca não é, pois, por narrar, mas por compreender o passado e as escolhas feitas nele, a fim de que um amor que tinha tudo para acontecer explique a razão de nunca ter sido.
Só a partir do momento em que Benjamín Espósito decidir enfrentar a si mesmo, conseguirá atingir aquilo que deveria ter sido atingido 25 anos antes em sua história: encarar a mulher que ama, tendo a coragem de dizer a ela esse segredo guardado por 25 anos na fala, mas falado a cada novo dia na tradução, teimosamente não lida, do segredo dos seus olhos.
Correndo de forma paralela, a saga vivida pelas personagens de Pablo Rago e Javier Godino, viúvo e assassino, respectivamente, de uma mulher belíssima, ganham ares de tentativa de se explicar a verdadeira essência humana; a paixão que nos move a matar e a morrer, mostrando o pior e o melhor que cada um pode fazer, numa luta apaixonada de todos contra todos.
É por paixão que o assassino estupra e mata e é por paixão que o viúvo guarda uma vingança que nem o mais atento cinéfilo poderia imaginar, exceto se atentar desde o início da trama para o "método do paradigma indiciário", utilizado pela personagem de Francella.
Tal como o cego Tirésias, do clássico "Édipo Rei", o alcoólatra que Guillermo Francella vive consegue interpretar cada indício e sempre enxergar respostas, exatamente aonde os olhos pensam esconder segredos. Nada parece escapar à visão de alguém que é deixado à margem daquilo que o mundo sempre anunciará como "normal".
O final é um soco no estômago. Por isso, esqueça todo o resto e, por você mesmo, vá ao cinema!

liberdade, beleza e Graça...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

“As grandes tragédias e o poder de isentar os verdadeiros culpados”

As épocas em que vivenciamos momentos dramáticos conseguem mostrar um poder ambivalente. Para o bem e para o mal, tais momentos trazem sempre possibilidades de reflexão e mudanças. Todavia, é curioso como quase sempre as oportunidades de se mudarem as estruturas nos escapam. E é essa a nossa grande infelicidade.
As tragédias do Morro do Bumba, do Morro do Céu e de outras encostas perigosas de Niterói e adjacências trazem à tona a reflexão sobre a tese que dá razão a este escrito; mais uma vez nos escapará a oportunidade de discutir e refletir acerca de um dos maiores males que o nosso tempo experimenta: a desigualdade social, que no caso de Niterói se mostra muito fortemente na especulação imobiliária e na impossibilidade de se cooperar para a instauração de um projeto de habitação popular decente.
De todas as coisas que foram ditas acerca das tragédias que vitimaram nossa cidade, a mais curiosa foi a frase que já parecia pronta nas bocas de um grande número de pessoas: “Mas por que será que essa gente vai construir suas casas justamente em cima do lixão?!”. O grande problema dessa mal-dita frase é que ela acaba por culpabilizar ainda mais àqueles que já perderam seus entes queridos – em alguns casos, famílias inteiras – juntos de todo o bem material que possuíam, e não sendo nenhum pouco fácil de recuperar, dadas as condições econômicas cada vez mais acachapantes da estrutura capitalista.
Por isso, embora pudéssemos citar grandes teóricos das Ciências Sociais, escolhemos trazer à tona a frase do eterno carnavalesco Joãozinho Trinta: “Quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta é de glamour”. É esta a frase que deveria ser entendida por grande parte da nossa sociedade, que ainda acha que os moradores dos locais citados acima gostam de morar no lixo e o fazem por opção. Se sairmos a perguntar, encontraremos pobres querendo morar apenas em Icaraí, São Francisco, Charitas e outros bairros nobres de nossa bela cidade. A pobreza não é, pois, o sonho dos mais explorados e socialmente esquecidos.
Aos intelectuais – exceto os “orgânicos”, na teorização de Antonio Gramsci, pois são militantes e ativamente participantes dos dramas dos mais desvalidos – parece mesmo caber apenas continuar a viver da possibilidade de teorizar acerca da pobreza alheia.
O que parece ser ainda pior neste drama todo é a impossibilidade de se falar nos verdadeiros culpados. Ter um governador que, se dizendo emocionado, defende que “não é hora de procurar culpados” é mesmo uma contradição. O argumento da emoção parece ter força para isentar quem precisa ser punido! Mas como não procurar os culpados e saber das razões de suas culpas, se outras tragédias poderão vir justamente por conta do mesmo drama social?
Sim, há um culpado; em um outro governo foi feito um estudo que condenava a área que ulteriormente viria a ser urbanizada pelo governo atual, que não deu a menor atenção ao laudo científico deixado pelo governo opositor. Será que não há culpados aí?
Ainda querendo culpar os mais pobres, alguém disse que foi feito um convite para que muitas famílias se mudassem para uma localidade muito distante, a fim de que pudessem estar em segurança, mas muitas não quiseram. Acontece que morar longe do trabalho é outro problema, já que os mais ricos não gostam de contratar gente que mora longe. Poucos falam acerca disso, mas não são poucos os que perdem as possibilidades de se empregarem, visto que moram em localidades muito distantes e gastariam muito tempo e dinheiro de transporte para chegarem ao trabalho. É o famoso “morar mal”. Quem mora longe dos ricos mora mal, tanto quanto quem mora perto, mas nas encostas. É um drama a ser discutido e resolvido ainda.
Para tornar ainda mais trágico o texto aqui apresentado, é lamentável ver pastores (e não são poucos) que abrem a Bíblia e encontram razões para acabar com o resto de esperança dos mais empobrecidos, ao lerem "interpretando"- e culpabilizando novamente os já des-graçados dessa estrutura desigual - textos como: “O que constrói sua casa sobre fundamento não sólido sofrerá com as enchentes e é isso o que os pobres estão fazendo”. Este texto nada tem a ver com construção material e a Palavra de Deus tem coisas belíssimas a serem lidas neste momento e a servirem de consolo a todos.

liberdade, beleza e Graça...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

“Freud, AIDS e religião; tudo junto, numa articulação por Romanos”

Uma das questões mais intrigantes na vivência da religiosidade cristã – e talvez também de muitas outras vivências religiosas, das quais temos menos conhecimento – sempre foi a razão para que uma pessoa fosse desligada de uma determinada comunidade de fé. Por anos e anos o único motivo que justificava um desligamento era, por incrível que hoje possa parecer nos grandes centros, a gravidez fora do casamento. Em geral então, os adolescentes e jovens eram as maiores vítimas deste doloroso processo. Embora a crença cristã não faça diferenciação entre um pecado e outro, ainda não se tornou pública uma exclusão por causa de fofoca, inveja ou outro pecado “mais brando”, o que parece ser sim uma contradição.
A leitura da obra de Sigmund Freud, pai da psicanálise, talvez ajude a explicar porque o sexo e as questões inerentes à sexualidade sempre conseguiram ter tanta força entre os religiosos, sejam eles cristãos ou outros.
Freud entende que o básico da existência humana está ligado aos traumas e perdas na primeira infância e às pulsões sexuais que, em maior ou menor medida, são recalcadas ou sublimadas para que uma vivência “mais decente” se dê no mundo da vida. Deste modo, as fases genital e de descoberta da sexualidade, que tanto assustam a alguns adultos, por conta de mostrarem que o ser humano vai “cedo demais” aos lugares onde só se deveria ir na vida adulta, foram um importante foco de estudos do pai da psicanálise.
A força da questão sexual também é apresentada na Bíblia. A carta do apóstolo Paulo aos romanos mostra algo que nos faz pensar nisto que já foi apresentado como obra e tese de Sigmund Freud em finais do século XIX e início do XX; a sexualidade é mesmo foco de importância capital também no livro sagrado dos cristãos. Tanto assim é, que o primeiro capítulo de Aos romanos mostra que a forma que Deus usou para apresentar a sua decepção com um grupo de pessoas desobedientes foi a “entrega destes às suas próprias paixões sexuais, deixando surgir até relações entre mulheres e mulheres e homens e homens”. A homossexualidade estava, pois, posta para a crítica ulterior.
Nos anos 1980, quando a AIDS chegou, desconhecida e assustadora, o texto de Romanos foi utilizado por vários segmentos religiosos para transformar os gays em uma "maldição do século", responsáveis diretos pela mão de Deus que estava então “pesando sobre a humanidade”. Não foram poucos os que ligaram a doença até então implacável ao texto do primeiro capítulo de Romanos.
Hoje, embora um participante de um destes chamados shows de “realidade” tenha afirmado que "a AIDS é coisa só de gays”, é sabido que a doença é coisa de muita gente séria, que contraiu o vírus desde o nascimento, por exemplo, e também de gente desprevenida e com parcerias sexuais irresponsáveis. Nos anos 1980, os gays foram entendidos como “o grande mal” por conta do desconhecimento em relação à nova doença e por conta do número de parceiros que em geral tinham. Contudo, já é sabido que, sendo homo ou sendo heterossexual, o número de parceiros e a irresponsabilidade continuam a ser os elementos básicos a se culpar.
Enfim, o que a nossa leitura hoje da Bíblia mostra é que Freud tem sim razão, pois, entregues aos seus próprios desejos e paixões, os seres humanos investem logo num ponto que para Freud e para Paulo é um ponto nevrálgico: a sexualidade, com todas as possibilidades que ela oferece, agradando ou não ao chamado caráter divino.
É bom lembrar, no entanto, que o foco desta parte de Romanos é a idolatria. É por causa da troca de Javé por outros deuses, adeptos do culto ao corpo e da fertilidade sexual, que o tal “abandono de Deus” se deu. Mas aí o assunto já ficaria longo demais.

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domingo, 14 de março de 2010

“Caminhos da espiritualidade”

O terceiro capítulo do Evangelho segundo São João talvez seja o trecho mais conhecido da Bíblia. Isso porque nele está contido o versículo chamado de Bíblia-mirim, João 3:16, onde se lê: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.
O que foge à atenção, no entanto, é que o contexto para que tal máxima surgisse era também deveras interessante. Este curioso capítulo bíblico conta a história do encontro entre dois sábios rabinos: Nicodemos, um fariseu, doutor da lei mosaica e chamado de “príncipe dos judeus”, e Jesus, um filho de carpinteiro que ganhava notoriedade por conta de uma série de sinais miraculosos que fazia e por palavras de teor extremamente revolucionário para aquele momento histórico.
O texto diz que tal encontro se deu à noite por opção do próprio Nicodemos. A leitura sempre apresentada é que a escolha do horário dizia respeito a um possível medo ou vergonha da parte de Nicodemos, visto que ele era um rabino reconhecido socialmente e procurava encontrar-se com um rabino marginal ao sistema, o que viria a depreciá-lo com certeza.
Todavia, é possível uma leitura um tanto diferenciada, contemplando o gesto do “príncipe dos judeus” como algo que se deve seguir. É importante levar em conta que as visitações noturnas não eram comuns naquele tempo, visto que a possibilidade de saques e assaltos era uma constante. Assim, pensar que Nicodemos subverte uma ordem social para ter um tempo a sós com Jesus pode trazer a um mais atento leitor um ligeiro contentamento.
O texto segue mostrando as razões da busca de Nicodemos; tal rabino queria saber como Jesus fazia o que fazia, onde tinha aprendido palavras tão sábias, visto que não havia frequentado as escolas teológicas mais conhecidas da época (a de Hilel e a de Shamai) e como adquirira aquela postura carismática de fazer inveja a qualquer grande líder. A chegada de Nicodemos, portanto, enfatiza aquilo que ele via de místico em Jesus. Seguindo esse pensar, é também importante ver que Nicodemos humildemente reconhece Jesus como “mestre vindo da parte de Deus, pois ninguém faz o que Jesus faz se Deus não estiver com ele”.
Ao entender as razões de Nicodemos, Jesus lança mão de uma frase que vai inquietar tal rabino por um longo tempo: “Quem não nascer de novo, da água e do Espírito, não pode ver o reino dos céus”. Na cabeça de um intelectual, doutor de sua época, isso não fazia o menor sentido, pois, como o próprio Nicodemos diz: “É impossível para um ser humano voltar ao ventre materno e nascer novamente”. A ciência realmente negaria isso em qualquer tempo.
O nascimento espiritual continua mesmo a inquietar gerações. Mesmo com a “profecia” iluminista de que o século XX apresentaria o fim absoluto da religiosidade, foi possível ver que o inverso se deu, num processo sociologicamente chamado de reencantamento do mundo. Ao contrário do que se previa, os seres humanos nunca buscaram tanto uma esfera “encantada”, uma dimensão espiritualizada, como nos séculos XX e XXI.
Jesus continua a inquietar e a ser fonte de respostas para quaisquer pessoas. No entanto, para que um contato mais estreito com ele se dê e para que o coração de um ser humano possa ser realmente preenchido pela presença oceânica do Cristo, é preciso que uma subversão da ordem social se dê. É preciso também que uma humildade de reconhecer Jesus, um líder ainda marginalizado pelo conhecimento científico, se estabeleça, e que a busca não seja apenas por conta de sinais maravilhosos ou o carisma que ele tem, mas por causa da revolução do pensar e da mudança de mentalidade – para muito melhor, diga-se – que ele consegue provocar em qualquer pessoa.
Fazendo isso, qualquer um pode experimentar o verdadeiro gozo do espírito e uma paz que o mundo não oferece, pois nunca a conheceu. Só assim será possível descansar realmente em Deus, aquietar o espírito e, consequentemente, nascer de novo.

liberdade, beleza e Graça...