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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF, Doutor em Sociologia pela UERJ e Pós-doutor em Sociologia Política pela UENF. Pesquisador de Relações Raciais, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor do Instituto Federal de São Paulo.

sexta-feira, 23 de março de 2012

"Os desigrejados: procura-se uma boa igreja. Procura-se bons pastores"

Falar de catolicismo no Brasil é falar de pelo menos duas importantes categorias: os católicos praticantes e os católicos não praticantes. Segundo levantamento da PNAD, corroborado pelo Censo, e pela vivência que experimentamos no cotidiano, a maioria dos católicos não vivencia sua fé com muita regularidade. Pelo menos nos grandes centros, a assiduidade se limita a eventos marcantes, ritos de passagem, como o são o batismo, a primeira comunhão, a crisma e o casamento.

Em termos de mundo protestante/evangélico, no entanto, para além dos ritos de passagem que sempre lotam as igrejas, uma categoria de análise a mais se nos apresenta: temos os evangélicos diretamente ligados a uma igreja (praticantes), temos os afastados (não praticantes), desiludidos por conta de alguma decepção eclesiástica, quase sempre ligada a problemas de relacionamento, e temos os que agora parecem estar bem mais “na moda”; os desigrejados (praticantes, mas sem líderes e sem um ambiente formal de prática).

Os desigrejados não são pessoas que se afastaram da fé. Não são pessoas que decidiram “chutar o balde”, caindo na gandaia do mundão, e fazendo tudo o que a igreja chama de pecado ou desvio da fé e conduta cristãs. Não, os desigrejados não são pessoas que estão abandonando os ensinos de Jesus Cristo, bem como não são pessoas decepcionadas com Deus ou com a Bíblia. Os desigrejados são simplesmente ovelhas que não têm pastor; é gente séria, procurando igreja séria, mas sem qualquer sucesso nesta empreitada.

Tais desigrejados surgem no início do século XXI, como resposta à polarização que se efetivou com muita força no mundo evangélico brasileiro da última década. Cansados de um neopentecostalismo avassalador – e de sua teologia da prosperidade – de um lado, e de um moralismo castrador, de igrejas demasiado conservadoras, de outro, os desigrejados formaram o grupo mais interessante do movimento evangélico contemporâneo, haja vista ter fomentado – e estar fomentando – uma série de reflexões acerca da caminhada da igreja evangélica brasileira.

Justamente por conta de uma séria reflexão sobre o seu lugar na igreja e no mundo, este grupo tem chamado bastante a atenção, uma vez que, ávidos por uma mensagem bíblica profunda e sincera (daquelas que não partem da premissa de que os ouvintes são idiotas alienados), aliada a uma relevância social num mundo deveras desigual e corrompido, os sem igreja se nos apresentam como um importante grupo a se conquistar.

Os desigrejados não estão em busca de prosperidade material e nem de milagres sem limites e a qualquer custo. Em geral, é gente com boa condição financeira e de saúde. Além disso, por conta da formação que conseguiram ter e pela reflexão que desenvolvem, essas pessoas pedem bem pouco de uma igreja e de um pastor. Assim, nem é tão difícil responder às suas demandas, pois rapidamente se pode enxergar a essência do cristianismo naquilo que tal grupo pleiteia, já que nossos irmãos pedem apenas um pastor que tenha ouvidos realmente interessados em ouvir e ombros realmente interessados em suportar o peso de uma ovelha, como quer o Evangelho.

Talvez já estejam em curso as estratégias para reintegrar tal grupo a uma comunidade de fé. No entanto, dogmatismos e intolerâncias sem limites não ajudarão em nada, pois a maioria dos pastores não tem a formação e as informações de que dispõem os desigrejados. Do mesmo modo, promessas mirabolantes não estão na ordem do dia, já que, para um desigrejado, papo de Malafaia, Valdemiro, Macedo, Miguel Ângelo, dentre outros, já se tornou, no mínimo, mensagem de procedência maligna.


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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Edir Macedo e Valdemiro Santiago: o reino está dividido, o que é bom"

Edir Macedo e Valdemiro Santiago estão em pé de guerra. Os líderes da Igreja Universal do Reino de Deus e da Igreja Mundial do Poder de Deus, respectivamente, acabam de se declarar inimigos públicos um do outro. A razão, como não poderia deixar de ser, é a disputa pelo "mercado gospel" que se instalou com grande força no país desde o início dos anos 1980, com a chamada "terceira onda pentecostal". O curioso da história é que Valdemiro é cria do próprio bispo Macedo. Por razões que sempre estiveram presentes no meio neopentecostal, o reino, mais uma vez, se divide.

É importante lembrar que as divisões, que sempre fomentaram novos empreendimentos religiosos por essas terras, trouxeram também à tona igrejas como a Internacional da Graça de Deus, do missionário RR Soares, e a Igreja Evangélica Cristo Vive, do apóstolo Miguel Ângelo, para citar os exemplos mais famosos. Tudo começando, claro, com a Igreja de Nova Vida, do mentor de todos eles, o bispo canadense Robert McAlister, já no início dos anos 1960, no Rio de Janeiro, após rápida passagem por São Paulo.

Embora chamadas de igrejas evangélicas, misturando-se com denominações do protestantismo histórico, como é o caso das igrejas luterana, congregacional, presbiteriana, batista e metodista (alguns autores também citam a Assembleia de Deus aqui), o novo movimento evangélico brasileiro distancia-se muito dos principais fundamentos da Reforma liderada por Martinho Lutero, o que faz com que muitos pesquisadores e estudiosos das religiões não o considerem como ramificação do histórico movimento de separação da igreja católica medieval. No entanto, e para infelicidade de muitos, não é incomum ouvir-se de muitas pessoas as tradicionais frases de senso comum que acham que "é tudo coisa de evangélico". Mas na verdade não é. Ou, até é, se evangélico não significar um sinônimo para protestante, tese que defendemos sem qualquer titubeio.

A bem da verdade, ao movimento neopentecostal - ou pentecostalismo de terceira onda, como é chamado pelos especialistas no assunto - faltam os fundamentos mais basilares do movimento protestante. O tripé , graça e escrituras foi substituído por elementos que articulam, e de maneira muitíssimo inteligente, o caráter sincrético dos religiosos brasileiros e a força descomunal do sistema capitalista de mercado. Sim, o neopentecostalismo é uma junção de elementos das várias expressões religiosas que formam o caldo cultural místico brasileiro e uma lógica de mercado e lucro, fomentadora da tão falada Teologia da Prosperidade, tese em que o ser humano e Deus podem entrar numa sociedade, onde o fiel entra com dízimos e relacionamento com amuletos e Deus fica obrigado a cumprir sua parte no trato, entrando com o derramamento de bênçãos materiais e saúde perene sobre a vida do fiel ofertante.

Apesar de o senso comum os tratar como "farinha do mesmo saco", o protestantismo histórico decresce a cada novo dia, enquanto que os evangélicos neopentecostais crescem a todo vapor, fomentando a disputa acirrada que agora antagoniza Edir Macedo e Valdemiro Santiago, além de fazer com que o total de evangélicos/protestantes já ultrapasse a impressionante cifra de 20% da população do país.

Assistindo a um programa da Igreja Mundial, de Valdemiro, é possível vê-lo lançando a maldição do câncer de uma senhora - que Santiago diz ter curado em sua igreja - sobre um representante do ministério público, responsável por uma investigação que poderá tirar Valdemiro do ar nos próximos dias. Também pesa contra Valdemiro a acusação de Macedo de que ele alicia membros da Universal para que venham a trabalhar na Mundial.

Na mesma semana em que Valdemiro "lançou" um câncer sobre um funcionário público, os bispos da IURD fizeram um ritual de exorcismo - utilizando-se do corpo de uma mulher que saiu da IURD para a Mundial, mas que "voltou arrependida" - da legião de demônios que eles afirmam estar possuindo o corpo e atormentando a vida do ex-pastor iurdiano Valdemiro Santiago.

Não sabemos até onde vai essa história. No entanto, já podemos prever a qualidade dos próximos embates. Edir Macedo deverá chamar Valdemiro Santiago de pastor-corrupto-endemoninhado-charlatão e Valdemiro Santiago chamará Edir Macedo de bispo-corrupto-mentiroso-ladrão. Para tristeza de um país tão livre em termos religiosos como o nosso, e de um povo tão carente de boas referências no campo da espiritualidade, os dois estarão cobertos de razão.



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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

"Um bom professor vale um mundo inteiro"

Se decidíssemos escolher a profissão mais importante que existe, com certeza escolheríamos aquela que é responsável por formar todas as demais profissões. Deste modo, o professor estaria no topo de uma hierarquia de importância profissional e acadêmica e não se falaria mais nisso. Seguindo essa possibilidade, uma pesquisa feita com a população dos países mais desenvolvidos do mundo chegou à conclusão de que o profissional mais importante de uma nação é mesmo o professor, por razões como a apresentada acima.
Embora possamos concordar com isso e embora possamos mesmo ouvir nas ruas do Brasil e do mundo que o professor é o profissional mais importante de uma nação, visto que é pela educação que se faz uma potência, como aconteceu com a Coréia do Sul, tal profissão cai cada vez mais no descrédito, e cada vez mais é tida como menor por aqui, já que os governos insistem em não enxergar o óbvio.
Contudo, numa sociedade globalmente monetarizada e capitalista, onde o que conta é apenas a força da grana que ergue e destrói coisas belas, como diria o poeta, é extremamente interessante notar que já é possível falar-se em lucro ou prejuízo econômico - e em milhões de dólares - para aqueles que têm ou não a sorte de encontrar um excelente professor.
Pesquisadores estadunidenses e europeus acabam de divulgar uma pesquisa - que durou 20 anos - onde o impacto de se encontrar um bom ou um mau professor foi mensurado em números, ou melhor, em dólares. Sim, agora, ao invés de ficar apenas na memória dos alunos, como um bom ou um mau professor, tal profissional pode ser responsabilizado, também economicamente, pela construção - ou pela destruição - de uma história de vida.
A pesquisa mostrou que uma sala que convive com um professor ruim tem uma perda de mais de 2,5 milhões de dólares, visto que deixa de ganhá-los por pura falta de preparo escolar. Na outra ponta, os alunos de uma sala geram na vida um ganho a mais de 4,5 milhões de dólares, apenas porque tiveram um bom professor, tendo a oportunidade de aproveitar cada centavo que a boa formação lhes proporcionou. Importante é ressaltar que tal pesquisa foi feita na educação de base, e não nas universidades, como sempre foi de costume. Sim, estamos falando de educação de ensino fundamental e médio!
Um colega, professor universitário, sugeriu que colocássemos o salário dos professores da base no patamar de 5 mil reais mensais. Segundo ele, os profissionais se sentiriam valorizados e preparariam melhor as aulas, dando-as com prazer e dedicação, já que se sentiriam plenos do reconhecimento social que todo profissional busca e precisa ter.
No entanto, o mesmo colega defendeu que isso não daria certo, pois as outras profissões reclamariam o mesmo aumento e reconhecimento, o que, sabemos, não poderia ser feito para todos. Mas, ainda insistindo, se não dá para fazer para todos, não poderíamos fazer ao menos para a profissão que forma a todos? É algo que poderia ser pensado, mas é sabido que isso empacaria em trâmites burocráticos que remeteriam à Constituição Federal.
Ao fim e ao cabo, nosso "justo judiciário" barraria tal decisão, justificando sua ação pela inconstitucionalidade do ato, já que todos são iguais perante a lei, exceto os que julgam tal lei. Afinal, salários de 600 mil reais mensais para desembargadores e outros membros do judiciário, PODE!

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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Paralelos teológicos"

A carta do apóstolo São Paulo aos romanos é, segundo a maioria dos especialistas, o material teológico mais rico do Novo Testamento. É mesmo bastante difícil recusar tal afirmativa, pois o material contido nesta rica epístola é de uma profundidade teológica de fazer calar qualquer teólogo, ou leigo, chegando um doutor em Teologia da PUC-Rio a afirmar que "se Gálatas é o mestrado de Paulo, Romanos, com toda certeza, é o seu doutorado".
Os temas da epístola são riquíssimos e um deles salta aos olhos, já que é forte base para o pensamento cristão; a justificação pela fé, tema que perpassa alguns dos primeiros capítulos. O mais curioso é quando tal tema da justificação foca o tão falado pecado. Ao citar tal conceito, o apóstolo Paulo faz questão de submetê-lo à graça divina, conceito ainda mais difícil de se compreender. Seguindo tal linha de pensar, nosso texto pretende lançar luz sobre alguns versos que fecham o capítulo quinto e abrem o sexto.
Lei, pecado e graça dividem espaço neste pequeno trecho da epístola, onde se encontra o seguinte material: "Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. Assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reinaria pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Então que diremos? Permaneceremos no pecado, para que haja abundância da graça? De modo algum. Nós, que já morremos ao pecado, como poderíamos ainda viver nele?".
Tal texto é extremamente curioso, pois, não sendo bem lido, dá margens para uma quantidade imensa de interpretações precipitadas, sendo a principal delas a que mostra o pecado como fomentador do recebimento da graça. Assim pensando, quanto mais peco, mais recebo graça e, portanto, mais sou abençoado! É uma possibilidade de leitura, sim, mas é necessário não se apressar na hermenêutica, uma vez que o texto entraria em contradição consigo mesmo, se tal leitura ipsis litteris fosse levada a cabo.
O que prova o que defendemos é o "de modo nenhum" que aparece no final. Assim, é necessário buscar o princípio explicativo para uma atitude de pecar que, quanto mais abundante, mais graça traz ao indivíduo pecador. Nossa proposta, então, não para em Paulo, mas lança mão de contribuição ulterior, nas letras de Santo Agostinho de Hipona.
É de Agostinho, entendemos, a conceituação de pecado que mais "ajuda" Paulo na sua construção teológica. Deste modo, ao conceituar pecado como "um erro do alvo", Agostinho contribui de forma singular para a compreensão do trecho de Romanos que nos é foco de reflexão aqui. Sendo o "errar do alvo", o pecado teria, sim, como ser fomentador do derramamento de mais graça, pois esta seria derramada para o "ajuste da direção da flecha". Deste modo, quando mais erro o alvo, mais a graça divina é derramada, no intuito de que "a mira" do pecador seja mais "afinada", fazendo-o errar cada vez menos.
Ao invés de ser fomentador daquilo que Dietrich Bonhoeffer chama de "graça barata", o pensamento de Paulo seria não um "libera-geral" para boa parte dos cristãos, ávidos por permanecer numa velha natureza distanciada do re-ligare, mas reflexo de um gesto afável de um Deus que conhece os dramas de um ser humano que busca fazer o certo, acertando o alvo, mas que, limitado em si mesmo, não enxerga um palmo à frente do nariz e nem sabe aonde o alvo estabeleceu morada.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"O ateísmo, sem a religião, não sobrevive"

O filósofo suíço Alain de Botton está no Brasil para lançar a sua curiosa e mais recente obra Religião para ateus. Abordando temas como amizade, inveja, desejo e arte, Botton traz como sua contribuição mais interessante a atitude de sempre buscar demonstrar como os ensinamentos de filósofos como Platão, Montaigne, Nietzsche, Schopenhauer, Sêneca e Sócrates podem nos ajudar a enfrentar as aflições do dia-a-dia no mundo moderno.
Com tal postura, o autor entende que será possível construir um arcabouço literário que tenha o poder de substituir os textos aceitos como sagrados, destronando a religião e sugerindo autores que teriam o poder de fazer o mesmo que faz a religião, só que num ambiente laico.
Posicionando-se como ateu, o filósofo divide as pessoas em dois grupos: "aqueles que acreditam num conjunto de doutrinas e entram para uma comunidade religiosa, e aqueles que, com a ajuda da CNN e do Wal Mart, tentam dar conta de uma vida própria espiritualmente vazia". (Repito: CNN, Wal Mart, vazia).
A postura de Botton em relação à religião foge à regra geral de muitos intelectuais ateus, uma vez que este filósofo entende que as contribuições das religiões não podem deixar de fazer parte da visão de mundo de todos os povos. Neste sentido, o autor defende que é possível ser ateu e mesmo assim admirar a música sacra, os rituais religiosos e as catedrais que ocupam as milhares de cidades em todo o mundo.
Sugerindo a obra de Shakespeare ao invés do Evangelho, Alain de Botton defende que é possível encontrar-se uma maneira laica de ensinar as pessoas a viver, uma vez que a religião consegue fazer isso muito bem, já que se utiliza de uma ferramenta extremamente eficaz para a fomentação de ideias, que é a repetição.
Assumindo que a religião é muito mais objetiva na educação das pessoas, Botton entende que seria preciso que a universidade fizesse o mesmo que as comunidades religiosas, assumindo o papel de educar para a vida, já que "a doença moderna da solidão clama por uma saída laica inspirada nas instituições religiosas".
Botton não é inédito ao dizer que "o problema não é a ausência de liberdade, mas o excesso dela", mas contribui de forma inovadora ao contrariar a tese weberiana que defende a religião como fonte privilegiada de sentido para a vida, pois Alain de Botton entende que, inspiradas nas organizações religiosas, muitas instituições laicas, chamadas "Escolas da vida", poderão ensinar as pessoas a viver, devolvendo o tal sentido que a chamada racionalização da vida colocou em crise, segundo a tese de Max Weber.
Inspirado nas muitas doutrinas de religiosos, Botton propõe que o ser humano moderno precisa abrir mão de parte do excesso de liberdade que tem, buscando assim "algo que possa ser bom para o seu viver". Para muitos que achavam que a religião morreria com a intelectualização do mundo, está aí mais um genial filósofo, de apenas 41 anos, a inspirar os ateus a afirmarem categoricamente: "Sou ateu, sim, graças a Deus!".

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"A adoção, a decepção e a morte"

A morte de Steve Jobs, há poucos dias, conseguiu mostrar a maneira como se está construindo - e bem mal, diga-se - notícias nos dias atuais. Foi notória a tentativa de fazer com que Jobs se tornasse em algo que ele, definitivamente, não foi e não é. O fundador da segunda empresa privada mais lucrativa do mundo não é um deus, bem como não tem a relevância que a grande mídia insistiu em tentar criar. Diga-se de passagem - e com todo o respeito à genialidade de Jobs - o dono da Apple, para a grande maioria das pessoas do mundo, tinha quase nada da tal relevância acriticamente criada, já que a maioria das pessoas não sonha, descabeladamente, em ter algum produto da Apple para se sentir fazendo parte do mundo, uma vez que a luta é ainda pelos bens mais básicos para a sobrevivência. À frente da mega loja da Apple em Nova York, no dia seguinte à morte do genial Jobs, apenas jornalistas; o povo, "curiosamente", tinha bem mais o que fazer.
Se o jornalismo que temos hoje está cada vez menos comprometido com os fatos e com a verdade, e muito mais comprometido em criar factoides engendrados por grandes corporações de mídia, ao menos podemos usar o evento da perda de Steve Jobs para crescer com algo do seu legado que supera, e em muito, os seus excelentes ipod´s, iphone´s e ipad´s. O grande legado de Jobs foram os três principais marcos de sua vida e a forma como ele os encarou, ainda que, por vezes, involuntariamente.
Rejeitado por uma mãe jovem, que não tinha condições de criá-lo, Steve Jobs foi adotado por uma família que também não tinha a condição material para criar um menino com dignidade, embora tivesse carinho de sobra. A adoção, que chegou quase a ser desfeita, por conta de a mãe biológica ter descoberto que os pais adotivos também não tinham recursos para levar o menino à universidade, acabou por ser a primeira das melhores coisas que aconteceram na vida de Jobs.
Com todo o esforço da nova família, o menino chegou ao ensino superior, mas, como o mesmo onerava demais o orçamento da casa, o jovem decidiu que não era justo que sua família gastasse as economias de toda uma vida para que ele se formasse. Abandonando a graduação, mas frequentando ainda por uns tempos algumas matérias que realmente lhe interessavam, Jobs alcançou a genialidade que nenhum banco escolar pode dar, uma vez que surge da alma que tem fome de conhecer e não tem medo de ser chamada de boba e até de rir de si mesma.
Se a adoção, ao fim e ao cabo, teve um peso positivo, a grande decepção teve ainda um efeito mais benéfico. Após construir uma empresa que faturava bilhões, Steve Jobs, que não tinha uma personalidade das mais brandas, diga-se, entrou em conflito com alguns acionistas e, pasmem, foi demitido da própria empresa que criou! Se tal decepção tinha força para deprimir qualquer pessoa - e inicialmente o fez a Jobs -, tinha também potência para aguçar ainda mais a fome pelo desconhecido e pela inovação. O dono demitido criou outras empresas, que, compradas ulteriormente pela própria Apple, o colocaram de volta no lugar que lhe era de direito, fazendo com que uma organização que, sem ele, esteve à beira da falência voltasse a figurar na lista das mais lucrativas do mundo.
Abandonos e decepções acontecem o tempo todo em nossas vidas. Já a morte, acontece uma só vez, democratizando e igualando a todos, sem qualquer possibilidade de "jeitinho". Se Steve Jobs conseguiu, como poucos, aproveitar o abandono e a decepção, a morte o fez impotente - tal como o faz a todos -, ainda que bilhões de dólares estivessem ao seu alcance.
Sim, fica o legado da força de vontade e da persistência de um ser humano que revolucionou a forma como as pessoas se comunicam. Todavia, fica também a lição que todos devemos aprender: a vida é frágil demais e Steve Jobs não é deus. Deus não morre.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Desconstruindo Fukuyama"

Francis Fukuyama é um ideólogo nipo-estadunidense que, no final do século XX, trouxe à tona uma ideia hegeliana de "fim da história". Tal tese defendia que quando a humanidade atingisse um perfeito equilíbrio, sem os antagonismos que sempre a caracterizaram, a história chegaria ao fim. Tal caminho seria alcançado com o pleno desenvolvimento do liberalismo e da igualdade jurídica e, já que a história era vista, em muitas teorias, como resultado dos antagonismos existentes entre as nações, o triunfo do capitalismo sobre o socialismo faria cessar a força de tal motor da história, que é como é chamado tal processo.
O ponto culminante para a ratificação da tese seria, segundo Fukuyama, a queda do muro de Berlim, em 1989, pois, segundo tal autor - e vários que o acompanharam na época -, a queda do muro simbolizava, também, a impossibilidade de uma alternativa ao capitalismo de mercado, coroando, com isso, a chamada democracia burguesa.
Mais de vinte anos se passaram e a queda do muro, ao invés de ter simbolizado o tal equilíbrio proposto pela tese hegeliana, lida também em Fukuyama, trouxe uma espécie de orfandade; uma sensação de que se está mesmo numa "jaula de ferro" e que não se pode mais escolher algo a se pensar ou fazer, já que não existe a possibilidade de escolha num sistema de caminho único. Ao contrário do equilíbrio prometido, poucas vezes na história da humanidade o mundo esteve tão desequilibrado e tão carente de uma alternativa que nos permita respirar.
Para confrontar apenas uma das teses do neoliberalismo, vivenciando e analisando a ideia de "estado mínimo", pudemos perceber que, na hora em que o mercado "confessou" sua ineficiência na resolução das crises que ele mesmo criou, o estado precisou ser "máximo", já que teve - e tem ainda - de se contorcer de todas as maneiras para conseguir salvar bancos, agências de crédito e grandes corporações capitalistas.
Embora muitos confundam socialismo com autoritarismo - tendo em vista os equívocos cometidos por alguns que se diziam "do social" -, este parece ser ainda um sistema de governo viável, sobretudo com o aperfeiçoamento do processo democrático, que, ao contrário do que apregoam alguns discursos reducionistas, é condição fundante de um governo realmente socialista.
Acontece, no entanto, que a questão agora parece ser mais de orgulho do que outra coisa, pois dificilmente alguma nação envolvida na "bolha" em que se tornou esse mundo monetarizado teria a coragem de admitir que o capitalismo se esgotou e que não se deu o perfeito equilíbrio apregoado por Hegel e Fukuyama, mas que, ao contrário, vivemos uma perda praticamente total de sentido e uma situação que beira à anomia.
Não sabemos aonde Grécia, Espanha, Itália, Portugal - e muitos outros que ainda virão - levarão a Europa, bem como não sabemos até quando se vai acreditar que os Estados Unidos têm condições de sair do atoleiro, pagando o que devem aos milhares de credores. Mas uma coisa é certa: se a única alternativa continuar sendo a "guerra ao terror", que todas as cabeças reflexivamente pensantes já sabem ser uma falácia de um império em ruínas, a história voltará a dar as caras, dizendo com todas as letras: "eu não posso ter fim".

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