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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF, Doutor em Sociologia pela UERJ e Pós-doutor em Sociologia Política pela UENF. Pesquisador de Relações Raciais, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor do Instituto Federal de São Paulo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

"E chegou o grande dia"

Era o meu aniversário e eu descia bem cedinho de um ônibus na rodoviária Novo Rio, na cidade do Rio de Janeiro, para aquele que seria um dia com algo bem mais importante do que fazer mais um ano de vida; eu seria Doutor em Sociologia, tão logo o sol desaparecesse naquela quinta-feira, 05 de novembro, dia da cultura e do cinema brasileiro.

Tornar-me doutor era um sonho de muitos anos. Para falar a verdade, poderia até ser algo impensado para um jovem que passou a infância em um orfanato no interior de São Paulo, e que há poucos anos estava capinando pés de laranja em São José do Rio Preto. Filho de uma família de analfabetos funcionais, colar grau de doutor era a honra que faltava ao meu povo, gente de tão poucas letras.

Relembrar os momentos em que, com a enxada na mão, eu olhava para o horizonte e perguntava a mim mesmo se eu seria alguém na vida um dia, foi algo fantástico, pois enfim eu poderia dizer: "sim, acho que agora deu certo; posso falar que sou alguém". Não que apenas colar tal grau me faria "alguém", mas, tendo em vista a situação em que eu me encontrava há anos, o título de doutor era algo para além de um grande sonho bom.

Os amigos não puderam lá estar, já que estavam em horário de trabalho, mas confesso que tal solidão foi até benéfica, pois a ansiedade com a situação me faria ainda mais nervoso, caso eu encontrasse "torcedores" no local. Assim, ninguém viu. Se eu não tivesse a ata para provar, poderiam até duvidar que o ocorrido tenha mesmo se dado. Comer sozinho no Giraffas da rodoviária, aguardando o ônibus sair de volta para Vitória, foi também algo emblemático. A primeira grande solidão de um doutor.

Cumprindo a promessa de que eu me daria um chapéu panamá de presente, agora sou um homem que usa tal acessório. Talvez o chapéu me envelheça, é certo, mas tem coisas que só a "velhice" deveria mesmo trazer. Assim, de panamá na cabeça, agradeço a Deus por ter me possibilitado chegar tão longe, sentindo-me feliz por estar em um grupo que, dadas as circunstâncias de outrora, teria tudo para não me receber. Todavia, sendo agora recebido, confirmo a poesia da Elisa Lucinda, defendendo categoricamente que "sei que não dá para mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final". Eu quero.

liberdade, beleza e Graça...


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"Os responsáveis pelo que acontece na Síria e no Iraque"

Poucos sabem, mas a situação em países do Oriente Médio e em outros mais ao extremo Oriente se repete em históricos de alianças e desavenças que nos fogem à compreensão. Os que outrora eram aliados, em pouco tempo se tornam inimigos de marca maior, a ponto de lembrarmos que Saddam Hussein foi aliado dos Estados Unidos na guerra entre o Irã e o Iraque, mas veio a se tornar o inimigo número 1 da nação dos Bush. Do mesmo modo, Osama Bin Laden foi muito útil no apoio aos Estados Unidos, quando da luta para a expulsão da antiga União Soviética do Afeganistão, bem como outros exemplos, que poderiam aqui inspirar uma análise da situação atual na Síria e no Iraque. 

Se o grande inimigo hoje é o Estado Islâmico, seria Bashar Al Assad o malvado favorito da vez? Parece que sim, embora isso gere discordância séria entre os estadunidenses e os russos. Para Vladimir Putin, presidente da Rússia, o melhor caminho é retornar ao cardápio de sempre: usar o exército de Assad, apoiando-o com armas e logística agora, e ver no que dá depois, como já foi feito com outros malvados de marca maior. Já para Barack Obama, um apoio a Assad é uma afronta e o melhor seria uma guerra onde se prescindisse do apoio do presidente sírio.

A grande verdade é que o mundo é o que é hoje sobretudo por conta de intervenções estadunidenses que não fazem para além de marcar território e tentar a todo custo uma possibilidade de novos recursos energéticos, razão pela qual ninguém se interessa por enfrentar o Boku Haram, já que ali parece não haver petróleo em jogo. Deste modo, ainda que este grupo mate muitas vezes mais do que o Estado Islâmico, a morte de 10 mil pessoas na África não tem o mesmo peso de um assassinato de 6 jornalistas em plena Paris, o que leva 3 milhões de pessoas às ruas, incluindo as maiores autoridades europeias. Como se vê, existem lugares aonde se pode morrer; aonde tranquilamente se deixa morrer.

O Iraque está em frangalhos e integrantes do Partido Republicano estadunidense ainda acham que a saída é uma nova intervenção militar. A Síria está em frangalhos e uma ocupação estadunidense também é tida como uma saída, embora os democratas, parceiros de Obama, entendam que é melhor não se expor tanto. A compreensão de tal discórdia pode ser solucionada pelas contribuições da Teoria Política, infelizmente pouco acessada pelos que intentam trazer respostas aos dramas citados.

A Teoria Política mostrou que, nos Estados Unidos, em tempos de eleições, dois fatores são fundamentais para o sucesso de uma empreitada em busca da presidência: a economia precisa estar crescendo e os militares precisam estar voltando para casa. Com a proximidade do pleito que antagonizará provavelmente Hillary Clinton a Trump, Mc Cain ou outro azarão de última hora, seria interessante para Obama a retirada de novas tropas no exterior, visto que a economia, o outro indicador explicativo, já está em crescimento por lá. Para os republicanos, por sua vez, é importante conseguirem convencer Obama a enviar tropas agora, o que retiraria grandes chances do partido do atual presidente em se manter no poder.   

Assim, que se matem na Nigéria, na Síria ou no Iraque, pois agora é muito importante não enviar tropas e não deixar a "peteca econômica" cair. O Estado Islâmico, mesmo com a utilização que parece estar fazendo de armas químicas, só será destruído - temporariamente, já que depois tudo volta ao que era antes, como a experiência mostra - quando uma intervenção militar por terra acontecer. Mas a Teoria Política mostra que isso não deverá acontecer. Afinal, para que esse enfrentamento acontecesse, só se torres começassem novamente a cair no quintal do Tio Sam. Mas agora isso é muito difícil; elas parecem mais firmes no seu lugar.

liberdade, beleza e Graça... 


terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Quando a corrupção aparece, é sinal de bons tempos"

Tem coisas que são impossíveis de se entender no Brasil. A reclamação acerca do surgimento de denúncias de corrupção é uma delas. O povo parece não gostar de saber que estão roubando, e roubando desde que Cabral aportou por aqui. As denúncias, as prisões e tudo o que remete aos males feitos por pessoas importantes da nação parecem soar como algo negativo da parte de um governo. Mas seria isso correto? É claro que não. Não há nada mais benéfico para uma democracia do que o povo estar a par do que acontece, ainda que o acontecimento esteja relacionado a roubos dos mais variados matizes.

Alguns pensam, ingenuamente, que a corrupção começou de 2002 para cá. Pelo menos é essa a ideia que pretendem espalhar muitos dos veículos de mídia, que não se cansam de vender a ideia de que a corrupção quando aparece é algo ruim, sendo que também depõe contra o governo em andamento. Mas é importante que se espalhe o contrário, pois nada é pior para uma democracia do que o povo pensar que tudo está bem, quando na verdade muitos roubam, corrompem e se corrompem, a torto e à direita, mas sem que qualquer possibilidade de investigação traga a verdade à tona.

Portanto, é hora de mudar a forma de pensar. É hora de fazer o contrário. É hora de querer que toda a corrupção existente venha à luz, sem que os governantes intervenham na atuação da Polícia Federal e do Ministério Público, mesmo que isso soe negativo para os mercados, sempre ávidos por terras onde o grau de investimento e confiança seja alto, sendo que isso implica em camuflar muito do que fazem os operadores de um capitalismo que há muito se esgotou. Afinal, de que adianta a satisfação dos mercados com uma economia que, escondendo os podres de um país, mostra pujança lucrativa, mas esconde o que fazem na surdina os que verdadeiramente lucram com tal lógica, a saber, os especuladores de uma globalização que valoriza mais o capital inexiste do que aquele que realmente existe e pode mudar positivamente a vida dos povos?

Por isso, que venha um final antológico para os mensalões, todos eles: o do PT, o do DEM, e o de quem mais for. Que venha o final da Lava Jato, punindo todos os culpados, sem qualquer seleção midiática de nomes. Que venha ao menos a menção da Operação Zelotes, pois ela parece inexistir, sendo que é mais importante do que todas as outras. E que nunca mais tenhamos no país finais decepcionantes como o da Operação Satiagraha, onde, por conta de "uma vírgula", todo o processo foi anulado e os corruptores voltaram a andar soltos e felizes, rindo na cara de um povo que já se cansou de ser feito de besta, já que percebe com muita clareza que o Daniel Dantas e o Roger Abdelmassih só estão soltos por terem a simpatia de um daqueles que, a bem da verdade, até deveriam temer: o ministro Gilmar Mendes, o preferido de toda a bandidagem direitista e de colarinho branco que chega ao STF.

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

"De volta pra casa"

Depois de 3 anos, lá estava eu novamente no interior de São Paulo, onde fui criado até o final da adolescência. Falar em 3 anos é falar em pouca coisa, eu sei, mas dessa vez foi diferente, e três anos se tornaram em décadas, já que decidi fazer uma viagem no tempo em sentido bastante amplo; a ideia era visitar gente que eu não via desde o início da adolescência, já que tenho tios, tias, primos e primas que não me viam desde os meus 15 anos de idade.

Chegar e perceber-me tio já foi algo sensacional. Carlos Henrique tem dois anos e é um sobrinho lindo e inteligente. Fã inveterado dos palhaços Patati e Patatá, ganhou o Patatá em tamanho gigante, já que tem o Patati, dado pelo pai, meu irmão Fernando. Ver uma criança eufórica, tentando retirar um palhaço quase que do seu próprio tamanho de uma caixa colorida é algo impagável. Mais impagável ainda é ver que, após abraçar o palhaço, o menino corre e até se esquece do recém-conhecido tio e do mundo todo que o cerca. O Patatá é o foco e o Henrique tem toda a razão de pensar assim. Eu também faria isso.

Descobrir tios e tias encurvados pela doença e pela idade também faz refletir sobre o tempo e a vida. Outrora estavam com muito vigor e davam as ordens e as motivações para tudo e todos. Hoje, precisam da gente. Precisam de gente. Precisam de filhos, de sobrinhos, de netos. O tempo não poupa ninguém. De repente, uma geração de cabeças-brancas; gente que outrora tinha como que carvão na cabeça, de tão pretos que lhes eram os fios. O tempo passa. Judia da gente, eu diria. 

A paixão da adolescência já é uma respeitável senhora. Casada, mãe de filho e muito bem colocada socialmente. Hora de todo o platonismo se dissipar. Tudo o que nunca foi também já acabou. O bom é saber que, se você amou e não teve, ao menos quem teve tem boa índole e cuida bem, assim como era o sonho seu, jamais realizado. Ela está bem e parece muito feliz. O marido é bonito, bem-sucedido. O filho puxa a ambos. Família feliz, eu acho. Parece, sim.

A vida deu certo para alguns. Deu errado para outros. Muita burrada foi feita. Acertos também. Burradas marcam mais. "É sua filha?". "Não, é minha neta; filha da minha filha". "Mas sua filha já tem idade para ter filha?!". "Não". (Nem sei porque faço certas perguntas. Deveria ficar calado). Sim, tenho primas de terceira geração; filha da filha da minha prima. O tempo é duro e a falta de oportunidades e as muitas escolhas também nos cobram caro. 

Estou bem e todos elogiam e se orgulham. Mas o desterro é irreparável. Não choro mais ao entrar em São José do Rio Preto. Não sinto mais que estou voltando pra casa quando visito a cidade. Apenas percebo o tempo. Ele passou. Passa e a gente não vê. Volto pra Vitória, que também não é entendida como casa, como lar. Errante pelo mundo, tento encontrar lugar e "fazer deste lugar o meu lugar", como diria a minha amiga Zélia Duncan. Mas o desterro é inevitável. Voltar? Não. Quem era amigo hoje nem reconhece; as referências todas mudaram. Nenhuma grande referência permaneceu incólume pelo tempo. Tudo mudou. Voltar seria estar num outro lugar, não na Rio Preto que me viu crescer. Um homem sem lugar, fora do lugar. Voltando pra casa depois de 8 dias? Nada. Voltando pra rotina. Desterrado não tem casa. Como diriam os Titãs: "Eu sou de qualquer lugar. Eu sou de lugar nenhum".

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terça-feira, 30 de junho de 2015

"Malafaia, não me defenda: vá procurar uma pomba!"

Nos últimos dias, fomos atropelados por uma bizarra discussão entre o jornalista do Grupo Bandeirantes, Ricardo Boechat e o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia. Teve de tudo, como é sabido, chegando o jornalista a proferir uma frase que muitos gostariam de falar a Malafaia, já que este, ao ser confrontado, adora dizer que o sujeito que discorda dele é um asno, falastrão, falador de besteiras e que deveria topar um debate com ele, Silas, que deve ser um exímio debatedor, já que vive querendo provar a todos que está sempre com a razão, e nunca errado, sendo que me parece estar errado, mais uma vez.

Boechat denunciava o abuso de poder de alguns líderes evangélicos, o que é de conhecimento de quase todos, sobretudo daqueles que se dão ao simples trabalho de ler algum jornal ou acompanhar nas suas próprias igrejas a postura de líderes cada vez mais interessados em seu próprio umbigo, o que gera um distanciamento cada vez maior entre a demanda do povo cristão e o que segundo a Bíblia se espera de alguém que se autodeclara pastor de ovelhas.

A postura de Malafaia, agora, e como sempre, continua a ser a mesma: vai à justiça tentar retirar algum dinheiro de Boechat, o que não implicará em nada, já que o jornalista tem recursos para pagar, embora vá perder um bom tempo nisso tudo, uma vez que terá de enfrentar, além do tribunal, a cara de vitorioso de Silas, uma vez que o dito pastor, mais uma vez, tem tudo para ganhar, embora devesse perder, já que passou da hora de isso lhe acontecer.

Embora não represente o mundo evangélico como um todo, mas apenas um segmento dele, a imagem pública que Malafaia teimosamente oferece é a de que todo evangélico pensa e age como ele, o que seria uma pena, se fosse verdade, já que teríamos muito mais intolerantes no mundo, gerando mais e mais ódio, como o que tem fomentado a postura infeliz do líder assembleiano. Felizmente, não seguimos o Silas. Só que a opinião pública que é construída via grande mídia insiste em afirmar o contrário.

De mal a pior, Malafaia vai ajudando a construir uma imagem péssima dos evangélicos brasileiros, já que, de gente séria e que tem consigo uma ética que não lhes permitia o engano, a mentira, a intolerância e a corrupção, os evangélicos estão se tornando cópias de um homem que, pelo que demonstra, está muito distante do que Jesus pregou e viveu. Definitivamente, Silas Malafaia, com sua postura intolerante, grosseira e autoritária, não se assemelha em nada com a postura que Cristo ensinou e viveu.

Dá saudades de uma época em que o mundo evangélico era representado por gente boa de diálogo, gente conhecedora de política, gente boa de ouvido, gente de conversa sadia e sábia. Malafaia é bom de boca, mas é péssimo de ouvido. Sobretudo se o que tem a ouvir não é o que ele gosta e pretende sempre ouvir, isto é, a sua própria vontade. Assim, provocando uma separação que muito se assemelha à chamada "reforma radical", o dito pastor vai construindo um abismo entre os cristãos e o mundo que os cerca, provocando uma indisposição social que tem tudo para se tornar em uma ojeriza por evangélicos em pouquíssimo tempo. Há quem diga que isso até já existe. 

Se Malafaia soubesse pedir perdão e se reconhecesse que erra demais para um líder que se pensa quase inerrante, teríamos algo de bom a falar dele. Mas, como isso já parece ser algo utópico, só nos resta pedir que ele vá procurar uma pomba; a pomba da paz. Sim, melhor procurar outra ave, a pomba. Afinal, a rola o Boechat já o mandou procurar.

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

"Caminhos da espiritualidade"

O capítulo 21 do Evangelho de São João nos traz a história belíssima de um reencontro perdoador. Trata-se do reaparecimento, em carne e osso, segundo o relato bíblico, de Jesus de Nazaré, três dias depois de ter sido morto por seus adversários, líderes religiosos de uma Palestina dominada pelo Império Romano e pela religiosidade manipuladora de um sacerdócio judaico obsoleto. 

Se é possível tirar lições contemporâneas de um texto tão distante de nossa realidade, tais lições versam primeiramente sobre a postura incrédula dos discípulos de um nazareno seguido de bem perto por três longos anos. É curioso que nenhum dos seguidores de Jesus estivesse crente na sua ressurreição. Tanto que nenhum cogitou aguardar pelo reencontro provocado pelo próprio mestre.

Se o sonho havia acabado, nada mais restaria fazer, senão voltar ao que se fazia antes de conhecer "o caminho". Assim, num momento que parece fruto de um silêncio ensurdecedor, Pedro tem a ideia de pescar, voltar a fazer o que fazia antes, sem qualquer menção à garantia de ressurreição. Como ninguém mais tinha opção melhor, todos respondem "vamos contigo!", seguindo para o barco que enfeitava o lago. 

O problema é que, após um encontro genuíno com Jesus, é impossível voltar a se fazer o que antes era cotidiano e fruto de muita habilidade. O encontro com os adeptos do Caminho muda radicalmente uma pessoa, de sorte que, se esta, decepcionada com algum "desaparecimento" do mestre por uns tempos, tentar voltar à vida que tinha antes de tê-lo conhecido, dificilmente conseguirá fazer as mesmas coisas com a mesma qualidade. Quem roubava já não rouba tão bem, não esconde bem o produto levado e nem o semblante frustrado de vergonha. Quem matava já não tem o mesmo estômago, já não maneja bem a faca. Quem vivia de mentiras, ruboriza diante da possibilidade de ser descoberto. Quem pescava habilmente, já não sabe da lógica dos peixes. O encontro com Jesus muda tudo. Não se consegue ser mais o mesmo e não se volta ao passado sem um alto nível de frustração.

Jesus aparece na praia e grita aos discípulos se tinham pegado algo. Ao saber que não, insta-os a lançar a rede para o outro lado do barco, onde uma multidão de peixes os esperava. Cena conhecida; já vi isso antes, não?! Quando Jesus parecer ter decepcionado um indivíduo, tendo este voltado ao que antes fazia, a misericórdia divina sempre mostrará algo que lhe trará à memória aquilo que lhe poderá dar esperança. Um cântico, um panfleto, um convite para uma reunião; alguma coisa que o fará pensar: "eu já estive aí, eu já acreditei nisso tudo". 

João percebeu a nova oportunidade e gritou a Pedro que se tratava do Senhor. Pedro, o que tinha negado, mentido e somado uma série de razões para se perceber indigno de um reencontro perdoador, lança-se na água e nada ao encontro de Jesus, sem medo de ouvir "mas você não merece, pois me negou três vezes!". Enquanto Pedro nada, os outros chegam à praia no conforto do barco. Na areia, pão e peixe sobre a brasa. Um convite para comer, expressão máxima do cristianismo do Caminho.

Pode ser que o Cristo vendido a nós seja algo falso. Pode ser que, por conta disso, ele desapareça e seja reconhecido como morto e inoperante. Pode ser que voltemos às práticas antigas, refutando um encontro que converteu tudo e mudou positivamente o rumo de nossa história. Pode ser que nossos vacilos cotidianos nos convençam de que os que negam, mentem, roubam ou profanam o santo nome de Deus não merecem ser novamente recebidos por Jesus. 

Todavia, voltar atrás é impossível (pelo menos com a mesma habilidade), pois não se peca mais com a "qualidade de outrora". Não se sabe mais pescar tão bem como em tempos idos e, independentemente do que se possa pensar acerca das fragilidades nossas - e de nossa própria vergonha diante de um Deus inocente, mas por nós traído - o convite sempre estará ali. Pão, peixe, fogueira acalentadora e brisa de sobre as águas a referendar um "Vinde, comei!".

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sábado, 25 de abril de 2015

"E a Operação Zelotes, você conhece?"

Todos os dias somos inundados por informações vindas dos veículos de mídia, mas quase nunca se pergunta sobre o que não é trazido. Nunca ouvi alguém esperar da mídia o que a mídia não revelaria. Sim, parece que somos acostumados a acreditar que a grande mídia de massas no Brasil traz à tona aquilo que tem de ser trazido, por pura obrigação social, compromisso com a verdade e responsabilidade de imprensa. Mas não é assim que a banda toca, já que desde março de 2014 ouvimos ininterruptamente falar da Operação Lava Jato, mas não conseguimos, nem com muito esforço, ter a grande mídia empenhada em dar míseras linhas para a Operação Zelotes.

Vendo e ouvindo panelaços e buzinaços em dias de fala da presidente do país, bem como de quaisquer de seus aliados, pergunto sobre as razões, e encontro falas que apontam para a Lava Jato, para a corrupção no país e para os desmandos de "um governo que o povo não quer mais", sendo que, como eu disse em texto anterior, não se trata do povo, mas da parte dele que não votou na presidente, segundo dados do próprio Instituto Datafolha. Mas, perguntando aos adeptos de tais barulhos, não encontro um sequer que conheça a Operação Zelotes. E me pergunto a razão, já que, perto de tal operação, a Lava Jato é apenas um cantinho onde se pode lavar um carro pequeno.

No intuito de contribuir, então, para o aumento do nível de informação e crítica de um contingente que se entende "informado e muito bem munido intelectualmente", apresento aquilo que não aparece em telejornal algum, em revista semanal golpista alguma, em nenhum anúncio que se mostre contra a corrupção no país. A Operação Zelotes investiga 105 mil processos, que totalizam um montante de 520 bilhões de reais em fraude tributária (sim, eu disse 520 bilhões!), sendo tudo escondido mediante propinas de montadoras de veículos, bancos privados, corporações de mídia etc.

A grande crise é: onde estão os "furos de reportagem", os "vazamentos de informação" (nos quais a Veja sempre se mostrou "especialista"), onde as "fontes idôneas", que nos possam revelar os nomes de gente de projeção nacional nos âmbitos político e empresarial? E onde está a opinião pública, que "não tolera mais a corrupção do PT"? Simplesmente não há. Opinião no Brasil é publicada e não pública, como já mostrei aqui, utilizando-me de teorização de um intelectual interessante chamado Patrick Champagne. Portanto, se a grande mídia não publica, se o Jornal Nacional não veicula, não há opinião pública, pois ela não se alimenta criticamente; só repete o que dizem ser a verdade.

A explicação para não termos opinião pública quanto a isso começa por uma afiliada da Rede Globo em Santa Catarina, a RBS, que, acusada de pagar 15 milhões de reais em propina para esconder um débito de mais de 150 milhões, se apresenta como razão, para lá de justificada, para que a emissora da família Marinho não dedique um minuto sequer a mostrar a corrupção que assola o país, via sonegação fiscal, algo que a "vênus platinada" faz com muita destreza em se tratando da Lava Jato e de quaisquer ilícitos praticados pelo PT, ou qualquer aliado de um governo que eles querem ver derrotado.

É claro que a Globo, via RBS, não é a única envolvida nisso tudo. Estão sendo investigadas a Ford, a Mitsubishi, a BR Foods, a Camargo Corrêa (que também aparece na Lava Jato), a Light, a Petrobrás, o Bradesco, o Santander, o BankBoston e o Banco Pactual. Tudo gente grande, tudo gente fina, tudo gente que bate panelas e faz buzinaços "contra a corrupção do PT", sendo que só essa turminha já usurpou de nossos cofres a bagatela de 5,7 bilhões de reais! 

O esquema, como não poderia deixar de ser, é sofisticado. Tais empresas atuavam junto ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão da Fazenda onde contribuintes podem contestar administrativamente (sem passar pela Justiça) certas tributações aplicadas pela Receita Federal. O negócio era reduzir - ou até fazer desaparecer - os débitos fiscais no Carf, controlando os resultados dos julgamentos por intermédio de pagamentos de propinas, como a de 15 milhões da afiliada da Globo, e deixando de pagar aos cofres públicos o montante assustador de 520 bilhões de reais, no total dos 105 mil processos investigados.

Por isso tudo, não vejo qualquer sentido ou empolgação em panelaços e buzinaços, pois trata-se de uma turma que, ou não sabe de nada, ou é gente que, achando que vai mudar o mundo e que está lutando contra a corrupção, está referendando uma situação muito mais corrupta, ainda que acobertada por uma inocência que vai sempre entender que lava jato é lugar de carro e zelotes são os membros do grupo ao qual também pertencia Judas Iscariotes. Se pelo menos esses apoiadores de um terceiro turno no Brasil, via panelaços e buzinaços, à luz deste texto, alcançarem tino para ligar a Operação Zelotes ao Judas, traidor da verdade, eu já estarei satisfeito. Mas duvido muito. Sabem de nada, os "inocentes".

liberdade, beleza e Graça...