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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

"Redação do Enem 2017"

Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil 

Qualquer Estado que se queira apresentar como verdadeiramente democrático deve ultrapassar a ideia de que democracia se faz apenas com o direito universal ao voto e o atendimento estatal das demandas da maior parte da população. No intuito, então, de contemplar não apenas a vontade da maioria, mas atentando especialmente para a maioria das vontades, a nação realmente democrática deverá dar detida atenção ao desafio de se incluir socialmente os mais variados grupos que a formam, mas focando muito especialmente as demandas dos cidadãos e cidadãs que trazem consigo algum tipo de deficiência física, que é o caso dos milhões de surdos dessa nação, ainda pouco inclusiva, chamada Brasil.

Não são poucos os desafios que um país enfrenta para a inclusão social de seus deficientes, mas é sabido que mais desafiador ainda é para o próprio deficiente sentir-se plenamente cidadão, já que diariamente, enquanto portador de alguma limitação, tal indivíduo percebe que é quase impossível vivenciar um cotidiano livre da violência, da discriminação e da negligência da parte do Estado, da família e também da comunidade escolar, já que a autonomia e a plena participação, garantidas em lei, dependem quase sempre de um ambiente escolar que, quando público, falha ao não ter profissionais capacitados para lidar com aquela que é reconhecida também como uma língua no país, a Língua Brasileira de Sinais, e, quando privado, quase sempre só oferece o que a lei estabelece como obrigatório se o indivíduo "pagar por fora", como se percebe em várias escolas onde pais têm de pagar por um professor extra para que seus filhos surdos sejam minimamente incluídos.  

É claro que muito já foi feito desde que, tardiamente, no Império, com D. Pedro II, a inclusão dos surdos começou a se dar, tendo tal grupo social a oportunidade educacional que aos demais já era oferecida. Todavia, é perceptível que a caminhada para a plena cidadania dos surdos ainda é longa, visto que, apesar das muitas diferenças que formam o nosso povo, em termos étnicos, sociais e culturais, ainda são muito presentes a intolerância, o preconceito e as portas fechadas para pessoas não vistas como "normais", o que pode ter contribuído para a queda do número de estudantes surdos. 

Após um importante passo ter sido dado em 2002, com a lei que determina que empresas e órgãos públicos institucionalizem formas para se apoiar, usar e difundir a Libras como meio de comunicação objetiva, cabe, como um dos próximos passos, uma auditoria para que se analise em que medida a determinação governamental foi atendida, e o que se pode aprender com os êxitos e os fracassos de tal importante interferência estatal. Afinal, sem a mesma, corre-se o risco de tal grupo continuar a incessantemente enviar sinais, mas o "país do futuro" insistir em se mostrar, como sempre, surdo

liberdade, beleza e Graça...  
    

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"500 anos da Reforma Protestante"

Analisar o cristianismo no Brasil acabou sendo, por muito tempo, separar católicos de evangélicos, e só. Todavia, é importante lembrar que aquilo em que se tornou o protestantismo no país, o mundo evangélico, em quase nada se assemelha àquilo que se iniciou no século XVI, e que acabou por se tornar um dos pilares da Modernidade, a saber, a Reforma Protestante. Qualquer simples trabalho de campo mostrará que os evangélicos, assim como sua liderança política, no Congresso Nacional ou fora dele, pouco ou nada entendem sobre o movimento que eles têm como matriz religiosa.

A Reforma, cujo estopim ocorreu em 1517, trouxe luz à luta de Lutero, Zwinglio, Melanchton, Calvino, Müntzer e outros reformadores, e é entendida pela Sociologia como um dos três dos mais importantes acontecimentos a trazerem uma nova era para o Ocidente, e para o mundo, juntamente com a instauração do Estado Racional Burocrático, tão bem analisado por Weber, e também com a chamada cristalização do capitalismo de mercado, tão profundamente estudado por Marx.

Se não entende patavina sobre as implicações da Reforma para a sua lida diária na fé, ao menos os evangélicos captaram bem uma das consequências do movimento liderado por Martinho Lutero e suas 95 teses afixadas na porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha. Parecendo, no entanto, agir de forma contrária ao posicionamento verdadeiramente protestante naquilo que Lutero chamou de Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum, a conhecida disputa sobre o poder e a eficácia das indulgências, isto é, dos pagamentos para se conseguir o perdão de pecados, os evangélicos brasileiros, 500 anos depois de tal revolucionário marco, seguem trocando dinheiro por curas, perdão e salvação de pecados, o que joga por terra a luta dos reformadores acima citados, já que nada disso (cura divina, perdão de pecados e salvação da alma), segundo a visão genuinamente protestante, vem de fora do tripé de tal visão de mundo; só pela Graça de Deus, conhecida pelas Escrituras, e que gera a que move aquele que crê.

Mas, ainda que o movimento evangélico insista em tratar a religiosidade como um lugar de disputa por dinheiro e poder, e usando o nome de Deus para isso - algo que pode ser visto cotidianamente nos programas religiosos e nos ditos de seus mentores, sobretudo pentecostais e neopentecostais, em disputa por "mercado" na tevê - é importante lembrar que a religiosidade proposta pela Reforma Protestante tem mais implicações seculares do que propriamente "sagradas", visto que é a visão sobre o verdadeiro papel da religião e da economia monetária que está em jogo, uma vez que a visão protestante descentraliza o medo de Deus e retira a "maldição" que existia no dinheiro, algo que a igreja insistia em ter em suas mãos, já que nas mãos do povo poderia lhes tirar o paraíso, problema que a instituição igreja não teria, já que ter dinheiro e terras não seria problema (somente) para ela. 

Assim, o que de melhor se pode focar nesse aniversário de 500 anos é que a Reforma trouxe a autonomia para os indivíduos que querem professar, à sua maneira, o seu cristianismo, além do apoio à livre interpretação das escrituras bíblicas, retirando tal monopólio das mãos do clero, ao mesmo tempo em que tornou o indivíduo livre para destronar lideranças que insistem em deter o verdadeiro sentido dos escritos tidos como sagrados pelos cristãos. Afinal, se Deus realmente existe e ama o seu povo, por que não derramaria graça sobre aquele ou aquela que sinceramente busca uma inspiração na Bíblia para re-significar sua existência na terra, desde que respeitando o contexto e a intenção originais do escrito? 

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domingo, 15 de outubro de 2017

"Eu sou professor!"

Sou professor desde 1997, mas chegar ao dia 15 de outubro sempre me foi muito normal e nunca nada de muito excepcional me aconteceu por conta de tal data. Todavia, um insight nunca antes tido me veio no dia do professor deste 2017. Para além do simbolismo de 20 anos de docência (não, não sou velho; comecei a dar aulas de teatro antes mesmo de me formar! rsrs), olhei para meus alunos e percebi que eles me escutam muito, me levam a sério demais, valorizam demais o que falo, o que penso e o que ensino. Onde vários colegas enxergam alunos desinteressados e bagunceiros, só vejo olhos vidrados, sendo que isso sempre me pareceu muito normal. Percebi também que tenho um papel de muita responsabilidade na vida desses caras, além do fato de eu ser considerado um bom professor por eles, o que sempre me honrou, mas nunca recebeu tanta importância de minha parte, já que, para mim, ser bom professor é uma coisa "normal". Só que não.

Um amigo meu me disse uma vez que "encontrar um bom professor é encontrar um tesouro". É verdade. Eu encontrei alguns, mas nenhum que se compare à dona Ana Verônica Pardo, aquela por causa da qual eu sou doutor hoje. Afinal, como agradecer a uma figura que olhou para o pior aluno da classe e o fez se tornar o melhor? Que mágica tinha aquela mulher? Nenhuma. Não era mágica. Era olhar. Assim como Jesus, o milagre não está na mágica feita, mas no olhar que enxerga a invisibilidade social de alguém, trazendo-o para o Caminho, retirando-o da margem, evitando o marginalizado.

Ganhei um livro. A ex-aluna fez uma dedicatória. "Você foi o melhor professor que eu já tive na vida". Sim, o dia do professor de 2017 foi simbólico, e não apenas pelos 20 anos completados, mas porque, pela primeira vez na vida, eu me senti como a dona Ana, quando eu tinha apenas 8 anos de idade. Eu consegui também fazer o milagre! Sem nada que fizesse menção à questão da sexualidade, me tornei Ana, Ana Verônica; me tornei professor! E, apesar de a mais importante profissão que existe não ter nem um décimo do valor que deveria ter, tenho a maior honra e o maior orgulho de hoje afirmar categoricamente que eu sou professor!!

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"A demonização da política é o que a extrema-direita quer"

É sempre muito difícil separar a política dos políticos, sobretudo em um país com pouca educação formal e alto índice de analfabetismo funcional, o que contribui muito para que essa confusão afaste as pessoas daquilo que é o mais importante na formação cidadã de um povo, a saber, a formação política. Ademais, outro grande problema é que a sucessão de conquistas que culminou com o que temos como democracia hoje é pouco percebida como processo por muitos, que acabam, em momentos de crise institucional e política, como a vivida agora, querendo que tudo seja derrubado e que voltemos à estaca zero, construindo um novo modelo de governança.

É exatamente por isso que discursos reducionistas e de retrocesso ganham tanto vulto, como têm ganhado as falas de pessoas como o deputado Jair Bolsonaro, candidato declarado à presidência do Brasil. Esquecendo-se das muitas - e até sangrentas - lutas pelos direitos dos mais variados grupos sociais, muitas pessoas pensam que o melhor é "acabar com tudo e começar do zero". Porém, começar do zero, como se pode ver nos discursos, e até em práticas de muitos, significa jogar no lixo uma imensa gama de direitos conquistados. Só no nível do exemplo, é difícil aceitar a condição da mulher idealizada por Bolsonaro, já que este, ao falar sobre os filhos que tem, afirmou em entrevista que "os primeiros são homens, mas, depois, após uma 'fraquejada', veio mulher".

Sem ganhar a atenção social que merece, o que está escondido nessa postura que agora se nos apresenta é um processo de demonização da política verdadeiramente democrática, sendo que se deveria demonizar é algumas figuras da política, já que, ao tratar a política como algo ruim, abre-se espaços para que discursos e práticas que não versam sobre a coisa pública tomem lugar de destaque, trazendo à tona uma cosmovisão muito recortada, localizada e, até por isso, nada inclusiva. Mas o foco é outro; se conseguirem fazer com que se confunda a política com os políticos, ninguém que já está há tempos tentando, aos trancos e barrancos, incluir os excluídos e alterar substancialmente a estrutura desigual da nação poderá galgar um novo degrau, visto que tudo o que foi conquistado será tratado como fútil, como percebe bem o sociólogo Albert Hirschman, ao falar sobre o caráter de futilidade dado pelos donos do poder às lutas dos mais variados grupos sociais. 

Assim, caro leitor, tenha certeza de uma coisa: toda vez que alguém defender que "todo político é igual" e que "não vale a pena votar", já que "tudo vai continuar como sempre foi", será preciso lembrar a tal pessoa de que tudo o que é hoje não tem quase nada a ver com o que foi, em termos de direitos, o que por si só já referenda a luta por mais espaços, algo que algumas figuras políticas teimam em nos negar, já que, se a política (na verdade, muitos políticos) não conseguiu dar conta do recado, um retrocesso a um tempo militarizado (considerado por eles como melhor, pois "as coisas funcionavam e havia ordem") pode ser pensado, inclusive em termos de militarização da educação, algo proposto por Bolsonaro. O contrário disso? Sair novamente às ruas e acreditar, sem medo, que já se caminhou muito em termos democráticos para retroceder e temer continuar a luta. Afinal, para um povo que teve a coragem para enfrentar tantas intempéries como as que já enfrentamos, o medo deve ser lançado para muito longe, referendando a tese de que Temer é realmente inaceitável.

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando a diferenciação entre nós e eles é fundamental"

O momento político brasileiro é extremamente delicado e a falta de informação - ou a informação enviesada, aquela que não se transmuta em conhecimento - faz com que a situação obrigatoriamente nos remeta, mais uma vez, às ideias sociológicas de Karl Marx. Como é sabido, as teses marxianas nos alocam em um sistema onde a desigualdade faz parte do funcionamento da sociedade e a luta entre classes se estabelece com bastante evidência, visto ser essa a base do capitalismo de mercado. 

Por mais que percebamos a necessidade de se acessar a teoria de Marx para entendermos melhor o momento brasileiro, não são poucos os que o entendem como um autor obsoleto e ultrapassado, já que suas ideias "não estariam mais dando conta de explicar o que acontece no mundo capitalista de agora". Por mais que esteja distante de nossos dias, porém, é indiscutível o valor da obra de Marx para a compreensão do que agora vivemos, já que poucas vezes se viu com tanta clareza a luta de classes estabelecida em nosso país.

Se tal luta não está sendo tão percebida pela maioria, é porque Karl Marx realmente tinha razão ao afirmar que a classe dominante faz de tudo para que suas ideias sejam entendidas como as ideias de todos, isto é, algo que indiscutivelmente "é o que o povo quer". Assim, pensar em temas como as reformas trabalhista e da previdência requer colocar em lados opostos dois grupos, uma vez que, ao fim e ao cabo, os dois não querem as mesmas coisas, já que os capitalistas só se satisfazem se o proletariado, os trabalhadores, cederem em seus direitos, o que já está acontecendo, embora não seja por vontade do povo, mas por um discurso que "prova" que "sem tais reformas, em pouco tempo o país não pagará mais as aposentadorias dos trabalhadores".

O que poucos sabem, porém, é que a quebradeira do Brasil tem nome e data. Sim, todos precisam saber que a previdência social no Brasil era superavitária até o início do segundo governo de Dilma Rousseff. Naquela que pode ser chamada literalmente de "uma jogada de classe", o empresariado solicitou a desoneração da folha de pagamento, com a promessa de que, se o governo desonerasse a folha, teria como resposta um empresariado que aumentaria o emprego no país, chegando o Brasil ao nível de pleno emprego, experimentado antes, mas sem a desoneração, no governo Lula.

Acontece, todavia, que veio a desoneração, mas os empresários, como sempre no sistema capitalista, não cumpriram a sua parte e, mesmo tendo as taxas previdenciárias caindo de 2,5% da arrecadação para entre 1% e 1,5% da receita bruta da empresa, não criaram as prometidas vagas em suas fileiras, o que fez com que o país perdesse em arrecadação, além de não ter a contrapartida em empregos, o que tinha sido previamente acordado com a presidente Dilma, logo depois deposta. 

No final da contas, o rombo nas contas públicas veio e a resposta acabou sendo, não a reoneração da folha, mas uma reforma que isenta o empresariado de pagar suas dívidas com a previdência, ficando para os trabalhadores - numa flagrante perda, condenada até pela Organização Internacional do Trabalho - o pagamento da fatura de uma confiança que Dilma Rousseff acreditou que poderia ter no empresariado brasileiro. É importante dizer também que, se o grande empresariado pagasse o que deve ao governo, nenhuma reforma condenatória às famílias menos favorecidas seria necessária, voltando o país a ter a mesma situação superavitária da era Lula. 

Mas eles não querem pagar. Eles não vão pagar. Assim, não adianta falar em "união do país", pois nós trabalhadores queremos uma coisa, desejando o empresariado exatamente o contrário. Portanto, não estamos e não podemos estar do mesmo lado, visto que queremos o oposto. Como bem disse Marx, então, nos manteremos em luta, já que, independentemente de gostarem ou não das teses daquele autor, as coisas continuarão a ser entre "nós e eles". 

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sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Do ódio ao PT e da nefasta precarização do trabalho"

Até poucos dias atrás, precarizar as relações de trabalho era algo criminoso e feito apenas na penumbra, à distância, visto que o patronato queria muito esconder situações que, segundo a Organização Internacional do Trabalho, são situações de trabalho análogas à escravidão. Agora, porém, a coisa mudou consideravelmente, a ponto de termos, após a aprovação da nova legislação trabalhista, uma situação institucionalizada de precarização do trabalho no Brasil.

Com o argumento falacioso de que, para se gerar emprego, e se "consertar o estrago que o PT fez no país", é preciso fazer mudanças estruturais nas leis que embasam a atividade laboral no Brasil, um governo com apenas 6% de aprovação popular altera radicalmente a situação de milhões de trabalhadores, sem que os mesmos consigam perceber em que atoleiro estão sendo metidos. 

O mais curioso é que não se vê um debate esclarecedor sobre a temática, o que faz com que os trabalhadores só tenham condições de perceber o que perderam quando forem reivindicar direitos não mais existentes. Ao chegarem aos tribunais do trabalho, não serão poucos os que dirão "mas eu não sabia que a reforma trabalhista era pra isso!". Mas, é claro, será tarde demais.

Lendo diversos artigos de jornais e blogs por dia, não deixo de olhar para os comentários, que, na maioria das vezes, me são mais interessantes do que as reportagens em si, uma vez que carregam a percepção popular sobre algumas medidas colocadas pelos donos do poder no Brasil. Ao fazê-lo essa semana, pude concordar com muita veemência com um anônimo comentarista. O indivíduo, sendo crítico e até irônico com o que está acontecendo com a classe média, dizia coisas como: "Por causa do meu ódio ao PT, eu aceito ver meus direitos trabalhistas jogados no lixo". "Por causa do meu ódio ao PT, eu aceito ter apenas 30 minutos de 'hora' de almoço". "Por causa do meu ódio ao PT, eu aceito arcar com os custos de um processo, caso eu venha a requerer direitos na Justiça do Trabalho, quando me sentir lesado pelo patrão". "Por causa do meu ódio ao PT, eu aceito não receber por horas em que eu estiver à disposição do patrão, no local de trabalho, mas não estiver exercendo efetivamente a atividade para a qual fui contratado, recebendo 'apenas pelas horas trabalhadas', e não mais por estar inteiramente disponível à vontade do patronato".

Nessa direção, o que se pode ver, todavia, é que uma análise detida das falas e argumentos sobre a situação do país nos permite perceber que o que existe é mais um ódio ao pobre do que ao próprio Partido dos Trabalhadores. Sim, chegou a hora de a classe média mostrar que não gostou nem um pouco de ver aquele que trabalha como seu porteiro ter acesso àquilo que antes era privilégio apenas dela, classe média. Numa clara luta de classes, conceito marxiano, nunca na história desse país foi tão nítido o enfrentamento entre os que têm e os que experimentaram - mas apenas por um pouquíssimo intervalo de tempo - o que é ter, já que apenas sabiam o que era ser; ser estatística, mero número, construtor de universidades, mas nunca entrar ou ver seu filho lá estudar, ser o que fabrica aviões, mas nunca neles poder viajar etc. 

Concordando com a ótima coluna de Paulo Metri, no blog "Viomundo", sou instado a referendar a ideia de que "muitas pessoas têm ódio ao PT pelos seus méritos, apesar de declararem que é pelos seus erros. O PT tirou mais de 30 milhões de pessoas da miséria e mais de 46 milhões saíram da pobreza e foram para a classe média. Trata-se de um enorme feito. Além disso, o PT facilitou a entrada dos filhos dos pobres nas universidades. Resumindo, nunca se viu, neste país, uma melhoria de condições sociais do nosso povo como essa proporcionada pelos governos petistas. Getúlio e Jango, que eram compromissados socialmente, não fizeram tanto, mesmo sendo guardadas as proporções". Sim, o que trouxe o ódio ao PT foi o acerto, foi o trazer o pobre para perto, e não o erro, não a corrupção, que todos os partidos têm, como vemos cotidianamente na mídia.

O que me parece, ao fim e ao cabo, é que o ódio ao PT, muito bem orquestrado e fomentado pela grande mídia do país, tem permitido que reformas como a trabalhista e a da previdência passem, sem que percebamos o que está sendo perdido, ainda que a OIT, aqui já citada, defenda categoricamente que o que acontece agora no país é uma flagrante ilegalidade contra o trabalhador brasileiro. Triste país, este em que, por causa do ódio ao PT, as pessoas começam a pensar, falar e agir como que odiando a si mesmas. 

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

"As ideias de uma época são as ideias de sua classe dominante"

O momento político vivido pelo Brasil traz material para uma rica reflexão sobre a teoria sociológica de Karl Marx e Friedrich Engels. Ao abordarem o termo ideologia, buscando com isso uma análise sobre a chamada luta de classes, os autores nos colocam diante de um elemento que ainda se encontra com muita força no atual momento político brasileiro, já que é sintetizado na tentativa de um pequeno grupo em transformar suas ideias em algo universal, sendo que as mesmas não passam de algo particular, temporal e bastante localizado.

Como é sabido, as eleições presidenciais de 2014 ainda não terminaram. Isso porque os palanques teimaram em ficar montados, o que propiciou o impeachment de Dilma Rousseff  e gera consequências para o governo de Michel Temer, também muito ameaçado de não concluir seu mandato, e aproximando-se de Dilma na capacidade de fornecer material para manifestações públicas de vozes contrárias ao que vem sendo praticado pelo governo e pela classe política que o sustenta.

O curioso disso tudo é que o tema que derrubou Dilma, pelo menos para a grande maioria dos que acessaram as ruas com gritos para destituí-la, era a corrupção. Todavia, ao baterem panelas pela saída da presidente, tendo como motivação maior a mazela social que mais tem incomodado os brasileiros nos últimos anos, grande parte da população foi feita de massa de manobra para referendar uma luta de classes, ideia tão bem trabalhada por Karl Marx. Afinal, a presença do pato amarelo e do slogan "não vou pagar o pato" não diziam respeito à população como um todo, mas apenas à classe empresarial, defendida pela FIESP, fomentadora do movimento anti-Dilma e financiadora dos bonecos infláveis que tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo.

Assim, pensando estar lutando contra a corrupção e pela diminuição da carga tributária sobre todos, as pessoas que acessaram a avenida mais conhecida de São Paulo nada mais fizeram do que lutar contra seus próprios direitos trabalhistas e previdenciários, comprando para si um discurso que era do empresariado abastado daquela e das demais cidades brasileiras e, ao mesmo tempo, fazendo com que um discurso que era de uma pequena e privilegiada classe se transformasse em um pleito universal, o que não passou de uma falácia, como agora se pode ver.

O que se vê, pois, é que a chamada ideologia, a capacidade de transformar em universal uma ideia particular, temporal e muito localizada, acabou por funcionar com grande força, fazendo com que pessoas fossem às ruas lutar contra si mesmas, já que a corrupção é mais evidente e provada sob Temer do que era sob Dilma, assim como a carga tributária só se mostrará vantajosa e menor para a classe empresarial, talvez a única que não esteve presente na Paulista, ainda que fosse a maior interessada no que lá acontecia, já que a tudo financiou. 

Passado o momento inflamado dos atos acima citados, cabe saber agora se teremos a mesma força para tomar as ruas e exigir que a corrupção mais do que provada no governo atual seja enfrentada com a mesma paixão usada para derrubar a ex-presidente. Caberá também analisar da grande mídia o posicionamento que esta terá sobre os temas corrupção e eleições diretas, já que a mesma tem em mãos elementos que, se estivessem presentes como prova contra Dilma Rousseff ou Lula, não apenas destituiriam a primeira, como também enterrariam para sempre as ambições políticas do segundo, bem como as do Partido dos Trabalhadores. 

Acontece, porém, que a descrença na classe política, bem como na sua própria força de luta, poderá fazer com que o povo desista de ir às ruas como outrora, já que uma retórica reacionária poderá tomar conta de um povo que, ludibriado pelo mísero crescimento econômico e pelo nível de emprego que começa a melhorar - o que é normal, pois toda crise tem hora para acabar, já que é cíclica no capitalismo, como sempre se pôde perceber -, se colocará mais uma vez na posição de "pagar o pato". O problema é que o povo vai, sim, pagar, mas o empresariado é que vai, como sempre na história desse país, "comer o pato".

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