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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

"Moro e Dallagnol são criminosos: alguém fará algo?"

Já é sabido que o site de jornalismo investigativo The Intercept Brasil - agora juntamente com a Revista Veja, o colunista Reinaldo de Azevedo e o Jornal Folha de S. Paulo - confirmou, através de rigorosos exames jornalísticos, a autenticidade do material que comprova o conluio formado pelo ex-juiz Sergio Moro e o Ministério Público Federal, em especial na pessoa de seu líder, o procurador Deltan Dallagnol, no intuito de burlar o sistema jurídico nacional, visando, como se a Operação Lava Jato fosse um grupo ou partido político, interferir no resultado das eleições de 2018, no que foram exitosos, como se pode agora ver. 

A pergunta que fica é se, após tantas provas, o agora Ministro da Justiça e Segurança Pública vai continuar no cargo, já que tem, com o apoio da grande mídia, tentado mudar o foco para a forma como as informações chegaram ao conhecimento público, visto que agora chama de "flagrante ilegalidade" o que ele mesmo fez, quando do vazamento ilegal de conversas da ex-presidente Dilma Rousseff, momento no qual o então juiz disse que "não importava a forma por meio da qual a conversa foi obtida, mas sim o conteúdo do diálogo", que seria "de grande interesse nacional". 

Também é de muito interesse nacional saber como um juiz pode atuar como líder de uma força tarefa, já que assumiu uma das partes e articulou a derrota da outra, demostrando que não manteve a imparcialidade necessária, o que o coloca em suspeição e, legalmente, anula todos os atos do mesmo na operação que o catapultou à condição de Ministro de Estado. Todavia, com a polarização política esgarçada como está - e com um presidente que não entende que a campanha política acabou, incitando seu eleitorado mais radical a tomar posturas belicistas - não se sabe como será possível que Moro, que teria de ser investigado pela Polícia Federal, será atingido, visto que tal polícia está sob seu controle, o que pode até culminar no que alguns já chamam de "polícia política de Moro".

A fome por dinheiro já desbancou o evangélico Deltan Dallagnol, que nada mais queria do que enriquecer com palestras, montando empresa com a esposa como laranja. Assim também, a fome por poder acaba por desbancar o superministro Moro, que, no afã de uma vaga no Supremo, acabou com qualquer chance de figurar lá como ministro, já que só um bolsonarista louco ainda acredita nisso. Se ambos vão cair, perdendo seus cargos e sendo julgados por prevaricação e formação de quadrilha, já é outra e muito mais difícil questão. Mas uma coisa é certa, quando começarem a surgir os áudios mais dolorosos para o ministro Moro, não restará ao Presidente da República outra coisa, senão continuar a colocar a mão no fogo apenas pela famiglia.

liberdade, beleza Graça...   



quinta-feira, 27 de junho de 2019

"E eis que o The Intercept Brasil salva o ano"

A revista Veja, conhecida no Brasil por se alocar à direita do espectro político, fez um mea culpa importantíssimo; ao reconhecer que tratou, em várias de suas capas e reportagens, o ex-juiz, e agora Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro como herói, a Veja se desculpa com seu público, ainda que a maioria de seus leitores continue a apoiar Moro, já que a revista semanal, em posse de material compartilhado pelo site The Intercept Brasil, chegou à conclusão de que o ex-juiz realmente foi antiético e agiu de forma parcial e política nos processos da Operação Lava Jato, em especial no caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pode parecer pouca coisa, mas, assim como aconteceu com as Organizações Globo, quando admitiram - em rede nacional em seu telejornal mais importante - que erraram ao apoiar a ditadura militar no Brasil, assumir um erro é algo fundamental para que novos não sejam cometidos, embora não se possa garantir que o semanário de notícias não venha a cometer novos equívocos, dado que o viés ideológico da revista acaba sempre por enviesar um sem número de informações que nos chegam semanalmente. Ainda assim, é importante ter a Veja trabalhando jornalisticamente sobre o material vazado para o The Intercept, sobretudo por conta da importância, para o sistema democrático nacional, da união de veículos de mídia de vários vieses na elucidação de casos que muito interessam à opinião pública do país, intentando defender o chamado Estado Democrático de Direito. 

Tal como a Veja, o Jornal Folha de S. Paulo também firmou parceria com o The Intercept, assim como importantes colunistas, incluindo aí o anti-petista Reinaldo de Azevedo, que, por conta de sua postura em programa na Rádio Band News FM, tem até sido chamado de "petista", já que a falácia de generalização tem tomado as consciências bolsonaristas, visto que tais indivíduos chamam de petista todo aquele que discorde das posturas do governo federal, o que os fez chegar ao absurdo de chamar o Movimento Brasil Livre - MBL, que é assumidamente direitista, de "grupo petista", uma vez que tal movimento não aceitou participar de uma manifestação conservadora que pedia, entre outras coisas, a volta do regime militar e o fechamento do Congresso Nacional. 

Embora não se possa ainda mensurar a dimensão do trabalho jornalístico que agora une indivíduos de vários espectros políticos numa mesma empreitada, será importante ver como resistirá o nosso Estado Democrático de Direito, sobretudo com o contra-ataque do ministro Moro, que não parece disposto a deixar o cargo, ainda que não consiga provar que não falou e não fez o que falou e fez. De todo modo, já podemos alterar a ordem dos fatores, pois, se em uma de suas equivocadas capas a Veja afirmou que o então juiz Sergio Moro tinha "salvado o ano", é hora de reconhecermos que, mais do que o ano, talvez o The Intercept tenha nos salvado a democracia. 

liberdade, beleza e Graça...     


quarta-feira, 29 de maio de 2019

"E conhecereis a verdade..."

O Brasil está em um momento único de sua história. O maior furo jornalístico de que se tem notícia no país tomou a internet nos últimos dias, quando o site The Intercept Brasil, fundado pelo renomado jornalista estadunidense - ganhador dos prêmios Pulitzer e Esso de jornalismo - Glenn Greenwald, publicou mensagens trocadas entre o ex-juiz federal e hoje ministro da justiça e segurança pública, Sérgio Moro, com o procurador federal Deltan Dallagnol. As conversas, nada republicanas, mostram uma trama para, burlando o devido processo legal, conseguir em tempo recorde condenar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão, ainda que os mesmos admitissem não terem provas para o mesmo, além de impedirem que Lula desse entrevista na prisão, pois os próprios procuradores temiam que isso "pudesse eleger o (Fernando) Haddad" (candidato de Lula à presidência). 

Se em um primeiro momento, quando 4 arquivos foram liberados, as conversas e as tramas ilegais foram vistas como um flagrante descumprimento da Constituição e do Código de Processo Penal do país, além de um forte ataque ao Estado Democrático de Direito, um novo momento, que detalha tais conversas, trazem ainda a participação de um membro do Supremo Tribunal Federal - STF, o ministro Luiz Fux, sendo este, pelas palavras de Dallagnol, um apoiador de tudo o que a Operação Lava Jato e seus procuradores politicamente combinavam.

As primeiras respostas de Moro, Dallagnol e da grande mídia, ancorada em especial na Globo, apontam para o possível hackeamento dos dados e se fala em punir os possíveis invasores, mas sem negar o conteúdo de tudo o que ali foi revelado. Todavia, é importante lembrar que, sobre situação similar, acerca de quando vazou dados obtidos ilegalmente de uma conversa telefônica entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, Moro, em entrevista ao jornalista Pedro Bial, disse que "não importavam os meios, mas o conteúdo do diálogo", o que agora ele mesmo refuta, pois o foco está em desqualificar aqueles que apontam aquilo que o ex-juiz ilegalmente fez. 

Qualquer pessoa que aprecie o Direito e conheça um mínimo de processo penal sabe que as três partes envolvidas em um processo, o Ministério Público que acusa, o juiz que julga e os advogados que defendem, não podem tratar do caso em reservado, sobretudo com duas partes tramando como poderiam juntas vencer a terceira (o que as gravações mostram sobre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador Deltan Dallagnol), visto que isso colocaria o juiz em suspeição e tornaria os atos por ele confirmados totalmente nulos, isto é, invalidaria todo o processo, desde o recebimento da denúncia até a proclamação da sentença. 

É sabido que a escola de jornalismo investigativo estadunidense tem por princípio publicar aquilo que tem peso moderado em um primeiro momento, guardando questões mais graves para um momentos posteriores, pois as partes envolvidas teriam como buscar tornar banais o material divulgado, inclusive com falácias contra os envolvidos na publicação e acusações contra os responsáveis por entregar o conteúdo para que jornalistas pudessem publicar, o que até aqui tem sido apontado para hackers invasores de linhas telefônicas de procuradores e do ex-juiz e agora ministro. 

Se tal escola se mantiver firme em seus princípios, o pior sobre toda a articulação política entre Moro, Dallagnol e outros membros do judiciário - e até da mídia, em especial o Grupo Globo - ainda está por vir, o que possivelmente implicará em julgamento de Dallagnol pelo Conselho Nacional dos Procuradores Públicos e na exoneração do ministro Sérgio Moro, o que seria um forte golpe no governo de Jair Bolsonaro, já que este tem em Moro um dos seus principais pilares a sustentar uma popularidade que, focada apenas em Bolsonaro, já começa a despencar, ainda que com apenas 5 meses de governo, governo este que começa a confirmar a frase bíblica que o fortaleceu religiosamente; "e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Sim, estamos conhecendo a verdade; só não sabemos ainda como ela realmente poderá nos libertar.

liberdade, beleza e Graça...


ps: caros, o texto data de 29/05, pois o tempo para escrever me era curto e o espaço estava reservado para outro assunto, todavia, a potência do que escrevo e publico nesse dia 13/06 me faz colocar aqui algo que só aconteceu a partir de domingo, dia 09/06.   


terça-feira, 30 de abril de 2019

"Filosofia e Sociologia: extremamente perigosas!"

É de fazer pensar a tara que os sistemas ditatoriais têm com as Ciências Humanas e Sociais. Não só no Brasil, mas praticamente no mundo todo, basta que um governo mais autoritário seja catapultado ao poder e uma perseguição se inicia. E olha que isso não significa que o governo seja de direita ou de esquerda, pois, a independer de quem governa, matérias como a Sociologia e a Filosofia são sempre tratadas como "inimigas do poder". O que poderia se tornar um perigo gerador de medo, no entanto, se tornou um orgulho, uma honra. Sim, enquanto professor das duas matérias, confesso que é muito bom saber que não somos bem quistos por governos autoritários e ditatoriais, já que isso só mostra a força para a resistência que tais matérias têm.

É claro que a Matemática, a Física e a Química, para citar apenas os exemplos mais tradicionais, são muitíssimo importantes na formação dos cidadãos e cidadãs de um país. Todavia, é curioso notar que os sistemas de governo mais autoritários não se incomodam com tais disciplinas, já que são meramente instrumentais e parecem não se interessar por ultrapassar o limite de um conhecimento dedutivo, que, no nível escolar, não cria nada novo, mas apenas aplica fórmulas já construídas por filósofos da Antiguidade, tendo nós como exemplo clássico o muito respeitado Pitágoras de Samos. 

No caso da Sociologia e da Filosofia, agora perseguidas pelo governo Bolsonaro (que chegou a dizer que são matérias que "não trazem resultado e ensinam besteiras para os meninos, que deveriam aprender a fazer contas e a ler e escrever para arrumarem um trabalho e ajudarem suas famílias"), é notório que, não sendo meramente instrumentais, mas cognitivas, têm a função de fazer com que estranhemos o óbvio e problematizemos realidades que, permeadas por construções histórico-sociais bastante marcantes, são justificadoras de preconceitos, racismos e intolerâncias de toda monta, simplesmente pela justificativa de que "sempre foi assim", coisa que as disciplinas agora execradas não aceitam.

Com a função social, portanto, de "desmascarar o poder", mostrando as falácias e as posturas meramente ideológicas contidas nos dizeres e nos atos dos que comandam (no caso do fazer da Filosofia), bem como apontando as razões geradoras dos processos de desigualdade que imperam e emperram o mundo (no caso da Sociologia), as disciplinas que agora são tratadas como "dispensáveis" conseguem trazer uma reflexão sobre o status quo, refutando a naturalização da maldade humana, a universalização do discurso da classe dominante e as lacunas e edições construídas para ocultar o processo de alienação em que se pretende colocar todos os dias os menos favorecidos. A Filosofia e a Sociologia podem não nos servir para mais nada, contanto que consigam ensinar os dominados para que possam, ao serem instados à obediência cega a uma lei ditatorialmente imposta, problematizar a ordem com um "Quais os fundamentos e argumentos que me deveriam levar a aceitar isso?".

liberdade, beleza e Graça...


domingo, 31 de março de 2019

"Guerra de narrativas e reescrita da história"

Um dos ditos mais famosos do teatrólogo Nelson Rodrigues é a clássica frase "Se os fatos são contra mim, pior para os fatos". À luz de tal citação, podemos analisar o momento político brasileiro, já que uma guerra de narrativas tomou conta do núcleo duro do poder no Brasil, o que chega a levar um ministro de Estado, no caso, o da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e até mesmo o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, a colocarem os fatos como algo a ser menosprezado, tal como na fala rodrigueana, só que sem a acidez e a genialidade do chamado "escritor maldito". 

No caso de Lorenzoni, ao tratar da questão das armas, o mesmo disse em entrevista que "segundo pesquisas sérias, em todas as sociedades onde as armas foram liberadas, a violência diminuiu". Na mesma semana, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública - FBSP lamentou o decreto presidencial sobre a liberação de armas, defendido por Lorenzoni, pois, segundo tal entidade, "sérias pesquisas nacionais e internacionais provam que quanto mais armas, mais violência". 

É evidente que, se quisermos ser declarados como minimamente racionais, não podemos aceitar que um tema seja abordado, e tendo como referência "sérias pesquisas", sem que se saiba quais pesquisas, quais pesquisadores, quais metodologias e onde e com quais grupos foram aplicadas. No caso do FBSP, assim como do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, as bases são sociológicas e antropológicas, contemplando autores renomados no Brasil e no exterior. No caso da fala de Lorenzoni, não se sabe quais sãos as pesquisas, nem onde teriam sido realizadas, pois o ministro não as cita. Mas não importa; o chefe da Casa Civil soltou a frase e, num processo de guerra de narrativas, colocou seu ponto de vista como "verdadeiro e referenciado por pesquisas sérias". 

No caso de Bolsonaro, também em entrevista na rede aberta de televisão, o presidente afirmou que as "universidades públicas brasileiras não têm pesquisas e, quando há pesquisa universitária, ela está nas universidades privadas, como no caso da pesquisa sobre o grafeno, da Mackenzie de São Paulo". No contraponto narrativo ao presidente, dados mostram que, das 50 universidades mais prósperas em pesquisas no Brasil, 49 são públicas e apenas uma é privada, sendo que nem é a Mackenzie de São Paulo, mas a PUC do Paraná.

O grande problema nessa guerra de narrativas é que os fatos não parecem mais importar aos defensores ferrenhos do "mito", já que, ainda que minta em entrevistas em rede nacional, se os fatos depuserem contra ele, "pior para os fatos". Deste modo, nos é já impossível debater política de modo civilizado e em nível que se possa chamar de inteligente, uma vez que não é mais preciso atentar para a verdade dos fatos para se ter um posicionamento sobre o que quer que seja no Brasil. 

Nessa senda, não só mais armas contribuem para menos violência e universidades privadas pesquisam mais do que públicas, como também a ditadura militar não existiu, o Ibama, ao fiscalizar e punir crimes ambientais, está errado, e os desmatadores certos, Fabrício Queiroz vende carros e não tem nada a ver com funcionários fantasmas e o PSL é um partidos de políticos honestos, e não o Partido do Suco de Laranja. Na guerra de narrativas que se estabeleceu no país, Bolsonaro e sua equipe parecem estar vencendo e, pelo visto, se algum dia essas "verdades" perderem o seu valor, a culpa será da Dilma e do PT. 

liberdade, beleza e Graça...


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

"A elite do atraso a nos explicar em detalhes"

Quando Antonio Candido leu o material que Sérgio Buarque de Holanda lhe enviou para receber um prefácio não teve dúvidas da qualidade do escrito, chegando a dizer que Raízes do Brasil era "um clássico de nascença". Por ser Candido o que era, um dos mais influentes críticos literários da época, dificilmente alguém ousaria contestar o valor que a obra de Sérgio Buarque teria para as Ciências Humanas e Sociais no decorrer dos séculos XX e XXI. Apesar de tal incontestada potência, no entanto, eis que aparece alguém para deixar a nós cientistas sociais com vergonha de ter fechado os olhos para algo que agora parece até óbvio; se, ao contrário de Candido, não tenho cacife suficiente para afirmar que uma obra já nasce clássica, ao menos posso, com toda segurança, afirmar que A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato, de Jessé Souza, já nasce paradigmática. 

O paradigma quebrado por Souza se dá no enfrentamento do pilar de sustentação da obra de Sérgio Buarque, uma vez que coloca em xeque o conceito de patrimonialismo, além de mostrar que, ao contrário do que fez o autor de Raízes, uma análise intelectualmente acertada do Brasil teria de ter a escravidão como foco, já que não se poderá mais aceitar que, como afirmava Sérgio Buarque, o Brasil guarda uma continuidade com Portugal, com o apossar de patrimônio público por entes privados, os donos do poder, uma vez que a escravidão é um acontecimento que não se deu em terras lusitanas nos moldes que aconteceram aqui, mas embasou toda a formação da sociedade brasileira, sendo o amálgama a construir as classes e as relações sociais que culminariam em um racismo velado, uma construção de cidadania de segunda categoria para os negros e, consequentemente, uma "ralé de novos escravos", como bem defende Jessé Souza. 

É claro que, como uma obra que pretende interpretar o Brasil, A elite do atraso também comete equívocos e Jessé Souza bem sabe que não faltarão críticas à sua obra, o que, de minha parte, merece lugar, visto que o autor parece escorregar em pelo menos dois momentos cruciais do escrito. Ao falar sobre racismo, Jessé afirma que "tudo é racismo", o que enfraquece o aporte conceitual que separa a questão de classe da questão racial, já que, ainda que se tenha criado uma "ralé de novos escravos", ser preto é muito diferente de ser branco nessa ralé de humilhados e abandonados pelo Estado brasileiro. Assim, é preciso separar classe social de raça e mostrar que, ao contrário do que defende a obra, nem tudo é racismo, pois a cor da pele ainda conta, e conta muito, o que não impede, porém, que brancos e negros pobres sejam contados como parte da mesma "ralé". Outro lapso que Jessé Souza deixa escapar é a linguagem demasiadamente panfletária da obra, sobretudo no final, quando a Operação Lava Jato, da polícia federal brasileira, toma a cena, visto que o caráter científico que deveria permear a obra acaba se perdendo, cedendo espaço para o que parece ser uma militância de esquerda, trazendo o risco de a obra ser tratada como um panfleto a defender o ex-presidente Lula e o PT, o que nem de longe é verdade, já que o livro é muito mais do que apenas essa pobre ideia. 

Se o conceito de racismo e a linguagem panfletária influenciam negativamente na potência da obra, é preciso afirmar com toda a certeza que tais "escorregadas" não tiram a força do escrito de Jessé, bem como não fazem da mesma menos paradigmática, uma vez que o grande avanço da obra se dá no enfrentamento do conceito de patrimonialismo, tão defendido por intérpretes do Brasil e seus seguidores, tão inspirados em obras como a de Raymundo Faoro (Os donos do poder), Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala) e o próprio Sérgio Buarque e o seu Raízes. Isso porque, seguindo na senda da teoria sociológica de Max Weber, Jessé Souza nos mostra que, para além de se evitar a ideia de continuidade com Portugal, por conta da escravidão que só aqui tínhamos como tínhamos, o conceito de patrimonialismo não deveria ser utilizado para se pensar as relações no Brasil Colônia, pois, como as esferas da vida (sistema político, sistema econômico, sistema educacional, imprensa etc) precisam ser independentes e autônomas para que haja o patrimonialismo, que é a colonização de uma esfera por outra, o Brasil Colônia, por não trazer tal separação de esferas, impediria de se pensar em governantes transformando o bem público em privado, já que tudo era uma coisa só, pertencendo aos donos do poder, e não havia, portanto, porque se falar em patrimonialismo. 

Para além do enfrentamento da ideia de patrimonialismo, Jessé Souza apresenta a classe média como a grande protagonista daquilo em que se transformou o Brasil, culminando no apoio quase que irrestrito e irreflexivo à Lava Jato, já que a classe média concebeu a ideia de meritocracia que a classe dos donos do dinheiro buscava para si, o que fez com que se buscasse por uma formação intelectual que pudesse justificar os ganhos daqueles que já nasceram em berço de ouro. Por outro lado, essa mesma classe média cederia a moralidade que as classes mais pobres defendem ter, já que é a classe que, ao contrário dos donos do dinheiro, também seria vítima da corrupção, e não a protagonista da falcatrua, que seria perpetrada só pelos mais ricos. Assim, a classe média seria aquela que mais explicaria o atual momento político brasileiro, visto que traria, num mesmo pacote, a moralidade dos pobres e o mérito de ter conseguido galgar degraus na pirâmide social (e chegando ao dinheiro) "pelo próprio esforço" (o que se configura em falácia, visto que não compartilha com os mais pobres do mesmo ponto de partida).

Ainda na senda da moralidade característica da classe média, outro elemento muito importante da obra de Jessé Souza é a moral que envolve a diferenciação entre a corrupção dos tolos e a corrupção real. No primeiro caso, o autor mostra como o foco da ideia patrimonialista só permitiu que se visse a corrupção de entes públicos, sobretudo políticos, mas ignorou propositalmente a corrupção real, aquela perpetrada pelo empresariado, os donos do dinheiro. Segundo o autor, enquanto a Operação Lava Jato se gaba de ter recuperado um bilhão de reais de propinas de políticos, que seria apenas a ponta do iceberg, pois representa os 2% ou 3% pagos "por fora", mais de 500 bilhões - que alavancariam a educação e melhorariam substancialmente a saúde de nosso povo - saíram do país, por conta de transferências feitas pelos maiores corruptos e corruptores, a classe empresarial. 

Por todas as razões acima expostas, a obra de Jessé Souza merece detida leitura e posterior reflexão, uma vez que explica, como poucas obras a interpretar o Brasil, as razões de sermos o que somos e de termos feito as escolhas que fizemos, sobretudo a que agora nos toma, com Jair Bolsonaro no poder, ainda que ninguém pudesse imaginar tal feito há poucos dois anos. Afinal, ao terminar a leitura do livro só consegui me perceber com o olhar perdido no horizonte, mas com a convicção plena de que eu tinha enfim entendido o que nos acontece agora, já que só pude dizer "então é por isso...".

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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

"Da razão de Brumadinho explicar a tragédia brasileira"

Quando a barragem da mina do Córrego do Feijão rompeu em Brumadinho, veio à tona a tragédia anterior, da Samarco, em Mariana, trazendo luz a uma questão que, por mais que muitos queiram ter como ultrapassada, é o que continua a ditar as regras no país, bem como o que explica a tragédia brasileira; a luta de classes. Isso porque o que está em jogo são os interesses econômicos dos grandes empresários brasileiros e estrangeiros, contrapostos ao interesse da sociedade e dos trabalhadores, o que tende a dificultar fiscalizações idôneas, respeito ao meio ambiente e, no pior dos casos, fomentar um tremendo desrespeito à vida, como no caso das quase 400 pessoas mortas na tragédia provocada pela barragem de rejeitos de minério da mineradora Vale. 

O que poucos buscam saber, no entanto, é como fazer para que a tragédia não mais se repita e, mais ainda, como fazer para que as pessoas atingidas sejam indenizadas, já que, após 3 anos do desastre em Mariana, nenhum morador foi indenizado, estando todos alocados em casas alugadas e recebendo apenas um valor mensal que nem de longe se compara ao que legalmente seria uma indenização pelas perdas provocadas. Ainda assim, nenhum responsável está preso e não se percebe qualquer preocupação com as vítimas, já que os bilhões de reais em lucro da empresa Vale nos últimos anos, mesmo após Mariana,  e os 200% de valorização das ações da empresa parecem importar muito mais do que as vidas perdidas, o meio ambiente devastado e as histórias enterradas na lama.

Talvez a Vale tenha uma postura diferente agora, visto se tratar, no caso da maioria das vítimas, de funcionários seus, o que pode fazer com que a situação corra de forma diferente, já que as 19 mortes de 2015 não conseguiram sensibilizar a empresa, que pouco fez para que a tragédia não se repetisse, focando muito mais na tentativa - exitosa, diga-se - de reconstruir sua imagem e, com isso, continuar sua busca desenfreada por lucro, ainda que nessa busca esteja presente a atitude de ignorar avisos de novas tragédias, tal como a investigação já mostra no caso de Brumadinho.

A verdade que surge, então, é que pouca coisa consegue explicar mais a tragédia brasileira do que o embate que se estabelece entre empresariado e trabalhadores. Tanto que temos agora um governo que, antes da tragédia de Brumadinho, afirmava que "a fiscalização deveria ser flexibilizada", já que tal postura "atrapalha a vida de quem quer produzir", nas palavras do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro. É claro que, após o ocorrido em Brumadinho, o governo correu para, de forma muito oportunista, negar o que tinha pregado antes, visto que o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, chegou a afirmar que, no caso de situações de alto risco a fiscalização deveria ser bem mais rigorosa, posicionando o governo de forma incoerente em relação ao que vinha antes defendendo. 

Ao fim e ao cabo, estamos diante de um governo que prestigia empresas como a Vale, retirando delas o ônus do rombo na Previdência Social - já que as empresas, devedoras de bilhões em impostos, são as maiores responsáveis pelo rombo que a classe política e a mídia noticiam diuturnamente - e cobrando tal ônus na vida dos trabalhadores brasileiros, algo que o governo também já vem fazendo em relação ao agronegócio, que terá bilhões em dívidas perdoadas, uma vez que "não podem ser atrapalhados de produzir e precisam ter o governo longe do seu cangote", como também defende Bolsonaro, presidente que, pelos discursos e posturas, em 4 anos fará com que o rico cada vez fique mais rico e o pobre cada vez fique mais pobre, sendo que a justificativa ainda será algo parecido com o "é pobre porque é preguiçoso e não quer trabalhar", algo típico de quem retira direitos e se posiciona do lado dos mais fortes, do lado de quem já tem a posse do dinheiro e do poder. Triste.

liberdade, beleza e Graça...