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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

"Os Bolsonaro e o cinismo enquanto doença sem cura"

A última eleição presidencial brasileira tem tudo para se tornar um acontecimento histórico a ser estudado por muitos anos. Isso porque trouxe elementos nunca dantes vistos na nação, elementos esses que mudaram uma lógica e confundiram - e muito - toda a classe intelectual, que não imaginava que as jornadas de 2013 seriam usadas de forma tão genial para transformar praticamente todos os problemas da nação em frutos de um único partido político, a saber, o dos Trabalhadores - PT. 

Se num primeiro momento as manifestações de 2013 eram contra o abuso no aumento das passagens de ônibus em São Paulo, noutro instante se tornou a válvula de escape para todos os problemas brasileiros e, embora pensássemos que a maior emissora de televisão e mais importante formadora de opinião do país, a Rede Globo, perderia espaço na manipulação das mentalidades, uma vez que um dos lemas gritados em palavras de ordem nas ditas manifestações era "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!", isso (ainda) não se deu. Como é sabido, junto ao grito que ecoava ineditamente muito forte e com muito apoio, o movimento chegou a impedir que muitos repórteres da dita emissora conseguissem acompanhar os protestos, chegando alguns a gravar reportagens de cima de prédios ou protegidos por sacadas emprestadas. Mas parou nisso. 

A Globo, como também é já sabido, soube bem contornar a situação, sendo que os protestos, que tinham começado por conta de 20 centavos de aumento da passagem, passaram a ser contra o governo de então, algo que nem o mais alto funcionário da Vênus Platinada pensava conseguir, já que começava ali a construção de um antipetismo que culminaria na eleição de um governo de extrema-direita, o de Jair Bolsonaro, que, entre muitos dos planos já anunciados está a retirada de direitos trabalhistas (mais ainda do que no governo Temer, pois o presidente eleito afirmou que "o trabalho tem de se aproximar da informalidade mesmo"), além de outros retrocessos que só perceberemos melhor quando a pobreza aumentar de forma descontrolada e a desigualdade gerar uma violência que, ironia do destino (?), até trará razão ao presidente, já que a ideia será resolver na bala, algo que é já uma plataforma de governo de Bolsonaro.  

Não é fácil explicar o fenômeno que ocorre hoje no Brasil, mas Alexis de Tocqueville já teorizava sobre a facilidade que governantes têm de retirar direitos em épocas de graves crises econômicas e de insegurança pública. Assim, crendo que a corrupção é algo apenas de políticos (o que não é nem de longe verdade, pois o empresariado brasileiro é muito mais corrupto e gera muito mais prejuízos à nação do que a classe que habita Brasília), e que está atrelada a apenas um partido, o PT, muitos eleitores abriram mão de sua liberdade e de seus direitos pelas promessas de "limpeza do campo político", algo que Jânio Quadros já tinha prometido (sem cumprir, claro), o que lhe fez ser tão messiânico quanto o Messias que agora toma o Planalto. 

Mas apareceu o Queiroz. Quer dizer, desapareceu o Queiroz! Fabrício Queiroz, assessor parlamentar de Flávio Bolsonaro, deputado estadual filho do presidente eleito, também participava do esquema muito conhecido na Alerj - Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Tal esquema, desenvolvido com volúpia por vários deputados, tinha como foco alocar muitos assessores nos gabinetes, mas retirando-lhes parte dos salários, no intuito de bancar campanhas políticas dos deputados que os empregavam. O Coaf - Conselho de Controle de Atividades Financeiras descobriu que Fabrício Queiroz tinha atividades atípicas, movimentando valores que seriam impossíveis de lhe pertencerem, sendo que tais valores, vindo de outros funcionários do gabinete do Bolsonaro filho, entravam em sua conta justamente na época do recebimento dos salários dos assessores, sendo que ainda não se sabe o destino do dinheiro, já que a investigação apenas começou e o sigilo bancário não foi retirado, o que colocaria tudo em pratos limpos. Da parte dos Bolsonaro, Flávio é inocente, bem como o próprio pai, que teve cheques depositados por Queiroz na conta da esposa, valor que, segundo o presidente eleito, estava "relacionado a uma dívida e que ele erradamente não declarou", o que configura crime.

Como estamos entrando na fase máxima do cinismo tupiniquim, Bolsonaro pai disse que "vai pagar o que deve, caso seja levado a isso", reconhecendo que errou. O que fica difícil de entender é a razão de o presidente eleito não levar a pecha de corrupto, ainda que admita que cometeu corrupção. Não se sabe a razão que o leva a acreditar que os malfeitos de Lula são corrupção e os dele, não; nem o que leva o ex-juiz Sérgio Moro a aceitar a corrupção de seu colega Onyx Lorenzoni, só porque "ele já se arrependeu do que fez", tal como já foi mostrado aqui no blog. 

E o povo? Ah, o povo parece feliz. Tem no governo alguém que pode até ser corrupto, "mas não é do PT". E, "se Jair Bolsonaro é corrupto, com certeza o Lula é mais". "Se o partido e os filhos do presidente eleito são corruptos, com certeza os filhos do Lula e o Partido dos Trabalhadores são mais!". E não adianta tentar discutir com os responsáveis pela eleição do deputado do PSL, pois vão falar que "estão com inveja do mito", que "são viúvas do Lula", que "o país agora vai ser sério" e que "a mamata vai acabar". Não, queridos, nada disso é verdade; a verdade é que teremos muito mais pessoas na pobreza e abaixo da linha da pobreza, pois se trata de um governo para empresários e especuladores financeiros nacionais e internacionais. Como pesquisas mostram que é a desigualdade que gera violência, preparemo-nos para um momento de aumento significativo dos assaltos, roubos, furtos, latrocínios, etc. Mas parece que isso também já está sendo resolvido; teremos armas e resolveremos tudo na bala! Triste país.

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"E o juiz Moro prova agora que sempre foi um político"

O futuro ministro da justiça, o ex-juiz federal Sérgio Moro, ainda que demonstre desconforto quando alguém toca no assunto, durante muito tempo tem se apresentado como um político ou, na pior das hipóteses, e em termos filosóficos, como um cínico. Moro é daquelas figuras que agem de uma maneira e, sendo esta maneira criticada, por ser antiética, sempre têm uma justificativa que parece merecedora de compreensão popular, sendo que não deveria, pois o mesmo não acontece, por exemplo, com figuras que estão no lado oposto do espectro político em que se alocou o ex-juiz federal. 

Moro é daquele que faz algo ilegal e depois pede desculpas, recebendo a mesma - ou entendendo que a recebeu, visto que não tem havido cobrança forte em relação à sua figura -, muito por conta de ser uma figura contra a qual muitos têm evitado se colocar, já que seria como que confrontar o paladino da justiça brasileira e da luta contra a corrupção na nação, luta que tem, erroneamente, sido apresentada como inexistente antes da operação protagonizada pelo ex-juiz, o que nem de longe é verdade, visto que sempre tivemos muitas pessoas sérias e competentes nos órgãos de controle e vigilância no país, só que não pessoas tão midiáticas como tem se mostrado o futuro ministro da justiça.

Embora negue peremptoriamente, Sérgio Moro agiu como político em várias ocasiões nos últimos tempos, chegando ao posto de principal figura na Operação Lava Jato, grande responsável pelos resultados das eleições desse 2018, quando figuras com discursos anticorrupção e pela segurança pública, sobretudo policiais e membros das forças armadas, transformaram o Congresso Nacional em um espaço repleto de militares e defensores de atitudes belicistas e até contrárias aos direitos humanos, visto que muitos os tratam como "direitos dos manos", isto é, de bandidos, o que é uma falácia muitíssimo grave, pois atrela, "por tabela", a pobreza à criminalidade.  

Enquanto politico (ainda que estivesse ocupando o cargo de juiz federal, e não podendo em hipótese alguma ser parcial e agir politicamente), Moro desrespeitou a Constituição Federal, gravando ilegalmente a presidente da República, Dilma Rousseff, e ainda agravando tal postura ao entregar os áudios para serem divulgados em cadeia nacional no telejornal de maior audiência no país. Para piorar, ao ser confrontado pelo Supremo Tribunal Federal, como agindo politicamente e contra a Carta Magna da nação, o ex-juiz e futuro ministro da justiça afirmou que "apenas um dos ministros se manifestou contrariamente", afirmando ulteriormente que respeitava muitíssimo a Suprema Corte e que "não quis ofender ninguém". Não recebeu nada do Supremo que o fizesse justificado, mas, para um cínico, é como se isso já tivesse acontecido, pois "quem cala, consente", e o Supremo calou-se.

Para além disso, Moro liberou partes do depoimento do ex-ministro Antônio Palocci, do Partido dos Trabalhadores, sendo que o fez justamente na semana de decisão eleitoral, num ato que até a classe dos magistrados entendeu como flagrante interferência no processo eleitoral brasileiro, algo que jamais poderia ser feito por alguém que se pretende, e se deveria, imparcial. Ademais, Sérgio Moro, muito rapidamente após ter influenciado a eleição presidencial, e sem respeitar qualquer quarentena, aceitou ser ministro da justiça, sendo que, num ato de privilégio que os demais brasileiros não têm, saiu em férias - e de dois meses, mesmo tendo gozado férias muito recentemente -, no intuito de não perder as benesses de juiz federal enquanto não fosse oficializado como ministro de Estado. Tão logo percebeu que até a classe jurídica o tinha percebido como político, voltou atrás e pediu exoneração do cargo público, colocando-se oficialmente como político, função que nunca deixou de exercer enquanto chefe da operação que o catapultou à condição de ministro e, segundo já cogitam alguns, futuro presidente da República. 

Como um dos primeiros atos enquanto integrante da equipe de transição do novo governo, Sérgio Moro nomeou uma de suas mais fortes aliadas, a juíza Erika Marena, responsável pela acusação que levou ao suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier. Marena, que condenou o reitor sem conseguir provas, também não é dada à aceitação de críticas, já que, ao ser responsabilizada publicamente por levar Cancellier ao suicídio, resolveu processar aqueles que contra ela se colocaram, algo que só mesmo uma ditadura justifica, além, claro, do colega Sérgio Moro, que, ao comentar o caso, só disse que "o que aconteceu foi uma tragédia", mas que Marena "é competente e tem toda a sua confiança". Na mesma direção, ao comentar que teria como colega de equipe ministerial o deputado Onyx Lorenzoni, réu confesso na Operação Lava Jato, Sérgio Moro justificou que "o deputado já admitiu seus erros", o que parece ter concedido a Lorenzoni o indulto que muitos condenados - vários sem provas - não conseguiram, pois se trata de algo que o político Moro jamais permitiria, dado que se trata de seus mais fortes adversários políticos. Vida triste essa de termos, enquanto brasileiros, um Messias no topo e um cínico como puro instrumento de publicidade estatal.  

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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"Eleições 2018: quando a crença vence o argumento"

Enquanto professor de Filosofia e Sociologia, sempre achei que o argumento, os fatos e os dados - não manipulados - teriam de ser a baliza para se firmar um posicionamento sobre qualquer que fosse o assunto. Nos últimos dias, porém, percebo que não adianta mais termos fatos, dados confirmados e nem argumentos válidos e bem embasados, no intuito de optarmos por um lado na disputa que travam Bolsonaro e Haddad, pois o que tem ganhado lugar são as notícias falsas, a falta de debate público e praticamente nenhuma defesa de argumentos e princípios em programas político-partidários.

Já é sabido que essa eleição traz novidades nunca dantes vistas na história desse país. Um partido nanico, sem qualquer base eleitoral e sem tempo de tevê consegue catapultar um candidato à posição de quase ganhar a eleição no primeiro turno, tendo tudo para conseguir tal feito no segundo, que acontecerá no próximo dia 28 de outubro, mesmo com o histórico de incitação à violência e intolerância do deputado federal Jair Bolsonaro. Por outro lado, sabe-se também que a campanha anti-PT e o processo de desconstrução pública do Partido dos Trabalhadores, perpetrado pela grande mídia desde 2014, trouxe consequências muito nocivas para os objetivos de Fernando Haddad, visto que a falácia ad hominem (contra a pessoa) o tem atingido fortemente, fazendo-o responder por atos de outros integrantes e ex-integrantes do partido que lhe dá guarida.

Assim, a eleição será a escolha por afastar quem não se quer, uma eleição de escolha negativa, já que, ao invés de se optar por um programa político e por argumentos que mais encontrem razão de ser e, por isso, mais próximos daquilo que se quer e pretende para o país, será uma eleição baseada no ódio que se conseguiu construir em relação a um ou outro candidato. Desse modo, quem for mais eficiente nos ataques e na desconstrução do oponente ganhará a eleição, já que se tornou inútil chamar a atenção para o que cada programa de governo traz em suas (entre)linhas.

Se já é assustador ver que não há espaço para argumentos e nem para debates no pleito que já se encaminha para o seu fim, pior ainda é ver coisas que nunca deveriam acontecer em uma nação que se pretende democrática. Afinal, como pode um número significativo de empresários ameaçar de demissão os funcionários que não votarem no candidato indicado por eles? Como pode um contingente tão grande de igrejas outrora chamadas de protestantes incitarem seus rebanhos a aderirem a uma determinada candidatura, sendo que isso é crime eleitoral, o chamado voto de cabresto? Fora isso, o que dizer de grupos de empresários que estão cometendo outro crime eleitoral, pagando empresas de mídia digital para espalharem fake news sobre o candidato petista, o que, segundo a lei eleitoral, configura crime de caixa dois de campanha?

É necessário aqui dizer que não sou contra qualquer escolha eleitoral, todavia, acho uma imbecilidade sem fim escolher sem se conhecer o programa de cada um dos candidatos, pois ali está o que se fará do nosso país. Também é imprescindível que o debate de ideias e programas aconteça, pois a população não pode fazer a escolha de seu mandatário maior baseada em fake news, sem saber o que está por trás dos princípios de cada candidato, para além dos morais (que infelizmente estão muitíssimo em voga na atual eleição), a fim de não escolher sem conhecer o programa de governo e focando apenas em frases de manchete, que quase nunca trazem conteúdo argumentativo válido e nem explicam os reais objetivos de cada plataforma política.

Então, cabe perguntar a cada candidato o que ele acha de trabalho em situação análoga à escravidão em muitas fazendas espalhadas pelo país, muitas delas de propriedade de políticos. Também seria importante perguntar qual será o futuro do combate aos desmatamentos, bem como o futuro das universidades e dos institutos federais, que, embora sejam importantes instrumentos de educação pública de base e superior de alta qualidade, estão cada vez mais sem verbas para suas atividades. Além da área educacional, também é importante perguntar sobre o que se fará do corte de investimentos em saúde, já que as filas já são enormes e a população continuará a crescer, o que demandará mais vagas, sendo que as mesmas não existirão, o que aumentará ainda mais o caos na saúde pública da nação.

Cabe, ainda, perguntar se haverá uma reoneração da folha de pagamentos (após a desastrosa desoneração concretizada pela muito equivocada Dilma Rousseff), no intuito de que os empresários paguem o que é justo como contribuição previdenciária, a fim de que a conta, com uma injusta reforma da Previdência Social, não fique nas mãos dos empregados, já tão espoliados por um sistema que tende a piorar ainda mais a vida dos trabalhadores, que, numa postura liberal do governo Temer, já têm sido jogados para o desemprego e para a informalidade, ou para o trabalho intermitente, que nada mais é do que um "bico com carteira assinada", e com bem menos direitos trabalhistas. 

Sem responder às perguntas acima, não adianta falar em porrada, tiro e bomba, pois a manchete e as fake news podem até chamar a atenção e fazer ganhar eleição, mas o aumento da desigualdade, que, segundo sérias pesquisas, é a principal razão para a violência (embora muitos pensem que é a pobreza, criminalizando-a), fará de nós um rico país pobre, onde as riquezas abundam, mas só uma classe e os especuladores estrangeiros ganham, jogando por terra a máxima marxiana (extremamente cristã!) que deveria pautar nossas vidas: "de cada um conforme as suas capacidades; a cada um conforme as suas necessidades".  

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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

"Se o Cabo Daciolo estiver certo, preciso ainda mais de Deus"

O presidenciável Cabo Daciolo afirmou categoricamente, em debate televisivo, que ganhará a eleição do próximo dia 7 de outubro, impedindo-a inclusive de ter segundo turno. Segundo palavras do candidato do partido Patriota, ele "vencerá o pleito com 51% dos votos válidos, já no primeiro turno". O mais interessante nessa fala de Daciolo é que a mesma é atribuída a um milagre que Deus fará em cima da hora, pois, "assim como colocou um simples cabo dos bombeiros como deputado federal, o colocará agora na cadeira de presidente da nação".

Não sou de fazer desafios e nem de duvidar de coisas sagradas, todavia, entendo que é impossível acontecer o que o cabo afirma que acontecerá. O duro é que, se de fato não acontecer, a imagem de Deus ficará muito "arranhada", já que seria impossível Deus dizer que uma coisa vai acontecer, sendo que a mesma, no final das contas, acaba não acontecendo. Mas isso não é novo, pois o cabo já tinha dito que em nome de Jesus Cristo oraria e a deputada Mara Gabrilli, tetraplégica desde 1994, após acidente de automóvel, ficaria curada em poucos minutos, pois ele se dirigiria a um lugar particular para orar por ela, que se levantaria e andaria logo depois, o que nunca aconteceu. Daciolo defendeu-se, dizendo que "ela vai andar um dia, mas não é agora, pois não é o tempo de Deus".

Assim, a deputada não andou, bem como o cabo Daciolo não ganhará a eleição, pois não é o  tempo para nenhuma das duas coisas, que, no curso natural da vida, deverão nunca acontecer, o que não assusta a deputada, que disse que "está bem resolvida e aprendeu a viver como deficiente". Mas, então, o que acontecerá com Deus? Nada. Deus não está nisso. Falamos e sentimos o que queremos que Deus fale e sinta, mas ele, ao fim e ao cabo, não age como agimos, não sente como sentimos, não faz como fazemos, não pensa como pensamos. Assim, Daciolo sairá da eleição com menos de 1% dos votos válidos, tal como aconteceu com seu colega evangélico, o pastor Everaldo, que, na eleição passada, também apelando ao sagrado para se eleger, ficou com o número pífio de 0,75% dos votos na disputa que agora cabe ao cabo, justificando a tese que defende que, tal como mulher não vota necessariamente em mulher e negro não vota necessariamente em negro, evangélico não vota necessariamente em evangélico, jogando por terra as crenças de Waldomiros e Malafaias. 

Muitos evangélicos se sentirão envergonhados, pois Daciolo, o atual representante de tal segmento social, tem sido mais um motivo de chacota nacional do que uma alternativa para um país chafurdado na descrença em relação à política e aos políticos. No entanto, é preciso fazer algo para "defender o cabo", pois, por mais que isso não seja suficiente para pagar a vergonha em que o mesmo tem se colocado, virando mais motivo de memes do que de reflexão sobre as mazelas do país, Daciolo é coerente com o que crê e pensa, confrontando inclusive a bancada evangélica, uma das mais corruptas da Câmara Federal. 

Se a crítica coerente do cabo não é suficiente para que abramos nossos olhos para o péssimo resultado da mistura entre política e religião no país, ao menos sua ética de convicção, conceito weberiano, nos colocará em compasso de espera, já que,  embora eu divide do que fala e acredita o cabo, pelo menos tenho de ser inspirado pela coerência dele, já que, se o mesmo tiver mesmo razão, o verei presidente a partir do dia 7, o que calará minha boca, boca de um intelectual que terá de admitir que precisa muito de Deus, uma vez que, atendendo ao projeto de nação do novo presidente, estará à espera do segundo grande milagre: a caminhada emocionante e inspiradora de Mara Gabrilli.

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

"A terceirização de tudo e mais precarização no trabalho"

Embora não seja tema muito debatido pelo público em geral, a terceirização é de extremada importância para o futuro do país. Isso porque diz respeito à qualidade de serviços como a educação, já tão espoliada nessa nação tão carente de um passo rumo a um avanço que historicamente é apenas prometido. Afinal, se a lógica privada for tomada como parâmetro, teremos em breve um conjunto de universidades públicas tão desqualificadas quanto as privadas que, em grande parte, mais se assemelham a balcões de vendas de diplomas, sem qualquer relevância em termos de pesquisa e produção de conhecimento.

Como é sabido, um projeto de terceirização das atividades-fim está em curso no país, sendo que a Câmara dos Deputados já deu o seu aval, assim como o Supremo Tribunal Federal, que também entendeu que terceirizar qualquer atividade em qualquer espaço laboral não destrói direitos e não precariza as relações de trabalho. O problema é que o STF parece ter chegado a essa conclusão sem ao menos travar contato com os muitos artigos sobre a terceirização, obras essas que confirmam que, ao ser terceirizado, o trabalho tende a ser executado por alguém que ganha muito menos pelas mesmas funções, além do fato de haver um assédio moral muito maior em relação aos terceirizados do que em relação aos funcionários da própria empresa.

No intuito de fazer um pequeno cálculo e explicar a terceirização para alunos de ensino médio, comparei a qualidade de ensino com professores que, efetivos em sua função pública, ganham 8 mil reais mensais, desde que sejam doutores, o que leva o país a gastar em torno de 10 mil reais mensais com tais funcionários, já que precisam ser contabilizados os encargos que incidem sobre o salário pago. Assim, se o governo terceirizar, por exemplo, a atividade docente em uma universidade, poderia combinar com o empresariado da educação um valor de 5 mil reais, ficando com o empregador o ônus do salário e dos encargos, o que geraria uma economia de 50% com cada empregado.

O problema, no entanto, é que, apesar da grande economia estatal, teríamos um empresário - que tem como objetivo primeiro o lucro - pagando em torno de mil reais de encargos e ficando com ao menos 2 mil de lucro, o que daria ao professor o salário mensal de 2 mil reais, o que se assemelha ao que é atualmente pago pelas instituições privadas aos seus "colaboradores". O que não foi pensado, todavia, é que tipo de relação se estabeleceria entre os professores efetivos e os terceirizados, já que, ainda que execute a mesma função, um ganharia 4 vezes mais do que o outro. Também é preciso perguntar se alguém que ganha 4 vezes menos teria motivação para dar o mesmo nível de aula, já que obviamente se sentiria desprestigiado. 

Ao fim e ao cabo, se para além de limpeza e outros serviços que são chamados de atividades-meio, o governo quiser terceirizar as atividades-fim, também no setor público, será necessário alterar a Constituição, que proíbe tal prática nesse setor, embora já não seja tão difícil alterar a Carta Magna por vontade de uma elite econômica que cada vez mais impõe a maneira de pensar e agir no país, já que são os formadores de uma opinião que, a cada dia que passa, se torna menos pública e mais publicada

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quarta-feira, 25 de julho de 2018

"Uma eleição obscura e uma saída possível"

O momento político brasileiro é algo de tão estranho e singular que coloca dúvidas na cabeça de qualquer um, já que ninguém hoje é capaz de minimamente dizer o que vai acontecer nas eleições que se aproximam. Isso se justifica pelo fato de o líder nas pesquisas de intenção de voto, Luiz Inácio Lula da Silva, estar preso, o segundo colocado ser o que se pode chamar de "salvador da pátria em tempos de crise", sendo que não consegue esconder suas posições extremamente conservadoras, polêmicas e radicais, além de outros elementos que, por vaidade ou outro fator qualquer, não conseguem fazer contraponto a uma lógica política viciada, o que, se feito, poderia nos oferecer uma plataforma progressista que se mostrasse como unida e relevante para a democracia no país.

Embora o espectro político esteja cada vez mais difícil de ser delimitado, é sabido que estamos diante de uma possibilidade de - vencido o período Temer - retorno à tentativa de se estabelecer um estado de bem-estar social, distribuindo minimamente as oportunidades e gerando um enfrentamento das desigualdades sociais - ainda que tímido, como aconteceu nos governos petistas - ou, por outro lado, um aprofundamento de políticas neoliberais de estado mínimo, privatizações de empresas públicas e retirada de direitos sociais, como já aconteceu com os direitos trabalhistas e poderão agora acontecer com direitos previdenciários, por exemplo. 

Ainda que o argumento falacioso tente mostrar que todos os partidos são iguais e que nada mudará com um ou outro no poder, é importante tentarmos separar posturas e discursos que diferenciam, e muito, uma plataforma política de outra, o que nos coloca em posição de fazer escolhas que se mostrarão completamente diferentes, a depender do candidato e partido escolhidos. Exemplo disso é o enfrentamento do discurso de que "se precisa de um governo de centro, pois o país não pode continuar dividido", como se isso, pensar de forma oposta ao mainstream, fosse um problema, o que não  é, já que é até a base para uma democracia aperfeiçoada, o que todos devemos buscar.  

Torna-se fundamental, pois, escolher, sim, um lado, pois, em um ambiente claro de luta de classes, não se pode tentar engolir em seco uma ideologia que se quer universal, mas que, ao fim e ao cabo, representa pura e simplesmente a vontade de uma classe que há tempos está no topo da pirâmide social, fazendo o possível e o impossível para não ser lá incomodada. Deste modo, se um partido - independentemente de se declarar de direta, centro, centro-esquerda ou o que quer que seja - se mostra favorável à reforma previdenciária e aos imensos prejuízos que a reforma trabalhista já trouxe, como uma taxa histórica de informalidade, queda nos postos de trabalho com carteira assinada e precarização das relações de trabalho, sobretudo com o chamado "contrato de trabalho intermitente",  deve, sim, ser diferenciado de outro que, também a independer da autodeclaração de posicionamento no espectro político, se mostrar contrário às reformas que só têm trazido austeridade e empobrecimento da população, tão espoliada de seus direitos, algo que já tem enfrentado ferrenha oposição em países como França e Argentina, apenas para citar dois dos que já caíram na falácia neoliberal que afirma que "sem tais reformas, o país quebrará". 

Se muitos acham que a única saída é o amargo remédio sugerido por essas políticas neoliberais, que já quebraram e não conseguem tirar da quebradeira a Grécia, e não trouxeram um mínimo de melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores nos países onde foram implantadas, seria muito benéfica uma olhadela para Portugal, quase sempre considerado "o patinho feio da Europa", no intuito de perceber que, na contramão do que sugeriu o FMI, isto é, sem aceitar o amargo remédio imposto pelos "conselhos" da política do Fundo Monetário Internacional, conseguiu sair de uma gravíssima crise econômica, mas sem mexer nos direitos conquistados após centenas de anos pelos seus cidadãos e cidadãs. Todavia, se não querem seguir o exemplo português, já que nem o citam em quaisquer dos grandes meios de comunicação de massa, tal como temos diariamente visto, que ao menos evitem usar Portugal como motivo de chacota e piada, uma vez que burro é aquele que não conhece essa do português.

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domingo, 24 de junho de 2018

"Copa desmobilizada: a consciência política chegou?"

Não é raro ouvirmos que o momento de Copa do Mundo funciona como ópio e anestésico no povo, fazendo com que problemas nacionais como a falta de serviços básicos em saúde, educação e segurança sejam esquecidos por pelo menos um mês. Todavia, pela primeira vez após o último título com Pelé, em 1970, um movimento parece ter quebrado essa sina nacional, já que a mobilização para a Copa se mostrou muito aquém do esperado, sobretudo para aqueles que a patrocinam. 

Prova disso foi muitíssimo interessante de se ver nos apelos apelativos (desculpe a redundância, mas eu a quero aqui) da parte dos narradores esportivos, em especial o global Galvão Bueno, que, incomodado com uma desmobilização nunca dantes vista, instou o povo a "fazer como em todas as outras Copas", quando meses antes do evento as ruas já estavam cheias de bandeiras verdes e amarelas e as ruas se encontravam pintadas para o evento, o que dessa vez não aconteceu. 

Pensando na questão de temas cruciais para a nação, a pergunta que fica seria se de fato chegamos a um ponto em que o futebol não tem essa importância toda e se não é hora de colocarmos tal evento, a Copa do Mundo, apenas como mais uma simples situação de entretenimento, sem qualquer força para fazer com que deixemos de pensar em questões nacionais realmente relevantes. 

Para alguns, foi apenas uma coincidência, pois a Copa veio em um momento de greve crise econômica, política e moral na nação, sobretudo em se tratando da classe política brasileira, tão desacreditada pelo povo que a elegeu. Para outros, no entanto, o amadurecimento político e de consciência de classe chegou a um grupo maior da população, muito por conta de uma experiência mais encorpada com o sistema democrático - e em uma era mais atenta aos direitos individuais e coletivos - o que estaria acontecendo já desde 1988.

A independer do motivo de tal desmobilização, porém, foi interessante ver que o controle dos grandes veículos de mídia sobre a população, sobretudo a menos letrada, também pode perder força, ainda que continuemos a ser o país do carnaval e do futebol. Basta que a população se mantenha vivenciando democracia e a querendo aperfeiçoada, mesmo que com rupturas nada convencionais como o impeachment de Dilma Rousseff, pois, ao fim e ao cabo, perder uma Copa do Mundo, por causa de um Roberto Carlos ajeitando o meião, um Felipe Mello pisando em holandês ou um vexatório 7 a 1 alemão, nunca será pior do que se ouvir um "pai, estou com fome".

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