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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

"E agora, quem poderá julgar a justiça brasileira?"

Em um momento econômico, político e moral demasiadamente conturbado no Brasil, eis que se colocam em lados opostos duas figuras que pautarão o ano de 2018: o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e os tribunais de justiça do país. Embora Lula parecesse já figura vencida, uma vez que tal judiciário decidiu em duas instâncias o condenar à prisão, eis que uma oportunidade de se conhecer mais de perto essa mesma justiça brasileira nos chegou aos olhos e ouvidos. Como é sabido, está já nas mãos da ministra Carmem Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, um estudo sobre as regalias e privilégios dos membros do judiciário brasileiro. Com a judicialização da política e a politização da justiça, é possível que não houvesse material mais poderoso e indesejado para a aparentemente pacata ministra do STF.

É claro que há dedo político nisso, pois, ao tentar combater a politização da justiça brasileira, que parece ser cega apenas para as mordomias dos seus próprios membros, os movimentos que a estão colocando contra a parede buscam uma espécie de "judicialização da política", isto é, criar uma jurisdição que contemple o caminhar da política nacional, já que as decisões do judiciário não contemplam o que tais movimentos sociais demandam, uma vez que suas decisões se mostram mais afeitas às classes mais abastadas, às quais pertencem quase todos os membros do judiciário nacional. 

O que se começa a ver, ao abrir a "caixa de Pandora" do judiciário brasileiro, é que dificilmente se poderá falar em moralização do país, já que os que julgam parecem se esquecer que são também passíveis de julgamento. Para exemplificar tal assertiva, pode-se citar a descoberta de uma das mais descaradas mordomias do judiciário brasileiro, o chamado auxílio-moradia. Como já anunciado ao país todo pelos jornais, uma quantidade imensa de juízes e desembargadores recebe um valor muitas vezes maior do que seu salário em folha para que os tais possam residir em uma localidade onde não teriam imóvel, sendo que quase todos têm imóveis em tais localidades, chegando um desembargador de São Paulo, beneficiário de tal "auxílio", a ter 60 imóveis próprios na cidade!

Como "estudo de caso", foi interessante ouvir as justificativas daquele que até o momento era considerado o paladino da justiça brasileira, implacável contra a corrupção, o juiz federal Sérgio Moro. Ao ser perguntado sobre o privilégio de que ele também usufrui, o juiz "justificou" tal mordomia dizendo que receber mais de 100 mil reais mensais, quando seu salário em folha é de 28 mil, "é uma maneira de repor as perdas salariais desde 2015". É curioso e lamentável que um juiz possa dizer isso num país onde o colocam como símbolo máximo da moralização, sendo que não é problema para o mesmo juiz se calar ao falar sobre como ficam as perdas salariais dos outros milhões de trabalhadores, usurpados de seus direitos por uma elite que conseguiu chegar ao lugar onde não quer ver gente que possa de fato fazer justiça. 

Com uma mídia que não dá a mínima atenção para o que de fato é relevante para a moralização do país, a fala de Sérgio Moro ficará no esquecimento e, se houver vergonha na cara, não se poderá mais usar a figura de Moro para falar em alguém que possa moralizar o país, pois, tal como ele, os que julgam são dos que mais se aproveitam de uma estrutura desigual e extremamente imoral. É claro que não pode dizer aqui que ela é também uma estrutura ilegal, pois falas como a de Sérgio Moro transformam em legal aquilo que é digno de vômito. E agora, quem poderá julgar a justiça brasileira?

liberdade, beleza e Graça... 




segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

"Professores da Estácio já sabem se a reforma trabalhista é boa"

Se antes os empresários do setor da educação demitiam professores no final do ano, no intuito de não pagar salários e direitos durante as férias, ainda que recebendo mensalidades dos estudantes, agora a situação ganha aval legal, já que a reforma trabalhista aprovada no país institucionaliza um processo de precarização do trabalho, sobretudo em se tratando do setor onde se aloca a educação superior.

Como já foi noticiado em vários meios de comunicação, a Universidade Estácio de Sá, segundo maior grupo educacional do país, demitiu 1200 professores logo após a aprovação da reforma nas leis trabalhistas, já que agora será possível contratar profissionais com um salário muito menor, ignorando qualquer atividade fora de sala de aula, bem como fechando os olhos para o tempo gasto com o preparo de aulas e de correções de provas, algo pelo que os professores recebiam, já que tais atividades contavam como "descanso remunerado", sendo ações feitas em um momento em que o professor na realidade não descansa, pois prepara o que vai ensinar, ou avalia o que cobrou de seus educandos.  

Na mesma direção da Estácio, muitas outras instituições de ensino superior aderiram ao ilegal e imoral movimento de demissão em massa, no intuito de recontratar professores com salários menores e pelo chamado contrato de trabalho intermitente, que é aquele pelo qual só se pagam as horas de atividade fim, isto é, somente as horas em sala de aula sendo pagas, ainda que o professor gaste tempo com preparo e correções. É claro que, se o professor fizer o correto, ou seja, se preparar aulas durante o momento da audiência com seus alunos, corrigindo ali também as provas, será considerado um profissional ruim, mas isso seria o mais acertado, já que ele só será pago pelo que fizer durante as aulas.

Com profissionais que aceitam se colocar em situações de precariedade do trabalho, sobretudo em tempos de crise, e também por conta do imenso exército de reserva de profissionais em busca de uma colocação, será difícil falar em contrato acordado entre patrões e empregados, já que o poder de barganha do empresário, agora legalmente institucionalizado numa legislação totalmente pró capitalistas, acaba por matar qualquer possibilidade de os trabalhadores, sobretudo os professores, conseguirem ter voz e vez.

O aceno de Temer à elite brasileira e ao capital internacional conseguiu se efetivar em mudanças que, já no curto prazo, fazem do Brasil um pais mais pobre e ainda mais desigual, ao mesmo tempo em que fomenta um clima generalizado de apatia na nação, já descrente de qualquer saída política, a não ser a radicalização inconsequente, tão bem representada por figuras como o deputado federal Jair Bolsonaro. Como já dito aqui em texto anterior, Michel Temer fará em dois anos o que nem em dois séculos conseguirão consertar. E eu, antes um sociólogo otimista, e que começava a enxergar diminuição no abismo social que divide a nação entre quem sempre teve e quem nunca vai poder ter, começo agora a admitir que o medo começa a vencer a esperança.

liberdade, beleza e Graça...



terça-feira, 21 de novembro de 2017

"Redação do Enem 2017"

Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil 

Qualquer Estado que se queira apresentar como verdadeiramente democrático deve ultrapassar a ideia de que democracia se faz apenas com o direito universal ao voto e o atendimento estatal das demandas da maior parte da população. No intuito, então, de contemplar não apenas a vontade da maioria, mas atentando especialmente para a maioria das vontades, a nação realmente democrática deverá dar detida atenção ao desafio de se incluir socialmente os mais variados grupos que a formam, mas focando muito especialmente as demandas dos cidadãos e cidadãs que trazem consigo algum tipo de deficiência física, que é o caso dos milhões de surdos dessa nação, ainda pouco inclusiva, chamada Brasil.

Não são poucos os desafios que um país enfrenta para a inclusão social de seus deficientes, mas é sabido que mais desafiador ainda é para o próprio deficiente sentir-se plenamente cidadão, já que diariamente, enquanto portador de alguma limitação, tal indivíduo percebe que é quase impossível vivenciar um cotidiano livre da violência, da discriminação e da negligência da parte do Estado, da família e também da comunidade escolar, já que a autonomia e a plena participação, garantidas em lei, dependem quase sempre de um ambiente escolar que, quando público, falha ao não ter profissionais capacitados para lidar com aquela que é reconhecida também como uma língua no país, a Língua Brasileira de Sinais, e, quando privado, quase sempre só oferece o que a lei estabelece como obrigatório se o indivíduo "pagar por fora", como se percebe em várias escolas onde pais têm de pagar por um professor extra para que seus filhos surdos sejam minimamente incluídos.  

É claro que muito já foi feito desde que, tardiamente, no Império, com D. Pedro II, a inclusão dos surdos começou a se dar, tendo tal grupo social a oportunidade educacional que aos demais já era oferecida. Todavia, é perceptível que a caminhada para a plena cidadania dos surdos ainda é longa, visto que, apesar das muitas diferenças que formam o nosso povo, em termos étnicos, sociais e culturais, ainda são muito presentes a intolerância, o preconceito e as portas fechadas para pessoas não vistas como "normais", o que pode ter contribuído para a queda do número de estudantes surdos. 

Após um importante passo ter sido dado em 2002, com a lei que determina que empresas e órgãos públicos institucionalizem formas para se apoiar, usar e difundir a Libras como meio de comunicação objetiva, cabe, como um dos próximos passos, uma auditoria para que o governo analise em que medida a determinação legal foi atendida, e o que se pode aprender com os êxitos e fracassos de tal importante interferência estatal. Afinal, sem a mesma, corre-se o risco de tal grupo continuar a incessantemente enviar sinais, mas o "país do futuro" insistir em se mostrar, como sempre, surdo

liberdade, beleza e Graça...  
    

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"500 anos da Reforma Protestante"

Analisar o cristianismo no Brasil acabou sendo, por muito tempo, separar católicos de evangélicos, e só. Todavia, é importante lembrar que aquilo em que se tornou o protestantismo no país, o mundo evangélico, em quase nada se assemelha àquilo que se iniciou no século XVI, e que acabou por se tornar um dos pilares da Modernidade, a saber, a Reforma Protestante. Qualquer simples trabalho de campo mostrará que os evangélicos, assim como sua liderança política, no Congresso Nacional ou fora dele, pouco ou nada entendem sobre o movimento que eles têm como matriz religiosa.

A Reforma, cujo estopim ocorreu em 1517, trouxe luz à luta de Lutero, Zwinglio, Melanchton, Calvino, Müntzer e outros reformadores, e é entendida pela Sociologia como um dos três dos mais importantes acontecimentos a trazerem uma nova era para o Ocidente, e para o mundo, juntamente com a instauração do Estado Racional Burocrático, tão bem analisado por Weber, e também com a chamada cristalização do capitalismo de mercado, tão profundamente estudado por Marx.

Se não entende patavina sobre as implicações da Reforma para a sua lida diária na fé, ao menos os evangélicos captaram bem uma das consequências do movimento liderado por Martinho Lutero e suas 95 teses afixadas na porta da Catedral de Wittenberg, na Alemanha. Parecendo, no entanto, agir de forma contrária ao posicionamento verdadeiramente protestante naquilo que Lutero chamou de Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum, a conhecida disputa sobre o poder e a eficácia das indulgências, isto é, dos pagamentos para se conseguir o perdão de pecados, os evangélicos brasileiros, 500 anos depois de tal revolucionário marco, seguem trocando dinheiro por curas, perdão e salvação de pecados, o que joga por terra a luta dos reformadores acima citados, já que nada disso (cura divina, perdão de pecados e salvação da alma), segundo a visão genuinamente protestante, vem de fora do tripé de tal visão de mundo; só pela Graça de Deus, conhecida pelas Escrituras, e que gera a que move aquele que crê.

Mas, ainda que o movimento evangélico insista em tratar a religiosidade como um lugar de disputa por dinheiro e poder, e usando o nome de Deus para isso - algo que pode ser visto cotidianamente nos programas religiosos e nos ditos de seus mentores, sobretudo pentecostais e neopentecostais, em disputa por "mercado" na tevê - é importante lembrar que a religiosidade proposta pela Reforma Protestante tem mais implicações seculares do que propriamente "sagradas", visto que é a visão sobre o verdadeiro papel da religião e da economia monetária que está em jogo, uma vez que a visão protestante descentraliza o medo de Deus e retira a "maldição" que existia no dinheiro, algo que a igreja insistia em ter em suas mãos, já que nas mãos do povo poderia lhes tirar o paraíso, problema que a instituição igreja não teria, já que ter dinheiro e terras não seria problema (somente) para ela. 

Assim, o que de melhor se pode focar nesse aniversário de 500 anos é que a Reforma trouxe a autonomia para os indivíduos que querem professar, à sua maneira, o seu cristianismo, além do apoio à livre interpretação das escrituras bíblicas, retirando tal monopólio das mãos do clero, ao mesmo tempo em que tornou o indivíduo livre para destronar lideranças que insistem em deter o verdadeiro sentido dos escritos tidos como sagrados pelos cristãos. Afinal, se Deus realmente existe e ama o seu povo, por que não derramaria graça sobre aquele ou aquela que sinceramente busca uma inspiração na Bíblia para re-significar sua existência na terra, desde que respeitando o contexto e a intenção originais do escrito? 

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domingo, 15 de outubro de 2017

"Eu sou professor!"

Sou professor desde 1997, mas chegar ao dia 15 de outubro sempre me foi muito normal e nunca nada de muito excepcional me aconteceu por conta de tal data. Todavia, um insight nunca antes tido me veio no dia do professor deste 2017. Para além do simbolismo de 20 anos de docência (não, não sou velho; comecei a dar aulas de teatro antes mesmo de me formar! rsrs), olhei para meus alunos e percebi que eles me escutam muito, me levam a sério demais, valorizam demais o que falo, o que penso e o que ensino. Onde vários colegas enxergam alunos desinteressados e bagunceiros, só vejo olhos vidrados, sendo que isso sempre me pareceu muito normal. Percebi também que tenho um papel de muita responsabilidade na vida desses caras, além do fato de eu ser considerado um bom professor por eles, o que sempre me honrou, mas nunca recebeu tanta importância de minha parte, já que, para mim, ser bom professor é uma coisa "normal". Só que não.

Um amigo meu me disse uma vez que "encontrar um bom professor é encontrar um tesouro". É verdade. Eu encontrei alguns, mas nenhum que se compare à dona Ana Verônica Pardo, aquela por causa da qual eu sou doutor hoje. Afinal, como agradecer a uma figura que olhou para o pior aluno da classe e o fez se tornar o melhor? Que mágica tinha aquela mulher? Nenhuma. Não era mágica. Era olhar. Assim como Jesus, o milagre não está na mágica feita, mas no olhar que enxerga a invisibilidade social de alguém, trazendo-o para o Caminho, retirando-o da margem, evitando o marginalizado.

Ganhei um livro. A ex-aluna fez uma dedicatória. "Você foi o melhor professor que eu já tive na vida". Sim, o dia do professor de 2017 foi simbólico, e não apenas pelos 20 anos completados, mas porque, pela primeira vez na vida, eu me senti como a dona Ana, quando eu tinha apenas 8 anos de idade. Eu consegui também fazer o milagre! Sem nada que fizesse menção à questão da sexualidade, me tornei Ana, Ana Verônica; me tornei professor! E, apesar de a mais importante profissão que existe não ter nem um décimo do valor que deveria ter, tenho a maior honra e o maior orgulho de hoje afirmar categoricamente que eu sou professor!!

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segunda-feira, 25 de setembro de 2017

"A demonização da política é o que a extrema-direita quer"

É sempre muito difícil separar a política dos políticos, sobretudo em um país com pouca educação formal e alto índice de analfabetismo funcional, o que contribui muito para que essa confusão afaste as pessoas daquilo que é o mais importante na formação cidadã de um povo, a saber, a formação política. Ademais, outro grande problema é que a sucessão de conquistas que culminou com o que temos como democracia hoje é pouco percebida como processo por muitos, que acabam, em momentos de crise institucional e política, como a vivida agora, querendo que tudo seja derrubado e que voltemos à estaca zero, construindo um novo modelo de governança.

É exatamente por isso que discursos reducionistas e de retrocesso ganham tanto vulto, como têm ganhado as falas de pessoas como o deputado Jair Bolsonaro, candidato declarado à presidência do Brasil. Esquecendo-se das muitas - e até sangrentas - lutas pelos direitos dos mais variados grupos sociais, muitas pessoas pensam que o melhor é "acabar com tudo e começar do zero". Porém, começar do zero, como se pode ver nos discursos, e até em práticas de muitos, significa jogar no lixo uma imensa gama de direitos conquistados. Só no nível do exemplo, é difícil aceitar a condição da mulher idealizada por Bolsonaro, já que este, ao falar sobre os filhos que tem, afirmou em entrevista que "os primeiros são homens, mas, depois, após uma 'fraquejada', veio mulher".

Sem ganhar a atenção social que merece, o que está escondido nessa postura que agora se nos apresenta é um processo de demonização da política verdadeiramente democrática, sendo que se deveria demonizar é algumas figuras da política, já que, ao tratar a política como algo ruim, abre-se espaços para que discursos e práticas que não versam sobre a coisa pública tomem lugar de destaque, trazendo à tona uma cosmovisão muito recortada, localizada e, até por isso, nada inclusiva. Mas o foco é outro; se conseguirem fazer com que se confunda a política com os políticos, ninguém que já está há tempos tentando, aos trancos e barrancos, incluir os excluídos e alterar substancialmente a estrutura desigual da nação poderá galgar um novo degrau, visto que tudo o que foi conquistado será tratado como fútil, como percebe bem o sociólogo Albert Hirschman, ao falar sobre o caráter de futilidade dado pelos donos do poder às lutas dos mais variados grupos sociais. 

Assim, caro leitor, tenha certeza de uma coisa: toda vez que alguém defender que "todo político é igual" e que "não vale a pena votar", já que "tudo vai continuar como sempre foi", será preciso lembrar a tal pessoa de que tudo o que é hoje não tem quase nada a ver com o que foi, em termos de direitos, o que por si só já referenda a luta por mais espaços, algo que algumas figuras políticas teimam em nos negar, já que, se a política (na verdade, muitos políticos) não conseguiu dar conta do recado, um retrocesso a um tempo militarizado (considerado por eles como melhor, pois "as coisas funcionavam e havia ordem") pode ser pensado, inclusive em termos de militarização da educação, algo proposto por Bolsonaro. O contrário disso? Sair novamente às ruas e acreditar, sem medo, que já se caminhou muito em termos democráticos para retroceder e temer continuar a luta. Afinal, para um povo que teve a coragem para enfrentar tantas intempéries como as que já enfrentamos, o medo deve ser lançado para muito longe, referendando a tese de que Temer é realmente inaceitável.

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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando a diferenciação entre nós e eles é fundamental"

O momento político brasileiro é extremamente delicado e a falta de informação - ou a informação enviesada, aquela que não se transmuta em conhecimento - faz com que a situação obrigatoriamente nos remeta, mais uma vez, às ideias sociológicas de Karl Marx. Como é sabido, as teses marxianas nos alocam em um sistema onde a desigualdade faz parte do funcionamento da sociedade e a luta entre classes se estabelece com bastante evidência, visto ser essa a base do capitalismo de mercado. 

Por mais que percebamos a necessidade de se acessar a teoria de Marx para entendermos melhor o momento brasileiro, não são poucos os que o entendem como um autor obsoleto e ultrapassado, já que suas ideias "não estariam mais dando conta de explicar o que acontece no mundo capitalista de agora". Por mais que esteja distante de nossos dias, porém, é indiscutível o valor da obra de Marx para a compreensão do que agora vivemos, já que poucas vezes se viu com tanta clareza a luta de classes estabelecida em nosso país.

Se tal luta não está sendo tão percebida pela maioria, é porque Karl Marx realmente tinha razão ao afirmar que a classe dominante faz de tudo para que suas ideias sejam entendidas como as ideias de todos, isto é, algo que indiscutivelmente "é o que o povo quer". Assim, pensar em temas como as reformas trabalhista e da previdência requer colocar em lados opostos dois grupos, uma vez que, ao fim e ao cabo, os dois não querem as mesmas coisas, já que os capitalistas só se satisfazem se o proletariado, os trabalhadores, cederem em seus direitos, o que já está acontecendo, embora não seja por vontade do povo, mas por um discurso que "prova" que "sem tais reformas, em pouco tempo o país não pagará mais as aposentadorias dos trabalhadores".

O que poucos sabem, porém, é que a quebradeira do Brasil tem nome e data. Sim, todos precisam saber que a previdência social no Brasil era superavitária até o início do segundo governo de Dilma Rousseff. Naquela que pode ser chamada literalmente de "uma jogada de classe", o empresariado solicitou a desoneração da folha de pagamento, com a promessa de que, se o governo desonerasse a folha, teria como resposta um empresariado que aumentaria o emprego no país, chegando o Brasil ao nível de pleno emprego, experimentado antes, mas sem a desoneração, no governo Lula.

Acontece, todavia, que veio a desoneração, mas os empresários, como sempre no sistema capitalista, não cumpriram a sua parte e, mesmo tendo as taxas previdenciárias caindo de 2,5% da arrecadação para entre 1% e 1,5% da receita bruta da empresa, não criaram as prometidas vagas em suas fileiras, o que fez com que o país perdesse em arrecadação, além de não ter a contrapartida em empregos, o que tinha sido previamente acordado com a presidente Dilma, logo depois deposta. 

No final da contas, o rombo nas contas públicas veio e a resposta acabou sendo, não a reoneração da folha, mas uma reforma que isenta o empresariado de pagar suas dívidas com a previdência, ficando para os trabalhadores - numa flagrante perda, condenada até pela Organização Internacional do Trabalho - o pagamento da fatura de uma confiança que Dilma Rousseff acreditou que poderia ter no empresariado brasileiro. É importante dizer também que, se o grande empresariado pagasse o que deve ao governo, nenhuma reforma condenatória às famílias menos favorecidas seria necessária, voltando o país a ter a mesma situação superavitária da era Lula. 

Mas eles não querem pagar. Eles não vão pagar. Assim, não adianta falar em "união do país", pois nós trabalhadores queremos uma coisa, desejando o empresariado exatamente o contrário. Portanto, não estamos e não podemos estar do mesmo lado, visto que queremos o oposto. Como bem disse Marx, então, nos manteremos em luta, já que, independentemente de gostarem ou não das teses daquele autor, as coisas continuarão a ser entre "nós e eles". 

liberdade, beleza e Graça...