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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

terça-feira, 20 de março de 2018

"A banalidade do mal no caso Marielle Franco"

O período eleitoral de 2014 inaugurou um tipo de eleição nunca dantes visto no Brasil; aquele que é pautado pelas muitas possibilidades oferecidas pelas redes sociais virtuais. Por conta da polarização que se estabeleceu entre os eleitores de Dilma Rousseff e os de Aécio Neves, não é raro ouvirmos histórias sobre amizades que se desfizeram, famílias que instauraram verdadeiras guerras internas e até relacionamentos amorosos que alcançaram seu término abrupto; tudo fruto do que se chama hoje de "discurso de ódio nas redes sociais". 

O discurso de ódio assinalado acima pode ser encaixado na análise que Hannah Arendt faz da banalização do mal, já que, para a filósofa judia, o mal não está na pessoa em si, mas na falta de reflexão de cada indivíduo sobre os próprios atos e escolhas, o que faz com que indivíduos considerados "gente de bem", pela maioria das pessoas do seu entorno, sejam capazes das maiores atrocidades. Arendt percebeu isso ao notar que, no julgamento de Adolph Eichmannn - um dos mais importantes oficiais de Hitler, e responsável direto pela morte de milhões de pessoas - todos estavam diante de um bom marido, um bom pai, um honesto pagador de impostos, enfim, um cidadão exemplar. A partir daí, Hannah Arendt intuiu que a banalização do mal acontece quando militarizamos a civilidade nossa de cada dia, isto é, quando - militarmente - não refletimos sobre o que nos é pedido, mas apenas obedecemos ordens, na base do "missão dada, missão cumprida".

Na direção da tese de Hannah Arendt, a desembargadora Marília de Castro Neves Vieira, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, espalhou notícias falsas sobre a vereadora Marielle Franco, do PSOL, afirmando categoricamente que a vereadora assassinada no dia 14 passado "tinha sido mulher do traficante Marcinho VP", "tinha relação direta com traficantes" e "teve sua campanha eleitoral bancada pelo Comando Vermelho", a mais conhecida facção criminosa do estado fluminense. Ao perceber a repercussão do mal que tinha conseguido espalhar e banalizar, já que fomentara um discurso de ódio com posturas racistas, homofóbicas e machistas nas redes sociais, a desembargadora afirmou que "espalhou notícias que recebeu em redes sociais sem conferir a veracidade delas", que "só queria defender as forças policiais do estado" e que "costuma se informar pelo Facebook". 

É claro que se espera de uma desembargadora que a mesma se utilize de meios de comunicação mais confiáveis para construir suas opiniões, mas o mais grave é notar que o tratamento dado por Marília de Castro ao caso Marielle Franco referenda a tese de Hannah Arendt, já que um membro tão importante do judiciário jamais deveria pautar sua postura na ausência de uma profunda reflexão sobre as mazelas sociais que atingem nosso país, sobretudo quando se trata de uma vida que se perde, independentemente de essa vida ter se pautado em lutas e escolhas políticas contra as quais a desembargadora se coloca com veemência.

Como serão as eleições que se aproximam ninguém sabe. Mas já é possível perceber que a tese de Hannah Arendt vai mais uma vez se fazer valer, visto que os discursos de ódio já começam a ser ensaiados e a reflexão, tão necessária para a evitação da banalização do mal, continua sendo tratada como obsoleta, o que prova mais uma vez que, no narcisismo que experimentamos no Brasil, pedir para que alguém reflita se tornou sinônimo de solicitar que se olhe no espelho, achando feio tudo aquilo que ali não aparecer.

liberdade, beleza e Graça...