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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

"Eleições 2018: quando a crença vence o argumento"

Enquanto professor de Filosofia e Sociologia, sempre achei que o argumento, os fatos e os dados - não manipulados - teriam de ser a baliza para se firmar um posicionamento sobre qualquer que fosse o assunto. Nos últimos dias, porém, percebo que não adianta mais termos fatos, dados confirmados e nem argumentos válidos e bem embasados, no intuito de optarmos por um lado na disputa que travam Bolsonaro e Haddad, pois o que tem ganhado lugar são as notícias falsas, a falta de debate público e praticamente nenhuma defesa de argumentos e princípios em programas político-partidários.

Já é sabido que essa eleição traz novidades nunca dantes vistas na história desse país. Um partido nanico, sem qualquer base eleitoral e sem tempo de tevê consegue catapultar um candidato à posição de quase ganhar a eleição no primeiro turno, tendo tudo para conseguir tal feito no segundo, que acontecerá no próximo dia 28 de outubro, mesmo com o histórico de incitação à violência e intolerância do deputado federal Jair Bolsonaro. Por outro lado, sabe-se também que a campanha anti-PT e o processo de desconstrução pública do Partido dos Trabalhadores, perpetrado pela grande mídia desde 2014, trouxe consequências muito nocivas para os objetivos de Fernando Haddad, visto que a falácia ad hominem (contra a pessoa) o tem atingido fortemente, fazendo-o responder por atos de outros integrantes e ex-integrantes do partido que lhe dá guarida.

Assim, a eleição será a escolha por afastar quem não se quer, uma eleição de escolha negativa, já que, ao invés de se optar por um programa político e por argumentos que mais encontrem razão de ser e, por isso, mais próximos daquilo que se quer e pretende para o país, será uma eleição baseada no ódio que se conseguiu construir em relação a um ou outro candidato. Desse modo, quem for mais eficiente nos ataques e na desconstrução do oponente ganhará a eleição, já que se tornou inútil chamar a atenção para o que cada programa de governo traz em suas (entre)linhas.

Se já é assustador ver que não há espaço para argumentos e nem para debates no pleito que já se encaminha para o seu fim, pior ainda é ver coisas que nunca deveriam acontecer em uma nação que se pretende democrática. Afinal, como pode um número significativo de empresários ameaçar de demissão os funcionários que não votarem no candidato indicado por eles? Como pode um contingente tão grande de igrejas outrora chamadas de protestantes incitarem seus rebanhos a aderirem a uma determinada candidatura, sendo que isso é crime eleitoral, o chamado voto de cabresto? Fora isso, o que dizer de grupos de empresários que estão cometendo outro crime eleitoral, pagando empresas de mídia digital para espalharem fake news sobre o candidato petista, o que, segundo a lei eleitoral, configura crime de caixa dois de campanha?

É necessário aqui dizer que não sou contra qualquer escolha eleitoral, todavia, acho uma imbecilidade sem fim escolher sem se conhecer o programa de cada um dos candidatos, pois ali está o que se fará do nosso país. Também é imprescindível que o debate de ideias e programas aconteça, pois a população não pode fazer a escolha de seu mandatário maior baseada em fake news, sem saber o que está por trás dos princípios de cada candidato, para além dos morais (que infelizmente estão muitíssimo em voga na atual eleição), a fim de não escolher sem conhecer o programa de governo e focando apenas em frases de manchete, que quase nunca trazem conteúdo argumentativo válido e nem explicam os reais objetivos de cada plataforma política.

Então, cabe perguntar a cada candidato o que ele acha de trabalho em situação análoga à escravidão em muitas fazendas espalhadas pelo país, muitas delas de propriedade de políticos. Também seria importante perguntar qual será o futuro do combate aos desmatamentos, bem como o futuro das universidades e dos institutos federais, que, embora sejam importantes instrumentos de educação pública de base e superior de alta qualidade, estão cada vez mais sem verbas para suas atividades. Além da área educacional, também é importante perguntar sobre o que se fará do corte de investimentos em saúde, já que as filas já são enormes e a população continuará a crescer, o que demandará mais vagas, sendo que as mesmas não existirão, o que aumentará ainda mais o caos na saúde pública da nação.

Cabe, ainda, perguntar se haverá uma reoneração da folha de pagamentos (após a desastrosa desoneração concretizada pela muito equivocada Dilma Rousseff), no intuito de que os empresários paguem o que é justo como contribuição previdenciária, a fim de que a conta, com uma injusta reforma da Previdência Social, não fique nas mãos dos empregados, já tão espoliados por um sistema que tende a piorar ainda mais a vida dos trabalhadores, que, numa postura liberal do governo Temer, já têm sido jogados para o desemprego e para a informalidade, ou para o trabalho intermitente, que nada mais é do que um "bico com carteira assinada", e com bem menos direitos trabalhistas. 

Sem responder às perguntas acima, não adianta falar em porrada, tiro e bomba, pois a manchete e as fake news podem até chamar a atenção e fazer ganhar eleição, mas o aumento da desigualdade, que, segundo sérias pesquisas, é a principal razão para a violência (embora muitos pensem que é a pobreza, criminalizando-a), fará de nós um rico país pobre, onde as riquezas abundam, mas só uma classe e os especuladores estrangeiros ganham, jogando por terra a máxima marxiana (extremamente cristã!) que deveria pautar nossas vidas: "de cada um conforme as suas capacidades; a cada um conforme as suas necessidades".  

liberdade, beleza e Graça...