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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

domingo, 7 de outubro de 2007

“O caso Renan e as retóricas reacionárias”

Poucos conseguem entender o fato de, depois de tudo o que aconteceu no país e no Senado Federal, Renan Calheiros continuar a sentar-se na cadeira de presidente de uma das mais importantes instituições desta República Federativa.
As declarações do senador chegam mesmo a assustar, uma vez que trazem à tona construtos como “foi uma vitória da democracia” ou “o povo brasileiro sabe que eu sou inocente”.
Uma boa teorização se faz necessária para que se consiga entender, pelo menos em parte, o indigesto "caso Renan". Uma boa possibilidade é lançar mão das idéias do sociólogo Albert Hirschman, com suas "retóricas reacionárias".
O caso Renan faz com que se tenha a absoluta certeza de que o Brasil é um país reacionário ao extremo. Hirschman, ao pensar as “retóricas” acima citadas, buscou entender porque a massa não reage quando existe extremada necessidade de tal acontecimento. Para defender sua tese, o autor apresenta o século XVIII como o século em que se buscou lutar pelos direitos civis; o século XIX como o momento da luta pelos direitos políticos e o século XX como aquele da busca pelos direitos sociais.
No afã de mudar o status quo que lhes oprimia, os grupos de reação aos governos autoritários dos três séculos estudados por Hirschman encontraram retóricas reacionárias que sempre intentaram dissuadi-los da luta por seus direitos.
À primeira das retóricas, usada quando dos momentos das lutas por direitos civis, no século XVIII, Albert Hirschman chama de “retórica da perversidade”. O grupo hegemônico, ao perceber que o povo está chegando perto de tirar-lhe os privilégios, lança mão de uma postura perversa, convencendo as massas de que “isso pode ter um efeito contrário e tudo ficar pior do que já está”. O povo, amedrontando-se frente ao novo, se cala.
O segundo efeito é o chamado de “retórica da futilidade” e foi muito visto no século XIX, quando das lutas por direitos políticos. Por esse pensar, os grupos que detêm o poder político lançam mão da construção “por que fazer tanto barulho, se não vai dar em nada?!”. As massas são convencidas de que sua revolta não vale tanto esforço e novamente se cala.
O terceiro efeito apresentado por Hirschman é o da “retórica da ameaça” e está muito presente nas lutas por direitos sociais no século XX. Pela lógica da ameaça, os hegemônicos ameaçam as massas afirmando que “lutar por seus direitos ameaçará até os poucos direitos já conquistados”. O povo, temendo perder até o básico do básico que tem, novamente se cala e não luta.
Pensar o país e o caso Renan à luz da teoria de Albert Hirschman tem, portanto, sua relevância, uma vez que as três retóricas parecem ser fantasmas assombrando o povo brasileiro. No caso da perversidade, vai que tirar o Renan tenha um efeito perverso e traga de volta o Jader Barbalho! Pensando-se no efeito da futilidade, que diferença faz ter ou não o Renan Calheiros no comando de uma casa na qual os brasileiros nem acreditam mais? E, finalmente, focando-se o efeito da ameaça, ficar pensando em Renan poderia estar "ameaçando nossa paz", tirando-nos o tempo e os finais de semana de descanso frente à tevê, vendo Faustãos, Gugus ou Campeonatos Brasileiros! Melhor, portanto, não perder tempo com isso. Assim, fica tudo como está; a elite se cansa e o povo descansa. E dá uma tristeza que o peito chega a ficar dorido.

liberdade, beleza e Graça...