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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

"O Haiti não é aqui, mas o Pará é"

A situação no Haiti é, como se sabe há tempos, de fome, miséria e guerras internas constantes. O exército brasileiro, elogiado por toda a comunidade internacional, ajuda no processo de pacificação daquele país.
Ao pensar naquele pedaço de chão, também feito por Deus, um poeta da música brasileira comparou os dois povos, dizendo: "reze pelo Haiti, chore pelo Haiti; o Haiti é aqui, o Haiti não é aqui". Perturbadora e paradoxal, essa sentença.
Pensei, enquanto teólogo, sociólogo e pastor, e me aliviei deveras pelo fato de o Haiti não ser mesmo aqui. Porém, tive de me machucar muito mais fortemente do que se aqui fosse mesmo aquele país. Percebi que o Haiti pode até não ser aqui - mesmo com as licenças poéticas que pedem o contrário - mas o Pará, infelizmente, é. E, para dizer a verdade, e à luz dos últimos acontecimentos naquele estado brasileiro, seria melhor que o Haiti fosse aqui.
A adolescente L., de 15 anos, acusada de roubo, foi encarcerada numa cela com outros 25 homens durante 20 dias. Foi estuprada, queimada com cigarro, enquanto negou sexo, e teve seus cabelos cortados a facão "para se parecer com homem e não dar muitas chances para perceberem" (que havia uma mulher, ou melhor, uma criança, naquele local de horror). Durante todo esse tempo, a menina não recebeu comida. Se quisesse comer, tinha de se tornar escrava sexual dos detentos. Por que não recebia comida e quem são os responsáveis por isso são questões que não encontram respostas, embora possam ser facilmente respondidas.
Pela lei, L. não poderia ser presa, não poderia ser colocada em uma cela como aquela e não poderia deixar de ter alimento, mesmo que fosse em uma cela outra.
O caso poderia, num país sério, gerar prisão perpétua para os responsáveis, mas no Pará (e no Brasil como um todo, pois aconteceu o mesmo já em pelo menos outros 5 estados, segundo um relatório internacional pelos direitos da mulher), o fato não gerou mais do que a triste confirmação: "não é a primeira vez que acontece. Isso sempre aconteceu aqui na região" (palavras de testemunhas e da própria governadora do estado, Ana Carepa, do PT).
Fico, portanto, com a frase atribuída ao General De Gaulle, que diz que "o Brasil não é um país sério", pois sei que nada de relevante irá acontecer de fato à governadora, aos responsáveis pela prisão (embora estejam já naquela "afastadinha temporária") e aos "coronéis" da região.
A governadora prometeu, "energicamente", apurar o caso e se disse "envergonhada".
A pergunta que se faz é: Por que mesmo com quase todos os moradores da cidade sabendo da prisão da menina, não se ouviu o grito de denúncia da população? Segundo palavras ouvidas pela Folha de S. Paulo: "Medo de morrer. Aqui todo mundo tem medo", disse a tia de um dos presos transferidos. "Se a delegada põe uma menina na cela com os homens, e a juíza mantém ela lá, quem sou eu pra denunciar. Aliás, denunciar para quem?"
A delegada a que se refere a mulher é Flávia Verônica Pereira, responsável pela prisão em flagrante de L. A juíza é Clarice Maria de Andrade. A delegada já está "afastada" e a juíza está "sob investigação", ainda! Meu Deus, isso não pode dar em nada!
Pensei nesse caso essa semana e cogitei até a possibilidade de dar uma nova chance ao Jáder Barbalho. Afinal, perto de tudo isso até que ele me parecia um "santo paraense".
Mas não, não vou terminar o texto assim. O Jáder é a ratificação disso tudo, pois "manda no Pará". É canalha também. Hoje não tem perdão; não quero que aquele estado seja aqui. O Pará não é aqui. Ou é, mas como um protótipo do inferno. Com esse Pará eu quero Parar.
Perguntaram-me dia desses se, sendo um teólogo liberal, acredito no inferno. Sim, acredito. Vivo pertinho dele até. Quanto ao diabo, está mais distante, pois desconfio que seja o Bush. Tenho quase certeza. O demônio-mór, acho que é o Chaves (o venezuelano, não o outro), embora ele e o George W finjam brigar. Já o ministro das relações exteriores, é o Jáder. Só pode ser. Quanto a mim; eu deveria ter nascido pé de laranja.

liberdade, beleza e Graça...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

"O caminho de Emaús"

Poucos textos bíblicos são tão enigmáticos quanto o do Evangelho de Lucas, no capítulo 24. No texto que vai do versículo 13 ao 35, Lucas narra a volta de dois discípulos de Jesus para a cidade de Emaús, após terem vivenciado o martírio de seu mestre, em Jerusalém. Jesus havia morrido e uma sensação depressiva tomava conta de seus muitos discípulos e não apenas de seus doze apóstolos. Cada um fugiu como pôde da presença das autoridades que queriam incriminar a todos os que seguiram aquele que agora estava morto, por conta deste ter levantado tanta insurreição e contradição em Jerusalém e circunvizinhanças.
O enigma do texto está no fato de, após percorrerem uma parte do árido caminho, os dois discípulos não reconhecerem a pessoa que passara a lhes fazer companhia na triste viagem. Diz o texto que o próprio Jesus caminhava ao lado dos dois tristes amigos. Já ressuscitado, o mestre perguntava aos dois acerca do motivo da tristeza que lhes tomava. É mesmo de se duvidar que uma pessoa – no caso dessa narrativa, duas – não reconheça alguém com o qual compartilhou importantes momentos da vida durante três longos anos. Não é possível que se esqueça da voz, do jeito, do vocabulário, dos maneirismos, etc. Ainda assim, o texto diz que os dois não reconheceram Jesus naquele momento da árida caminhada. Fica mesmo difícil de crer em tal passagem à primeira lida. Todavia, e em primeiro lugar, cabe lembrar que eram discípulos, mas não eram dos apóstolos, que acompanharam Jesus o tempo todo. Portanto, não conheciam o mestre tão bem assim. É importante que se lembre também que, em momentos de depressão e decepção intensa, o que é desconhecido pode vir a ficar claro e o que é já há muito cotidiano pode passar a sofrer um grande estranhamento. Tem coisas que só a depressão explica. Quando não explica, é porque em estado depressivo não se pretende mesmo explicar nada. E, já que só ela, a depressão, poderia explicar, fica tudo sem explicação.
É importantíssimo que se saiba ainda que os dois discípulos estavam totalmente inteirados dos fatos que os cercavam, mas não entendiam nada acerca da angústia que lhes tomava o interior. Era como se Jesus fosse o único que de nada sabia.
Nos dias de hoje a coisa não está tão diferente; agimos como se o Senhor Jesus se tivesse tornado algo de totalmente obsoleto, de “tão desinformado" que parece estar. É como se o Verbo Divino não tivesse mais ciência do que se passa ao redor dos homens e mulheres pelos quais se propôs a morrer. Os indivíduos precisam "informá-lo dos fatos".
Aqueles dois discípulos sabiam de tudo. Tinham todas as últimas informações sobre a vida e a morte de uma pessoa conhecida deles. Mas não sabiam – ou não reconheciam – que aquele que a eles se dirigia – e que outrora estivera morto – era agora vivo e a própria fonte de toda vida; o único capaz de tirar-lhes daquele estado de profunda angústia.
Sabia-se e sabe-se de tudo, mas desconhece-se, ainda, o que o Senhor pode fazer, pois ele é uma resposta que não mais agrada a uma sociedade encantada por tudo o que aprendeu e sabe fazer e ter. E, quando a tese do sociólogo Max Weber fala acerca do desencantamento do mundo, muitos não sabem e nem querem mesmo saber do que se trata.
Na seqüência do texto, Jesus faz menção de ir embora, mas os dois o convidam a repousar na cidade deles, já que a hora avançara bem. Jesus aceita o convite e compartilha com eles do pão. É reconhecido neste instante, mas desaparece do meio dos dois, segundo o texto.
Comentando o estranho episódio, um deles diz: “por acaso não ardia o peito dentro em nós enquanto ele nos falava aquelas coisas?”.
Jesus pode até parecer fora de moda e obsoleto para uma sociedade que parece já ter tudo. Mas, quando ele fala com alguém – e ele sempre fala com aquele ou aquela que abre o coração para isso – uma sensação diferente toma conta do interior da pessoa. Ciência alguma explica isso. Eu também não. Nem tento.

liberdade, beleza e Graça...