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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

“Paralelos teológicos”

Karl Barth foi um teólogo nascido na Basiléia, na Suíça, sendo um dos maiores de que se tem notícia na história da Teologia, visto ter trazido contribuições demasiado importantes para o debate e reflexão acadêmicos pelo viés da Teologia Dialética e da chamada Neo-ortodoxia protestante (corrente de pensamento que tanto me encantou nos meus cinco anos de academia teológica).
É de Barth a matriz para o chamado “pensamento universalista”. Segundo tal pensar, grosso modo, o amor de Deus é tão intenso e incomensurável, que não haveria a menor possibilidade de o Mal subsistir, quando do momento da manifestação plena de tal amor. É como se, na presença do amor magnificente de Deus, o mal fosse de todo aniquilado e o inferno saqueado e destruído.
Lembrei-me de Barth e de meus anos de academia teológica ao acessar o livro bíblico de Jonas e ao lançar mão de uma “frase universalista” em um meu cartão de visitas.
Relendo o livro do “profeta menor” Jonas, certifiquei-me mais uma vez de que se trata de um libelo contra a segregação étnica e pela universalização do acesso ao Deus criador. É interessante notar que a pregação de Jonas, que acabou por converter os grandes pecadores de Nínive (na época, uma “cidade cuja maldade já tinha chegado aos céus”), longe de ter felicitado o profeta, o desencantou em demasia, pois o mesmo estava nenhum pouco interessado em que outra etnia, que não a sua, alcançasse a misericórdia do Deus de toda a criação.
A visão exclusivista de Jonas, no meu modesto entender, nada mais é do que uma versão judaica antiga da atual visão exclusivista de vários segmentos religiosos, evangélicos dentre eles. Tal visão acabou por fazer do povo judeu um grupo perseguido, odiado e segregado por outros e até por si mesmo. O mesmo parece estar acontecendo com todo o grupo que, de forma segregadora e intolerante, se posiciona como uma nação “fora do mundo”.
A frase de cunho “universalista” que postei em meu cartão de visitas diz: “A derrota cabal do Mal será que, ao abrir as portas do inferno, ele o encontrará vazio, por causa da Cruz de Cristo”. Assim como a conversão dos ninivitas, que tanto irritou ao profeta Jonas, por conta de seu exclusivismo segregador, minha frase também irritou ou, no mínimo, chocou um bom número de pessoas cristãs “piedosas”.
“Mas, pastor, assim não vai ter inferno, poxa!”. “Então, vai ser todo mundo salvo, pastor?!”.
Não nego a existência do céu e do inferno, embora pouco eu possa falar sobre eles. Todavia, o que assusta não é o fato de a Bíblia os fazer existentes – ainda que tenham tido as mais variadas leituras no decorrer dos anos – mas o fato de que o inferno precisa existir; tem de ter gente lá!
Para o profeta Jonas, os ninivitas não poderiam se converter a Deus. Eles teriam mesmo de ser destruídos e queimados vivos! Da mesma maneira, a frase de cunho utópico cristão que postei acabou por ser lida como um “libera geral” não-punitivo. E isso, tristemente, desencantou.
A simpatia à Neo-ortodoxia protestante me fez olhar com bons olhos para a visão universalista de um amor que aniquila todo o mal e instaura o bem para sempre e para todos, mas isso tem um alto preço, é óbvio. Noutra época, levaria à fogueira!
Ainda assim, e no nível da provocação, pergunto: a vontade de Deus poderia não ser feita? Diz a Bíblia que “a vontade de Deus é que todos se salvem” e que essa mesma “vontade de Deus é boa, perfeita e agradável”. A questão mais provocadora e que não calará, pois, é: Para você, é bom, perfeito e agradável que a maioria da imagem e semelhança de Deus queime eternamente num espaço de flagelo e dor incessantes?
Não radicalizei, refutando as ideias bíblicas de céu e inferno, mas gostaria que, ao menos, minha frase universalista fosse lida como uma utopia cristã a ser buscada, ainda que utopia. Pode até ser que não aconteça, mas minha vontade também é que todos se salvem.
FELIZ 2010.

liberdade, beleza e Graça...

24 comentários:

Juliana disse...

humm...entendi!
:)
é polemico sim, mas se a pessoa nao observar q a tal frase se refere a uma "utopia cristã a ser buscada". aí vai depender do tamanho da cruz d cada um também, nao é mesmo? se a pessoa se acha taoo digna da salvaçao, certamente negará a alguns q nao considera justo. ao dar-se isso, ela terá d aceitar a Cristo d novo, pois isto nao é açao d convertido, e sim d convencido. :0
rsrsssss
bjss

Rogério disse...

Graça e paz amado
Seu post é para mim como om oásis no meio do deseto. Sonhar com a salavação de todos os seres humanos é algo utopicamente maravilhoso, e aida bem que não se queimam mais "hereges"rsrsrs, caso contrário u teria que ser queimado com você. Temos muito que aprender do amor de Deus e isso é um longo caminho. Na paz daquele que no quer salvar a todos. Rogério Percel Aires

Pedro Vieira disse...

Cleinton,

Parece-me que existe no interessante pensamento teológico exposto por você um "elo perdido", sem o qual se nos apresenta uma aparente contradição: como é possível que "todos se salvem" se existe a figura do "inferno eterno" ou "intransponível"?

Essa equação matemática só tem duas soluções: 1) a aniquilação de pessoas (almas) - teríamos, para isso, que imaginar um Deus muito ruim de projeto, que tenha errado muito mais do que acertado na criação de seus filhos; 2) a migração dos "infernais" para os "salvos" - a custa não de mágica, mas de educação, reflexão, progresso - aqui ressalta a figura de um Deus educador, de um verdadeiro Pai.

Reflitamos sempre.

Cleinton Gael disse...

Olá, grande pedro.
é sempre bom ter seus comentários por aqui, pois eles me edificam e fazem pensar.
quanto às suas duas soluções, além de frisar o caráter "utópico" da minha simpatia pela ideia de Karl Barth, tenho de dizer que a chamada "aniquilação de pessoas (almas (sic))" e a "migração dos infernais" teriam no "universalismo barthiano" uma refutação imediata, visto que a "intransponibilidade" do inferno já não seria uma realidade, já que o amor incomensurável de Deus o faria "destrutível e saqueável".
não é tão simples, confesso, mas acho que uma boa reflexão teológico-filosófica ajuda bem a caminhar em busca de uma resposta para tal imbróglio.
abraço grande, amigo.

liberdade, beleza e Graça...

Felipe Fanuel disse...

Se o pensamento cristão não nos conduzir a um ideal de desejar que todos/as estejam no céu, então, há um grave problema de consonância com o ideal do próprio Jesus de Nazaré — judeu não-exclusivista e símbolo Deus no cristianismo — de acordo com quem na casa do Pai haveria muitas moradas.

O ímpeto por ética na humanidade não pode ser definido pela soberania do mal. Em última instância, quanto mais real for o inferno mais real será a derrocada do bem. O exclusivismo é uma saída egoísta e cruel e revela mais maldade do que amor. Não venham dizer que se trata de Justiça, pois esta trabalha com a possibilidade universal de que todos/as são iguais. Neste caso, é impossível que uns sejam privilegiados em detrimento de outros. Isso é injusto!

Seria melhor que o exclusivismo religioso fosse honesto e se assumisse logo como um movimento excludente, como vários que existiram na história. Essa máscara cristã que confunde e complica tudo.

Um abraço.

Cleinton Gael disse...

É, grande fanuel, como diriam os poetas "seu" jorge e ana carolina, "é isso aí". rsrsrs
abraço, amigo.

liberdade, beleza e Graça...

fabiopereira disse...

Gracias pelo texto que renova esperança e transborda graça.
Abraço!
Fabio Pereira

Anônimo disse...

Cleinton,

Como se diz aqui em Salvador, seu texto está show de bola.

Só não ouso afirmar que será assim porque a Bíblia não me permite tal certeza. Entretanto, tenho também essa utopia e adoraria que no final a cruz de Cristo tenha deixado o inferno vazio. Tomara que essa utopia seja realidade. Entretanto, pelo sim, pelo não, a garantia que a Bíblia nos dá é que os que estão EM CRISTO já "passaram da morte para a vida" e, portanto, não estarão no inferno.Em Cristo é certeza, noutros casos, possibilidade.

Abraço,
Danilo F. Gomes

Maria Teles disse...

Beautiful again Ricardo. Que shock pensar que Hitler poderia nao esta descansando no inferno. Tambem fiquei tonta quando Deus decidiu nao destruir Ninive, como pode um Deus tao perdoador e maravilhoso desse jeito? Eu particularmente nao entendo. Mas... mesmo nao entendendo de nada, eu ia ficar maravilhada de saber que o diabo estaria sozinho no inferno. Seria minha propria vingacan. Maldito sata.(com letra minuscula)

Dashiell disse...

Não podemos nos esquecer de outros atributos de Deus não é mesmo como a justiça.

Ainda mais longe, se todos seriam salvos, de qualquer maneira, pra que Jesus ? Deus vai salvar todos mesmo; o que pode nos levar a pensar pra que a pregação do evangelho ?

Desta maneira, o cristianismo não é a verdade absoluta e qualquer religião leva à salvação.

O universalismo anula o sacrifício de Cristo pelos pecadores que se arrependem e o seguem.

Anônimo disse...

Por que o amor de Deus nao poderia ser capaz de restaurar (em outra era, é claro) até os anjos caídos? Sera que um dia TODAS AS COISAS serao restauradas? TODAS mesmo?

Anônimo disse...

Para uma defesa bíblica profunda da visão universalista recomendo a leitura do livro Hope Beyond Hell: http://www.hopebeyondhell.net/

AnaCris disse...

Cleinton,
Já faz algum tempo que passei a acolher a idéia da universalidade salvífica. No início me assustei diante da idéia, nem desconfiava que não estivesse só. Criei coragem e compartilhei a idéia com alguns amigos próximos. Alguns se fecharam para o diálogo. Outros me disseram que pensavam como eu.
Enfim, não tenho o que acrescentar ao seu texto.
O que quero é lhe perguntar se este "pensamento universalista" em Barth está exposto em um livro específico ou se está presente no conjunto de sua obra. Se ele escreveu algum tomo tratando especificamente desse assunto, gostaria muito que você me indicasse. Embora ache a leitura de Karl Barth muitas vezes indigesta e desnecessariamente cheia de voltas e círculos argumentativos, gosto do que li dele - que, confesso, não foi mais que dois livros e alguns capítulos soltos.
Enfim, aguardo uma indicação.
Obrigada!
Ana Cris

Daniel Guanaes disse...

Olá Cleiton,
primeira vez que entro em seu blog. Parabéns. Opinião minha, o discurso universalista não falha em sua beleza. O anúncio da salvação universal é belo. Minha dificuldade com ele deve-se ao fato de a Bíblia apresentar o inferno não apenas como uma realidade, mas como uma realidade povoada por condenados. Isso não me deixa satisfeito. Penso que afirmar a condenação de seres humanos não significa alegrar-se com ela, necessariamente. Além disso, não entendo o episódio de Jonas como aplicável ao discurso universalista. O problema de Jonas era, como você mencionou, étnico. Não é que ele não entendia a salvação de todas as pessoas, já que ela não é proclamada nas Escrituras. Ele não entendia a salvação de outros povos que não a nação de Israel. O livro do profeta, com isso, não ensina a salvação de todos os homens e mulheres, mas a salvação de homens e mulheres de todos os povos.
Bem, como disse, essa é minha leitura; e feita com muito respeito à sua! Sou sempre a favor do diálogo teológico!
Forte abraço. Voltarei no blog!

Cleinton Gael disse...

caro, ou cara, dashiell.
infelizmente não encontrei seu blog para poder responder à sua questão, mas o faço por aqui mesmo.
gostaria de dizer que não é questão de religião, mas de AMOR DE DEUS. isso suplanta quaisquer conjuntos de valores e "guetos murados".
eu sou cristão, , cara, portanto, acho que o amor de Deus, expresso em Cristo, pode fazer isso. é, como eu disse, uma UTOPIA CRISTÃ, mas não deixa de ser algo em que se pode pensar também.
quanto à questão de justiça como atributo de Deus, essa justiça é como? como justiça humana ou poderíamos pensar na "parábola dos trabalhadores da vinha", onde os que trabalharam uma só hora receberam o mesmo que os que trabalharam o dia inteiro?
por critérios humanos, aquilo foi uma grande injustiça da parte do dono da vinha, não? mas, e em termos de justiça divina, que nem ouso imaginar como é em detalhes?
pensemos sobre.
abraço grande, amigo.
obrigado pela visita.
cleinton.

liberdade, beleza e Graça...

Adico disse...

O que, de fato, é assustador, é a reação emocional que um "inferno vazio" causa nos cristãos evangélicos. É curioso que, para estes, o universalismo provoque uma efeito psicológico tão estranho ao que o Espírito de Deus prometeu produzir no íntimo do cristão (Cf. Gal. 5:22.
Também desejo que todos sejam salvos e que se faça não, a minha mas a vontade de Deus!

BRUNA disse...

Confesso que nunca havia pensado dessa forma 'um inferno vazio', mas é uma idéia maravilhosa ter um inferno vazio poque isso significa a derrota absoluta do diabo. Entendo que para as pessoas seja dificil aceitar essa idéia de não haver ninguém no inferno diante de um mundo com tanta maldade....mas as pessoas as vezes esquecem que a a luta do cristão é contra o mal e não contra a pessoa que comete uma maldade, afinal de contas todos somos pecadores e todos fazemos maldades, dessa forma, quem seria digno de dizer se alguem deve ou não ir ao inferno? Acho que só Jesus mesmo...espero do fundo do meu coração que o inferno seja um lugar vazio!!!
abraço grande

vanessa . disse...

pela primeira vez leio sobre essa utopia cristã, e ao fim tbm compartilho dela ;) (pela minha fé confio em Deus seja o q for q aconteça, me rendendo à Sua graça)

Christian disse...

Meu querido irmão...
Este pensamento leva a parábola da vinha ao extremo: o trabalhador chamado no último minuto pode receber o mesmo salário daquele que chegou no início do trabalho... talvez até o trabalhador chamado após soar o "sinal" do fim do expediente poderia receber salário igual... e essa decisão cabe somente ao Dono da Vinha... e como você também mencionou no texto, a vontade dEle é que todos sejam salvos!

Penso que estes que chegam somente no "final do expediente" também podem receber o mesmo salário, porém sem ter experimentado o prazer de ter trabalhado para o Dono desde o começo... afinal a eternidade já começou para aqueles que ouviram o chamado do Espírito para servir em amor, né? Não é algo apenas depois da "morte"!

Acredito que aqueles que encaram a caminhada com Jesus e o carregar da cruz como um grande "sacrifício" é que sentem mais dificuldade em pensar que pessoas que se esforçaram menos do que eles receberão a mesma recompensa...

Abração!

Alcir Filho disse...

Cleinton,

Muito bom o teu post. De certa maneira, percebo que em paralelo a Teologia da Prosperidade, os modismos neo pentecostais e a ortodoxia roxa, existe uma corrente de pessoas que ousam pensar o cristianismo de modo mais amplo.

Receba meu respeito, e minha oração para que o Santo Espírito te esclareça mais.

A Cristo, a Glória.

moises disse...

E polemico, mas imaginável o seu pensamento... é algo que temos dentro do coração... mas não dentro da mente, quando caimos na realidade lembramos que muito optarão pelo inferno, como hoje já existe (ou melhor como sempre existiu) é o pleno direito deles (garantido pela legislação do governo de um Deus soberano)... cada um pode escolher o seu final, quem dera se podessemos escolher por eles.

Anônimo disse...

Mesmo com o inferno vazio... muitos vão ficar na porta... pedindo para entrar..

AnaCris disse...

Oi, Cleinton. Obrigada pelas dicas! Eu comecei a Ler o comentário de Barth à CARTA AOS ROMANOS, mas esbarrei em um problema que a edição Brasileira tem: existem longos (e muitos) comentários aos comentários e eles estão dispostos de uma forma que é difícil saber onde termina o Barth e onde começa os comentários aos comentários dele. :o(
Mas vou tentar novamente! Mais uma vez, obrigada.

PS: adorei o comentário do Christian logo acima.

Petrus disse...

Sou universalista. E DEUS TAMBÉM. QUANDO JESUS VOLTAR QUEBRARÁ TODO O PODER DO MAL!