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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

"A adoção, a decepção e a morte"

A morte de Steve Jobs, há poucos dias, conseguiu mostrar a maneira como se está construindo - e bem mal, diga-se - notícias nos dias atuais. Foi notória a tentativa de fazer com que Jobs se tornasse em algo que ele, definitivamente, não foi e não é. O fundador da segunda empresa privada mais lucrativa do mundo não é um deus, bem como não tem a relevância que a grande mídia insistiu em tentar criar. Diga-se de passagem - e com todo o respeito à genialidade de Jobs - o dono da Apple, para a grande maioria das pessoas do mundo, tinha quase nada da tal relevância acriticamente criada, já que a maioria das pessoas não sonha, descabeladamente, em ter algum produto da Apple para se sentir fazendo parte do mundo, uma vez que a luta é ainda pelos bens mais básicos para a sobrevivência. À frente da mega loja da Apple em Nova York, no dia seguinte à morte do genial Jobs, apenas jornalistas; o povo, "curiosamente", tinha bem mais o que fazer.
Se o jornalismo que temos hoje está cada vez menos comprometido com os fatos e com a verdade, e muito mais comprometido em criar factoides engendrados por grandes corporações de mídia, ao menos podemos usar o evento da perda de Steve Jobs para crescer com algo do seu legado que supera, e em muito, os seus excelentes ipod´s, iphone´s e ipad´s. O grande legado de Jobs foram os três principais marcos de sua vida e a forma como ele os encarou, ainda que, por vezes, involuntariamente.
Rejeitado por uma mãe jovem, que não tinha condições de criá-lo, Steve Jobs foi adotado por uma família que também não tinha a condição material para criar um menino com dignidade, embora tivesse carinho de sobra. A adoção, que chegou quase a ser desfeita, por conta de a mãe biológica ter descoberto que os pais adotivos também não tinham recursos para levar o menino à universidade, acabou por ser a primeira das melhores coisas que aconteceram na vida de Jobs.
Com todo o esforço da nova família, o menino chegou ao ensino superior, mas, como o mesmo onerava demais o orçamento da casa, o jovem decidiu que não era justo que sua família gastasse as economias de toda uma vida para que ele se formasse. Abandonando a graduação, mas frequentando ainda por uns tempos algumas matérias que realmente lhe interessavam, Jobs alcançou a genialidade que nenhum banco escolar pode dar, uma vez que surge da alma que tem fome de conhecer e não tem medo de ser chamada de boba e até de rir de si mesma.
Se a adoção, ao fim e ao cabo, teve um peso positivo, a grande decepção teve ainda um efeito mais benéfico. Após construir uma empresa que faturava bilhões, Steve Jobs, que não tinha uma personalidade das mais brandas, diga-se, entrou em conflito com alguns acionistas e, pasmem, foi demitido da própria empresa que criou! Se tal decepção tinha força para deprimir qualquer pessoa - e inicialmente o fez a Jobs -, tinha também potência para aguçar ainda mais a fome pelo desconhecido e pela inovação. O dono demitido criou outras empresas, que, compradas ulteriormente pela própria Apple, o colocaram de volta no lugar que lhe era de direito, fazendo com que uma organização que, sem ele, esteve à beira da falência voltasse a figurar na lista das mais lucrativas do mundo.
Abandonos e decepções acontecem o tempo todo em nossas vidas. Já a morte, acontece uma só vez, democratizando e igualando a todos, sem qualquer possibilidade de "jeitinho". Se Steve Jobs conseguiu, como poucos, aproveitar o abandono e a decepção, a morte o fez impotente - tal como o faz a todos -, ainda que bilhões de dólares estivessem ao seu alcance.
Sim, fica o legado da força de vontade e da persistência de um ser humano que revolucionou a forma como as pessoas se comunicam. Todavia, fica também a lição que todos devemos aprender: a vida é frágil demais e Steve Jobs não é deus. Deus não morre.

liberdade, beleza e Graça...

Um comentário:

Liana disse...

As notícias que vi, achei interessante por valorizar os feitos "geniais" de Jobs, não achei que supervalorizaram ele não. Claro que gostaria de ver um especial em homenagem a Darcy Ribeiro, por exemplo. Ah, como valeria a pena! Investir um programa inteiro valorizando os pensamentos e feitos dele. Com relação a grande mídia, é só isso que eles querem: enfiar na cabeça da gente futilidade, uma sobre a outra... Infelizmente, o que foi mais relevante na vida de Jobs, certamente, não ficou gravado na mente da grande massa (até porque nem deve ter tido muita ênfase), o que todos, provavelmente, sabem é que morreu o dono da Apple e só.
Agora, eu viajei nesse título! "Desenhei" um super drama! rsrs.