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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"Paralelos teológicos"

A carta do apóstolo São Paulo aos romanos é, segundo a maioria dos especialistas, o material teológico mais rico do Novo Testamento. É mesmo bastante difícil recusar tal afirmativa, pois o material contido nesta rica epístola é de uma profundidade teológica de fazer calar qualquer teólogo, ou leigo, chegando um doutor em Teologia da PUC-Rio a afirmar que "se Gálatas é o mestrado de Paulo, Romanos, com toda certeza, é o seu doutorado".
Os temas da epístola são riquíssimos e um deles salta aos olhos, já que é forte base para o pensamento cristão; a justificação pela fé, tema que perpassa alguns dos primeiros capítulos. O mais curioso é quando tal tema da justificação foca o tão falado pecado. Ao citar tal conceito, o apóstolo Paulo faz questão de submetê-lo à graça divina, conceito ainda mais difícil de se compreender. Seguindo tal linha de pensar, nosso texto pretende lançar luz sobre alguns versos que fecham o capítulo quinto e abrem o sexto.
Lei, pecado e graça dividem espaço neste pequeno trecho da epístola, onde se encontra o seguinte material: "Sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. Assim como o pecado reinou para a morte, assim também a graça reinaria pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor. Então que diremos? Permaneceremos no pecado, para que haja abundância da graça? De modo algum. Nós, que já morremos ao pecado, como poderíamos ainda viver nele?".
Tal texto é extremamente curioso, pois, não sendo bem lido, dá margens para uma quantidade imensa de interpretações precipitadas, sendo a principal delas a que mostra o pecado como fomentador do recebimento da graça. Assim pensando, quanto mais peco, mais recebo graça e, portanto, mais sou abençoado! É uma possibilidade de leitura, sim, mas é necessário não se apressar na hermenêutica, uma vez que o texto entraria em contradição consigo mesmo, se tal leitura ipsis litteris fosse levada a cabo.
O que prova o que defendemos é o "de modo nenhum" que aparece no final. Assim, é necessário buscar o princípio explicativo para uma atitude de pecar que, quanto mais abundante, mais graça traz ao indivíduo pecador. Nossa proposta, então, não para em Paulo, mas lança mão de contribuição ulterior, nas letras de Santo Agostinho de Hipona.
É de Agostinho, entendemos, a conceituação de pecado que mais "ajuda" Paulo na sua construção teológica. Deste modo, ao conceituar pecado como "um erro do alvo", Agostinho contribui de forma singular para a compreensão do trecho de Romanos que nos é foco de reflexão aqui. Sendo o "errar do alvo", o pecado teria, sim, como ser fomentador do derramamento de mais graça, pois esta seria derramada para o "ajuste da direção da flecha". Deste modo, quando mais erro o alvo, mais a graça divina é derramada, no intuito de que "a mira" do pecador seja mais "afinada", fazendo-o errar cada vez menos.
Ao invés de ser fomentador daquilo que Dietrich Bonhoeffer chama de "graça barata", o pensamento de Paulo seria não um "libera-geral" para boa parte dos cristãos, ávidos por permanecer numa velha natureza distanciada do re-ligare, mas reflexo de um gesto afável de um Deus que conhece os dramas de um ser humano que busca fazer o certo, acertando o alvo, mas que, limitado em si mesmo, não enxerga um palmo à frente do nariz e nem sabe aonde o alvo estabeleceu morada.

liberdade, beleza e Graça...