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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

domingo, 6 de maio de 2012

"Lugares comuns e o fantasma da inutilidade"


A película Lugares comuns, de Adolfo Aristarain (disponível em DVD), é um daqueles filmes que têm tudo para dizer nada, mas que dizem tudo. O argumento central, focado num processo corriqueiro de aposentadoria de um professor já idoso, trabalha algo que o sociólogo Richard Sennett chama de “fantasma da inutilidade”, em sua excelente obra A nova cultura do capitalismo (Record, 2006).
           
Como bom fomentador de debates, função que têm tido muitas das películas argentinas dos últimos anos, o filme de Aristarain mostra o cotidiano de um professor de literatura extremamente hábil em sua função, mas que, por razões mais do que simplesmente de idade, é forçado a deixar seu posto de trabalho, sendo substituído ulteriormente por outro indivíduo.
           
A questão da idade, responsável apresentada pela demissão do professor Fernando Robles (vivido pelo excelente Federico Luppi), é na verdade um pretexto para que oposições de pensamentos sejam excluídas do meio acadêmico argentino no período pós-ditadura. A convicção libertária do professor Fernando, baseada fortemente nos ideais da Revolução Francesa, incomoda o reitor da universidade onde Robles trabalha, gerando o mal-estar que acaba por colocá-lo na rua.

Se o foco fosse apenas o filme, a responsabilidade desta resenha se encerraria no momento em que se expressasse a poesia dos dizeres do professor, bem como quando se focasse a mudança de moradia e de estilo de vida do casal Robles, além das consequências da viagem à Espanha, feita por eles, a fim de visitar um filho que lá vive sob as honrarias de um capitalismo selvagem e darwinista. Porém, a obra de Sennett revela um bom argumento para se pensar a postura do professor aposentado.

Sennett, lançando mão da obra do economista Albert Hirschmann, mostra que os funcionários mais velhos de uma empresa têm menos medo de serem demitidos, uma vez que conhecem bem o “caminho das pedras” dentro do ambiente de trabalho, e, justamente por conta disso, acabam por dar vazão à sua voz de protesto, incomodando fortemente o empregador. Por outro lado, funcionários jovens não reclamam, pois preferem sair e procurar outro lugar, uma vez que não têm conhecimento dos caminhos a serem percorridos antes de conquistarem a tal voz. Fernando Robles conhece bem as estruturas da universidade onde leciona e, aos 67 anos de idade, pouco se importa com as consequências do dar vazão a sentimentos e ideologias que o acompanham há muito.

Assim, o que se vê e ouve é algo que realmente pertence a um indivíduo que aprendeu o que significa a palavra sensatez. Apesar da idade um tanto avançada, um dos focos do filme e do argumento que justifica esta resenha, a obra de Aristarain traz a possibilidade de se manter a lucidez e os ideais, mesmo que o mundo esteja dizendo o oposto, com as suas estruturas “modernas”, viciadas e reacionárias.

À luz das obras de Aristarain e Sennett, então, pode-se perceber que o fantasma da inutilidade não ronda sem que algumas boas respostas lhe sejam dadas. A lucidez de quem vive o que acredita acaba por fazer daquele elemento fantasmagórico um ridicularizado incentivador de uma sociedade homogeneizadora do pensar e do agir. Todavia, o professor, transformado em camponês, não deixou de firmar seus pés em terreno lúcido e provocador de mudanças, ainda que para isso tenha precisado mudar para o campo, fazendo assim uma revolução do pensar naquele que, para os mais pobres e desvalidos, ainda é um lugar bastante comum.

liberdade, beleza e Graça...