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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

"Caminhos da espiritualidade"

O texto bíblico de Gênesis 21:14-21 traz uma das passagens mais tristes do livro sagrado dos cristãos; trata-se do despedimento da escrava Agar e seu filho Ismael. Como mostra o primeiro livro do cânon do Antigo Testamento, Agar era escrava de Abraão e Sara, sendo que esta última era estéril e, portanto, mulher inferiorizada numa sociedade onde a fertilidade e a grande prole, sobretudo de meninos, eram sinônimos de bênção divina. Em tal contexto, era muito normal a escrava ser usada para que o patrão pudesse ter um filho e ser socialmente bem estimado. Agar fora usada para isso e Ismael era o fruto.

Num belo dia, diz o texto, Abraão recebe mensagem teofânica que o tem por agraciado e digno de receber um filho de sua própria esposa, já idosa como ele, que já tinha cem anos de idade. A notícia não é totalmente crida em princípio, visto que a idade de ambos não ajudava. No entanto, a promessa de Javé se cumpre e Sara dá à luz um menino, Isaque. Abraão já não precisava da escrava para ser "mais homem" e o filho dele com Agar, vivendo o que quase todo pré-adolescente vive, caçoando do irmão menor, incomodava à patroa Sara, que pediu que o marido mandasse embora o seu próprio filho e a escrava Agar. Abraão se entristece muito, mas, ouvindo Javé, decide atender ao pedido da esposa, despedindo Agar e Ismael, com apenas um bocado de pão e um odre cheio de água. Mãe e filho pequeno andam errantes pelo deserto de Berseba, caminhando em direção à inevitável morte. O pão acaba, a água acaba.

A condição de mãe faz com que Agar não consiga participar da morte do filho pequeno, o que a impele a deixar o menino, provavelmente dormindo ou desmaiado de fome e sede, debaixo de uma daquelas tristes e secas árvores do deserto. Ao longe, a ex-escrava lamenta a má sorte e provavelmente justifica sua posição de inculpável naquela história toda, já que fora usada e expulsa depois, uma vez que não teria mais tanta "serventia" para os patrões. Ismael, voltando a si e percebendo-se só, chora copiosamente, estando já Agar a chorar e a provavelmente praguejar e lamentar a vida, com toda sorte de aceitáveis justificativas. Javé ouve o menino; ouve o choro de Ismael e ordena que Agar volte para pegá-lo, mostrando em seguida um milagre não percebido: um poço de água surge diante de Agar e seu filho. Água para ambos, forças para caminhar e promessa de que uma grande nação surgiria dali.

Embora o padrão mais aceito de família seja a estrutura pai/mãe/filhos, tal estrutura já não responde aos dramas da sociedade moderna. Já não é raro ver-se famílias onde existe o pai e não a mãe, onde existe a mãe e não o pai, onde existe o casal e não os filhos, onde existem os filhos e não os pais, onde aparecem dois pais, onde aparecem duas mães e até mesmo a chamada família uniparental, onde há apenas um integrante. A estrutura familiar mudou radicalmente com o passar dos anos e a mensagem embasada numa estrutura tradicional está cada vez mais obsoleta para a sociedade contemporânea. É como se as mensagens pregadas sobre a família não dissessem mais respeito a grande parte das casas que por elas são acessadas. Nesta direção de pensar, o texto bíblico aqui citado talvez possa ser fonte de inspiração para muitas mulheres abandonadas com os filhos, por exemplo.

Ao se atentar para o cuidado que Deus dispensa a Agar e Ismael, é possível inferir que a bênção do Senhor também pode estar aonde a estrutura familiar ganhou configuração diferente da tradicional. Não é porque não existe uma das partes da estrutura familiar mais "aceita" que a bênção obrigatoriamente vai faltar a uma família. É possível alcançar os mesmos lugares de uma família "normal", ainda que a configuração familiar seja apenas um pai com os filhos pequenos, uma mãe abandonada com sua prole etc. Apesar de toda desestruturação provocada por Abraão e Sara, Agar chega ao ponto que não é obrigatoriamente alcançado apenas por estruturas familiares "organizadas"; a ex-escrava, depois de secar as lágrimas e perceber o milagre da água, se percebe também detentora de uma bênção que a faz conquistar o mesmo que uma estrutura tradicional busca: consegue formar seu filho (o rapaz se torna flecheiro, profissão muito cara para uma época de grandes guerras) e o casa com uma mulher egípcia. O filho formado, o filho casado e o povo árabe para mostrar que, ao contrário do que muitos pensam, a bênção não respinga só em Israel.

liberdade, beleza e Graça...
   

2 comentários:

Liana disse...

Essa história é realmente triste e bonita, de esperança. Quanto às famílias, muita confusão sobre as novas formações familiares, fico com a frase: Deus sabe mais do que eu...

Cleinton disse...

Pois é, Liana, não sei como faremos para entender e ajudar a essas novas formações familiares, mas sei que elas já são uma realidade muito frequente e que precisam de nossos suportes. Mas fica o texto bíblico, que é lindo e inspirador. Acho que ele já serve como "primeiro motor".