Quem sou eu

Minha foto
Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

"É nóis nos rolé que as mina pira"

Era de se esperar que 2014 fosse mesmo, e já desde o seu início, focado nos dois eventos que marcarão um ano obrigatoriamente "menor do que os outros". Com olhos atentos para a edição brasileira do maior evento de futebol do planeta e para um processo eleitoral que, dentre outros cargos, colocará a Presidência da República em disputa, o ano tinha tudo para ser pautado pelo "imagina durante a Copa" já desde o primeiro dia de janeiro. Todavia, um movimento popular inesperado tomou conta dos debates, acadêmicos ou não, sobre a caminhada de uma sociedade cada vez mais tecnológica; o chamado rolézinho.

Lançando mão de plataformas digitais e das chamadas redes sociais, adolescentes e jovens - em geral das periferias das grandes cidades - decidiram transformar o imenso contingente de amigos virtuais, que todos compartilham com grande orgulho, em uma rede social "real". Para surpresa de todos, no entanto, a migração do ambiente virtual para o real não encontrou uma estrutura social capaz de comportar o montante de pessoas que decidiu compartilhar o mesmo espaço ao mesmo tempo, já que, no mundo real, quase ninguém faz atividades entre amigos em grupos que ultrapassem 10 pessoas.

Não sendo movimento reivindicatório de algo, mas "apenas um encontro para beijar na boca", como querem vários de seus idealizadores, os rolézinhos se transformaram em problema social, já que o ambiente escolhido para tais encontros foi o que a Sociologia e a Geografia Humana chamam de um "não-lugar", isto é, um local que é público, "só que não", e privado, mas aberto, sendo, também, praticamente igual em todos os lugares do mundo, tal como são os aeroportos. Foram escolhidos os shoppings centers.

Muitos são os intelectuais que têm se debruçado sobre o tema, tecendo ilações várias acerca do fenômeno que acabou por ser catapultado - ainda que não se pretendesse isso em princípio - à condição de protagonista em um ano de Copa do Mundo e eleições, sendo que as tentativas de explicação variam muito em suas contribuições argumentativas. Se, todavia, as explicações não encontram consenso, as motivações passam por transformações bem definidas, já que mostram a força que uma multidão de qualquer natureza possui, apesar de quase sempre dela se esquecer.

Focando a contribuição de Pierre Bourdieu sobre o processo de distinção social, é interessante notar a defesa do autor sobre o gosto como marca utilizada pelas classes sociais mais altas para se diferenciarem de outras classes, consideradas pelas elites como inferiores. Acontece, no entanto, que, para além do gosto pelas mesmas marcas, por conta da força da indústria da propaganda, o poder de compra da nova classe média, a chamada "classe C" - a que mais tem gastado em shoppings, é bom lembrar - tem levado um contingente interessante de novos consumidores aos templos máximos do consumo, ainda que o que interessa aos lojistas seja apenas o dinheiro de tal segmento, descartando-lhe a presença e os hábitos, como se isso fosse possível.

Por conta disso, de nada adianta os empresários reivindicarem a construção de "rolezódromos" nas periferias, pois o que os jovens de lá querem é justamente o fim das cidades partidas, é o conforto do ar condicionado, é a assepsia dos não-lugares para as até aqui consideradas "não-pessoas", aquelas que teimam em mostrar que existem. Se incomoda às classes mais altas, pouco importa, pois os participantes dos rolézinhos insistem em mostrar que, para além da possibilidade de comprar as mesmas marcas admiradas pelas elites, ninguém prefere o calor (literal) das periferias, se é possível usufruir do bem estar proporcionado pelo ar refrigerado publicamente privatizado das regiões centrais. Se é verdade que quem gosta de pobreza é intelectual, como dizia Joãozinho Trinta, também é verdade que será sempre impossível separar o dinheiro da nova classe média de seus hábitos. Portanto, é melhor que comece a existir uma boa dose de generosidade para a aceitação e compreensão do significado de "é nóis nos rolé que as mina pira".

liberdade, beleza e Graça...


Um comentário:

Liana disse...

Muito descontraído o texto, assim como a proposta inicial (que eu não sabia que era a que vc descreveu) dos rolezinhos! Mas foi triste ver tanta gente reduzindo o "fenômeno" a vagabundagem, somente...