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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"Caminhos da espiritualidade"

O texto bíblico encontrado no Evangelho de São João, no capítulo 4 e entre os versos 5 e 30, narra a história de uma solitária mulher samaritana e seu encontro com Jesus, que chega pedindo-lhe da água que estava sendo retirada na chamada Fonte de Jacó. Pensando com cabeça de hoje, o texto nada tem a nos dizer, já que não passa daquilo que chamaríamos de "um encontro muito normal e cotidiano".

Acontece, porém, que a época narrada (o primeiro século da era cristã) e a cultura judaica em relação ao povo samaritano - bem como a condição social de então da mulher - nos obriga a olhar o texto com olhos mais atentos e com uma abertura exegético-hermenêutica que acaba por mostrar a potência de um encontro com Jesus muito mais pelo caráter social que tal encontro pode proporcionar do que por uma possível atitude miraculosa e adivinhadora. 

Atentando, pois, para os detalhes do texto, vemos que se tratava da chamada hora sexta, isto é, meio dia, e em um Oriente Médio extremamente quente. Isto posto, podemos perceber a primeira questão social envolvendo a mulher que resolvera buscar água; o horário era bastante adverso e a tal samaritana estava sozinha, o que não era comum em se tratando de tal tarefa doméstica, já que a tradição mostrava mulheres sempre em grupos buscando água nas fontes existentes. 

A razão da solidão da mulher, como muitos já inferiram, pode estar ligada à sua condição de "mulher largada", já que a mesma morava com um homem sem estar com ele casada e estava separada de outros cinco maridos oficiais que tivera. Assim, nada mais comum para a época do que não acompanhar mulher com um histórico "tão negativo", o que a fazia buscar água sozinha no pior horário possível, que era quando nenhuma outra mulher desejava fazê-lo.

Solicitada a compartilhar de sua água com o forasteiro que chegara, a mulher estranhou que um judeu se aproximasse sozinho de uma mulher, samaritana, e ainda lhe pedisse um favor. Primeiro por uma questão de gênero, já que não era comum uma mulher ficar "de papo" com um homem que não fosse seu marido, ainda mais sendo este homem um judeu, povo que não se dava bem com os samaritanos. Segundo, porque, ao fazer o pedido, Jesus, quebrando as assimetrias sociais da época, conversou a sós com uma mulher, largada de cinco maridos, amasiada de um homem com o qual não tinha se casado e, ainda por cima, de etnia chamada de "cão" pela maioria dos judeus.

Embora tenha conversado e citado várias coisas sobre a vida pregressa da mulher, o que poderia ser entendido como uma grande adivinhação, encantando e surpreendendo a audição daquela samaritana, o que mais chama a atenção no texto é o empoderamento que tal encontro proporciona àquela mulher, uma vez que o fato de Jesus ter ignorado todas as assimetrias e regras sociais para dar atenção à samaritana fez com que ela também passasse a ignorar tais assimetrias, correndo à cidade e contando sobre Jesus a pessoas que jamais lhe dariam crédito, dada a sua condição social, aqui já citada.

Assim, creio que o que deve chamar mais atenção no texto não é o fato de Jesus ter adivinhado o passado da mulher, mas a motivação e o empoderamento social que nela ele gerou, ignorando e fazendo-a também ignorar tudo aquilo que era caro e socialmente estabelecido por todos e para todos, a saber, as assimetrias sociais rígidas e geradoras de desigualdades imensas, sobretudo de gênero.

Movida por um gesto impensável da parte de um judeu, a samaritana adentra a cidade, conquista a audiência de homens que jamais a ouviriam, ganha crédito para suas palavras, antes totalmente desacreditadas, e convence a todos a terem também um encontro com aquele que ela agora reconhecia como Messias e Cristo, o que também nos deve inspirar a buscar Jesus, mas sem pensar em curas miraculosas para próprio corpo e para a própria vida, mas, muito mais importante do que isso, cura para uma sociedade machista, racista e classista, que há muito faliu.

liberdade, beleza e Graça...


Um comentário:

Liana Santos disse...

Lindo demais. Escreve mais caminhos de espiritualidade. Precisamos de leituras - e práticas - assim.