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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

"Ao meu querido João Vitor Sacconi Guarnier"

Querido João, boa noite.
Estou vivendo um momento ruim, meio desanimado, e não tenho tido muita vontade de escrever. Por conta disso, o blog está sem texto novo há meses, como você mesmo pode conferir, sendo que já tenho vários alunos e outros amigos me cobrando o tempo todo. Cara, eu jamais gostaria de voltar a escrever por causa de você. Pelo menos não da forma como escrevo agora, pela motivação que me move agora. 

Recebi a notícia de que você foi embora, João. Pensei: "poxa, como é que um aluno excelente como o Sacconi, de repente, decide ir embora?! O cara consegue ficar com 82 em Sociologia e vai embora, sendo que era pra vibrar e zoar a minha cara de professor linha-dura!". Confesso que não entendi sua partida, João. E nossos papos, cara?! E suas provocações a mim, querendo me demover da ideia de ainda acreditar que a esquerda brasileira poderá ter um grande projeto de inclusão social e diminuição da desigualdade? Na boa, não era pra você ter ido embora assim, cara! Não sem a gente ver junto essa desigualdade criminosa acabar, ou assistirmos juntos à derrocada de um pensamento que poderia transformar o mundo num lugar melhor para todos, o que te daria razão no nosso debate.

Bem, João, você ainda não me explicou a razão. Tá bom, dessa vez não precisa explicar conceitualmente, ok? Pode usar suas palavras, sem ter qualquer outro autor como referência. Afinal, nem Marx, nem Durkheim, nem Weber (ih, esqueci de te ensinar Weber, cara!) poderiam ser mais importantes do que as suas próprias percepções e justificativas agora. Sim, eu quero mesmo é te ouvir. Fale de suas motivações e explique a razão de ter partido tão jovem. É só isso que te cobro agora. Ah, não vale nota, tá  bom? Nem ponto extra, assim como sempre aconteceu com nossos papos e debates! 

Ah, já sei. Você vai me dizer que foi chamado, chamado para uma outra esfera, uma esfera espiritual. Vai querer convencer a mim, um sociólogo de esquerda, de que está no céu, com Deus? É isso, João? Bem, como você também me provocava, vai aqui a mesma frase que você usava contra mim, nos nossos debates políticos: "apresente seus argumentos e me convença!". O que você tem a dizer sobre si que me provaria que você está no céu, João Vitor? (...) Ah, não quer falar... Tudo bem, vou ver seu currículo aqui, tá bom? Dá um tempo aí... segura a onda aí...

Deixe-me ver... Excelente filho, super atento aos pais, à irmã, à avó. Aluno dedicado, ops, aluno, não; estudante, pois aluno significa "sem luz", e isso você nunca foi. Corrigido já: excelente estudante! Amigo de todos. Zoeira de todos. Sim, todo mundo gostava de te zoar, cara! Acho que pela altura, pelo jeitão de criança com tamanho de homem de basquete. Cheguei a pedir pra pararem de te zoar, mas não adiantou. Depois que você me disse que não ligava, passei a não ligar também. Vi que você gostava que os meninos zoassem, pois isso era um motivo para a amizade de vocês. Nunca foi motivo de briga, como eu pude conferir nos ensaios de "Sonho de uma noite de verão", onde eu, formado em Artes Cênicas, e com certo conhecimento de causa, te daria as mesmas 6 moedas que o rei Teseu/Israel ofereceria mais tarde ao Píramo representado pelo querido Fundilhos/Yago, nossos colegas de sala. 

O tempo foi muito curto, João, mas você foi mágico aqui. Sua passagem pela terra significou mais uma daquelas trajetórias que inspiram. Não porque se tornou um grande engenheiro, já que foi chamado antes até mesmo de concluir o curso técnico, mas porque a terra precisa de gente mansa como você. A humanidade precisa de gente humilde como você, João. A terra está ficando uma bosta sem pessoas assim, cara. E o duro é que essas pessoas vão cedo. Cedo demais, meu amigo. Tem até uma canção da Legião Urbana que fala disso. Diz o Renato Russo que "os bons morrem jovens, vão cedo demais...". 

Vai ajeitando as coisas por aí, João. Vai fazendo amizades por aí, pois daqui a pouco a gente chega. Sim, teremos outras peças, cara! Ou você acha que ficaremos só no "Sonho..."?! Ah, vou conversar com a Adriana e na próxima já te daremos um papel maior, tá bom? Se bem que você não liga pra papel maior; você só quer estar junto. Mesmo zoado, você quer é estar perto. Quer fazer parte. Quer agregar. Você vai fazer uma falta imensa aqui, menino. Ah, eu não fico falando isso sempre, pois tenho dificuldades com a sentença, mas, já que é a minha última carta pra ti, saiba de algo que vem do fundo do meu coração, João: eu amo você, moleque. Que Deus te receba com um grande abraço; abraço que não poderei te dar mais, pelo menos até Aquele Dia. Fique em paz!
Seu professor,
Cleinton.

liberdade, beleza e Graça... 

(João Vitor Sacconi Guarnier, 17 anos de idade, um dos meus melhores estudantes, faleceu hoje em um acidente de automóvel).

10 comentários:

Anônimo disse...

Eu e o João sempre fazíamos os trabalhos em dupla juntos, quando tínhamos trabalhos a fazer sempre ficávamos de tarde na escola usando o laboratório de informática ou os tornos. O João, como ele bem dizia, sempre gostava de deixar as peças que ele fazia "lisinhas". Nós, apesar de todas as nossas dificuldades, gostávamos muito dele, porque nos momentos mais difíceis pelos quais passávamos ele sempre dizia algo que colocava logo um sorriso na cara de todos. A busca dele por excelência no que fazia era de se admirar, e em todos os trabalhos que fizemos juntos podia perceber isso. O João nunca foi arrogante e a humildade e felicidade dele eram as características que mais me inspiravam. Ainda me lembro bem da primeira vez que o vi, parecia tão sério e focado e me fazia querer ser tão bom quanto ele, quando ainda estudávamos no curso preparatório pré-ifes, as notas dele nos simulados, sempre no topo. Que você vá em paz João, minha vida e a de todos nós nunca mais vai ser a mesma sem você.

Seu amigo, Gabriel Greis.

Liana Santos disse...

Sim, foi embora cedo demais... Muito triste.

Abraão Filipe disse...

Muito lindas suas palavras, professor! Pude conhecê-lo muito antes de entrar no Ifes e o vejo exatamente da forma como descreveu: um menino gigante e de personalidade única. Descanse em paz, João!

Abraão Filipe Marques de Oliveira

Adriana disse...

Sabe, Cleinton, concordo com você: o João nunca quis ou precisou de um papel maior, pois ele sempre foi protagonista da nossa realidade, da própria vida, com sua alegria e bom humor, disposto a aprender, centrado nos estudos e na beleza do ato de conhecer.

João, eu não vou lhe dizer adeus, mas até mais, pois você sempre estará presente em nossas vidas. As pessoas que irradiam bondade são como os astros de luz própria: mesmo distantes, sempre brilham e chegam até nós.

"Ismália" é um belíssimo poema de Alphonsus de Guimaraens, poeta do Simbolismo brasileiro. Nesse texto, conta o eu-lírico que Ismália ruflou suas asas porque "queria a lua do céu/queria a lua do mar". Foi a Thávyla quem primeiro me falou de seu voo e confesso que ainda estou muito, mas muito triste, pois eu gostaria que você continuasse naquela primeira fila, à minha esquerda, sempre com um olhar atento, ávido de conhecimento. Todavia, foi então que me lembrei desse poema... E numa tentativa de entender esse voo tão abrupto, antes mesmo que a própria aurora se manifestasse, penso que talvez seja pela grandeza da sua alma, capaz de conseguir conciliar a lua do céu e a lua do mar.

Você sempre estará em nossos corações.

Até mais!

Anônimo disse...

Há certas coisas que prefiro não perguntar a Deus, pois sei que não vou entendê-las, mesmo que Ele me explique do jeito mais manso e inteligente. Acontecimentos assim nos fazem refletir de como a vida é breve e que as oportunidade são únicas. O João, como citado no testo do professor Cleinton, era um grande rapaz (literalmente), mas com coração de menino. Sempre muito alegre, bondoso, simples, tirado e também muito zoado, mas era o João, ou como ele mesmo se intitulou a mim "o Willian Bonner do IFES", em decorrência dos seus cabelos cabelos grisalhos e lindos.
Meus sinceros pêsames.
Que Deus o receba, João. Você vai fazer falta.

Regia disse...

Olá meu amigo Cleiton!! Que momento triste! E quanta admiração e amor em suas palavras referindo-se a um estudante que alegrava e palpitava sua vida de Professor!! Não conhecia o João, mas sua carta não deixa nada oculto sobre quem ele era e o que realmente interessa em um Ser humano!! Meus sentimentos a você, colegas e familiares desse jovem que se foi! Obrigada por compartilhar histórias como essa comigo. Grande abraço e saudades de nossos humildes papos!! Deus te Abençoe. Regia

Anônimo disse...

Tocante as palavras do professor, que conseguiu transmitir em palavras uma avalanche de sentimentos,perguntas,dor,tristeza,sensação de vazio...#UMAPARTIDASEMRESPOSTA

Jacqueline Brunoro disse...

Que lindo texto,professor Cleiton!
Sou professora tambéme compreendo seu sentimeno.
Em sua carta você pode comprovar o que dizem que fica muito do nosso jeito de falar,agir em nossos alunos,que nossas teorias e conceitos.
Os laços fraternos que marcam um professor na vida de um aluno.
E pelo jeito também ficou muito do João em você.Isso nos enche de orgulho.

João henrique mala disse...

Cleiton , como sua ex professora no Polivalente, fico feliz em saber q também optou pela docência, e não puramente para ensinar, mas também para aprender sobre a vida , comungando das experiências de seus estudantes , como no caso do saudoso e querido João Vitor.
Que bom que foi construída uma amizade , melhor ainda a sua sensibilidade em exaltação a esse sentimento tão nobre. As boas lembranças ficam...
Grande abraço
Alessandra Malacarne

Flavia Barcellos disse...

Que linda homenagem. Triste despedida!