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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

"As ideias de uma época são as ideias de sua classe dominante"

O momento político vivido pelo Brasil traz material para uma rica reflexão sobre a teoria sociológica de Karl Marx e Friedrich Engels. Ao abordarem o termo ideologia, buscando com isso uma análise sobre a chamada luta de classes, os autores nos colocam diante de um elemento que ainda se encontra com muita força no atual momento político brasileiro, já que é sintetizado na tentativa de um pequeno grupo em transformar suas ideias em algo universal, sendo que as mesmas não passam de algo particular, temporal e bastante localizado.

Como é sabido, as eleições presidenciais de 2014 ainda não terminaram. Isso porque os palanques teimaram em ficar montados, o que propiciou o impeachment de Dilma Rousseff  e gera consequências para o governo de Michel Temer, também muito ameaçado de não concluir seu mandato, e aproximando-se de Dilma na capacidade de fornecer material para manifestações públicas de vozes contrárias ao que vem sendo praticado pelo governo e pela classe política que o sustenta.

O curioso disso tudo é que o tema que derrubou Dilma, pelo menos para a grande maioria dos que acessaram as ruas com gritos para destituí-la, era a corrupção. Todavia, ao baterem panelas pela saída da presidente, tendo como motivação maior a mazela social que mais tem incomodado os brasileiros nos últimos anos, grande parte da população foi feita de massa de manobra para referendar uma luta de classes, ideia tão bem trabalhada por Karl Marx. Afinal, a presença do pato amarelo e do slogan "não vou pagar o pato" não diziam respeito à população como um todo, mas apenas à classe empresarial, defendida pela FIESP, fomentadora do movimento anti-Dilma e financiadora dos bonecos infláveis que tomaram a Avenida Paulista, em São Paulo.

Assim, pensando estar lutando contra a corrupção e pela diminuição da carga tributária sobre todos, as pessoas que acessaram a avenida mais conhecida de São Paulo nada mais fizeram do que lutar contra seus próprios direitos trabalhistas e previdenciários, comprando para si um discurso que era do empresariado abastado daquela e das demais cidades brasileiras e, ao mesmo tempo, fazendo com que um discurso que era de uma pequena e privilegiada classe se transformasse em um pleito universal, o que não passou de uma falácia, como agora se pode ver.

O que se vê, pois, é que a chamada ideologia, a capacidade de transformar em universal uma ideia particular, temporal e muito localizada, acabou por funcionar com grande força, fazendo com que pessoas fossem às ruas lutar contra si mesmas, já que a corrupção é mais evidente e provada sob Temer do que era sob Dilma, assim como a carga tributária só se mostrará vantajosa e menor para a classe empresarial, talvez a única que não esteve presente na Paulista, ainda que fosse a maior interessada no que lá acontecia, já que a tudo financiou. 

Passado o momento inflamado dos atos acima citados, cabe saber agora se teremos a mesma força para tomar as ruas e exigir que a corrupção mais do que provada no governo atual seja enfrentada com a mesma paixão usada para derrubar a ex-presidente. Caberá também analisar da grande mídia o posicionamento que esta terá sobre os temas corrupção e eleições diretas, já que a mesma tem em mãos elementos que, se estivessem presentes como prova contra Dilma Rousseff ou Lula, não apenas destituiriam a primeira, como também enterrariam para sempre as ambições políticas do segundo, bem como as do Partido dos Trabalhadores. 

Acontece, porém, que a descrença na classe política, bem como na sua própria força de luta, poderá fazer com que o povo desista de ir às ruas como outrora, já que uma retórica reacionária poderá tomar conta de um povo que, ludibriado pelo mísero crescimento econômico e pelo nível de emprego que começa a melhorar - o que é normal, pois toda crise tem hora para acabar, já que é cíclica no capitalismo, como sempre se pôde perceber -, se colocará mais uma vez na posição de "pagar o pato". O problema é que o povo vai, sim, pagar, mas o empresariado é que vai, como sempre na história desse país, "comer o pato".

liberdade, beleza e Graça... 



Um comentário:

Liana Santos disse...

Texto perfeito! Por agora, creio que não haverá grandes manifestações. 2018 promete...