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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

"Quando a diferenciação entre nós e eles é fundamental"

O momento político brasileiro é extremamente delicado e a falta de informação - ou a informação enviesada, aquela que não se transmuta em conhecimento - faz com que a situação obrigatoriamente nos remeta, mais uma vez, às ideias sociológicas de Karl Marx. Como é sabido, as teses marxianas nos alocam em um sistema onde a desigualdade faz parte do funcionamento da sociedade e a luta entre classes se estabelece com bastante evidência, visto ser essa a base do capitalismo de mercado. 

Por mais que percebamos a necessidade de se acessar a teoria de Marx para entendermos melhor o momento brasileiro, não são poucos os que o entendem como um autor obsoleto e ultrapassado, já que suas ideias "não estariam mais dando conta de explicar o que acontece no mundo capitalista de agora". Por mais que esteja distante de nossos dias, porém, é indiscutível o valor da obra de Marx para a compreensão do que agora vivemos, já que poucas vezes se viu com tanta clareza a luta de classes estabelecida em nosso país.

Se tal luta não está sendo tão percebida pela maioria, é porque Karl Marx realmente tinha razão ao afirmar que a classe dominante faz de tudo para que suas ideias sejam entendidas como as ideias de todos, isto é, algo que indiscutivelmente "é o que o povo quer". Assim, pensar em temas como as reformas trabalhista e da previdência requer colocar em lados opostos dois grupos, uma vez que, ao fim e ao cabo, os dois não querem as mesmas coisas, já que os capitalistas só se satisfazem se o proletariado, os trabalhadores, cederem em seus direitos, o que já está acontecendo, embora não seja por vontade do povo, mas por um discurso que "prova" que "sem tais reformas, em pouco tempo o país não pagará mais as aposentadorias dos trabalhadores".

O que poucos sabem, porém, é que a quebradeira do Brasil tem nome e data. Sim, todos precisam saber que a previdência social no Brasil era superavitária até o início do segundo governo de Dilma Rousseff. Naquela que pode ser chamada literalmente de "uma jogada de classe", o empresariado solicitou a desoneração da folha de pagamento, com a promessa de que, se o governo desonerasse a folha, teria como resposta um empresariado que aumentaria o emprego no país, chegando o Brasil ao nível de pleno emprego, experimentado antes, mas sem a desoneração, no governo Lula.

Acontece, todavia, que veio a desoneração, mas os empresários, como sempre no sistema capitalista, não cumpriram a sua parte e, mesmo tendo as taxas previdenciárias caindo de 2,5% da arrecadação para entre 1% e 1,5% da receita bruta da empresa, não criaram as prometidas vagas em suas fileiras, o que fez com que o país perdesse em arrecadação, além de não ter a contrapartida em empregos, o que tinha sido previamente acordado com a presidente Dilma, logo depois deposta. 

No final da contas, o rombo nas contas públicas veio e a resposta acabou sendo, não a reoneração da folha, mas uma reforma que isenta o empresariado de pagar suas dívidas com a previdência, ficando para os trabalhadores - numa flagrante perda, condenada até pela Organização Internacional do Trabalho - o pagamento da fatura de uma confiança que Dilma Rousseff acreditou que poderia ter no empresariado brasileiro. É importante dizer também que, se o grande empresariado pagasse o que deve ao governo, nenhuma reforma condenatória às famílias menos favorecidas seria necessária, voltando o país a ter a mesma situação superavitária da era Lula. 

Mas eles não querem pagar. Eles não vão pagar. Assim, não adianta falar em "união do país", pois nós trabalhadores queremos uma coisa, desejando o empresariado exatamente o contrário. Portanto, não estamos e não podemos estar do mesmo lado, visto que queremos o oposto. Como bem disse Marx, então, nos manteremos em luta, já que, independentemente de gostarem ou não das teses daquele autor, as coisas continuarão a ser entre "nós e eles". 

liberdade, beleza e Graça...
    


3 comentários:

Abraão Filipe disse...

A luta de classes, sem dúvidas, ainda é o motor da história... Um forte abraço, professor!

Liana Santos disse...

Adorei. Não sei que Brasil é esse que faz questão de enrolar a corda no pescoço... Não é o que eu quero.

Anônimo disse...

O twitter precisa de você. E eu gostaria de acompanhar suas falas curtas naquele espaço. Abraço.