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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

"A Capitu de Luiz Fernando Carvalho"

Tinha tudo para ser a obra do ano em termos de teledramaturgia. Tudo parecia impagável e extremamente inovador. A leitura de tão imponente obra machadiana merecia mesmo essa enorme dose de ousadia cênica. A minissérie dirigida por Luiz Fernando Carvalho beirou a perfeição, não chegando lá apenas por pecados muito ínfimos; pequenos momentos de infelicidade para um maravilhoso achado televisivo.
Os pontos positivos felizmente foram em maior número, o que é mesmo muito bom. A aposta em Michel Melamed foi o primeiro grande acerto. A capacidade ímpar de olhar nos olhos – coisa que Melamed sempre fez com maestria em seu programa na Tevê Educativa – fez desse artista uma das escolhas mais acertadas dessa produção de elenco. Melamed conseguiu ser chapliniano e machadiano ao mesmo tempo. O corpo, a voz e o expressionismo impostos pelo ator catapultaram a narração de Dom Casmurro à condição de antológica. A interpretação de Melamed só foi superada pelo brilhantismo de Antonio Karnewale que, na pele do mordomo José Dias, mostrou que existem atores que a mídia ainda não conseguirá pagar. O trabalho de Karnewale dispensa comentários, pois os adjetivos certamente faltariam. Simplesmente perfeito; disparado, o melhor presente que a minissérie Capitu nos trouxe. O trabalho de Eliane Giardini, embora muito naturalista e até "novelístico", não comprometeu o resultado final, ficando com a nota “deu pro gasto”. Fernanda Persiles, a estreante que teve a dura tarefa de interpretar a meninice de Capitolina, conseguiu passar a segurança necessária pedida pelo papel, sendo meiga e dissimulada, como exigia o texto de Machado de Assis. Não seria maldade dizer que a estreante não conseguiu ser ao menos equiparada pela atuação bastante fraca de Maria Fernanda Cândido, substituta na fase adulta da musa do bruxo do Cosme Velho. A escolha do Escobar, por outro lado, também foi um tiro certeiro, pois Pierre Bartelli conseguiu fazer o mistério do adultério ficar ainda sem qualquer solução, vivendo um misto de anjo e demônio, numa interpretação magistral. A interpretação da meninice de Bentinho não passou também do “dá para o gasto”, sem tampouco comprometer o resultado final da obra de Carvalho.
O restante do elenco, a direção de arte, o figurino, a cenografia e a música-tema de Bentinho e Capitu simplesmente embasbacaram a iniciados e a leigos. Mas o pecado, infelizmente, ainda persegue a obra de arte tupiniquim.
Depois de apostar com muita felicidade em uma espécie de ópera-rock expressionista, num cenário lúdico, que transportava o telespectador diretamente ao universo machadiano; depois de abusar da inovação, com sombras, luzes e um mar cenográfico de fazer inveja às mais caras produções estadunidenses, Luiz Fernando Carvalho “naturalizou o inaturalizável”. Não se sabe o porquê, mas a direção optou por mostrar no penúltimo capítulo um Rio de Janeiro contemporâneo, gratuitamente permeado pela música de Marcelo D2. Resolveu também “inovar” colocando headfone nos ouvidos das personagens em danças de dois séculos atrás. Menos absurdo, mas também desnecessário, foi o telefone celular colocado em cena – o que, porém, não comprometeu tanto, visto que foi nas mãos de um narrador que se quer atemporal. Se essa “naturalização” fosse minimamente cabível, seria sinal claro de que a construção da personagem Prima Justina, feita pela excelente Rita Elmôr, estaria fora do lugar, o que não aconteceu em momento algum.
Com tudo o que foi dito em elogios, essa crítica não merecia ter o parágrafo anterior. Pela beleza e sensibilidade apresentadas por Carvalho em todos os capítulos, tais “delitos” se fizeram demasiado dispensáveis. Não precisava.

liberdade, beleza e Graça...

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