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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

“Weber e a militarização da sociedade civil”

Uma das maiores contribuições de Max Weber à Sociologia diz respeito à análise da militarização da sociedade civil, feita por ele quando da unificação da Alemanha, no final do século XIX. Percebendo a eficiência do exército prussiano – que fora considerado superior aos exércitos francês e britânico em termos de coesão – Weber percebe uma lógica mais rigorosa nas obrigações de cada patente na cadeia de comando.
Esse modelo eficiente de gestão passa a permear a lógica das empresas e instituições da sociedade civil alemã, gerando – em nome da paz, segundo Bismarck – uma sociedade pronta para viver sem grandes conflitos e prevenindo-se da revolução.
A tal lógica militar tinha tudo para ser considerada “dura demais”, porém, Weber notou que ao perceberem que ocupavam uma posição clara e bem estabelecida na sociedade, dificilmente os trabalhadores se propunham a se revoltar contra o sistema e contra os donos do poder. Como num campo de batalha, esses “soldados” têm de obedecer mesmo sabendo que vão morrer. O pacto social, tal como no exército, tem de ser absoluto. Às vezes, o superior não tem razão, mas tem de ser obedecido. É a lógica.
O sociólogo Joseph Schumpeter defendeu que esse modelo militarizado dava mesmo lucro, pois cedeu lugar para que os investidores passassem a trabalhar com resultados mais previsíveis em longo prazo, já que não contariam com nenhuma grande insurreição da parte dos trabalhadores. O lucro não ficou para segundo plano, mas cedeu lugar a um cálculo prospectivo, muito mais lógico em um momento de investimentos em infraestrutura como a construção de ferrovias e de sistemas de transporte urbano.
É claro que podemos pensar “mas onde entra o trabalhador corroborando essa lógica?”. Não é tão difícil aceitar isso, visto que a busca de sindicatos e associações de trabalhadores era a estabilidade dos empregos, garantindo a posição dos trabalhadores.
Segundo a análise do sociólogo Richard Sennett, acerca da percepção de Weber; “O trabalhador passa a perceber sua vida como uma narrativa. Tornou-se possível definir como deveriam ser as etapas de uma carreira, relacionando um longo percurso de prestação de serviços numa empresa a passos específicos de acumulação de riquezas”. Enfim, muitos trabalhadores braçais eram então capazes de planejar a construção de suas casas, por exemplo. Em uma análise em economia política, então, Weber sustentava que o exército constitui um modelo mais lógico da modernidade que o próprio mercado!
A busca desenfreada de um emprego público – que fez surgir uma bolha de cursinhos preparatórios extremamente lucrativos em todo o país –, intentando estabilidade e manutenção de uma posição é um sintoma dessa lógica militar. A seguir-se esse modelo, continuaremos a ter uma sociedade militarizada e com indivíduos mais preocupados em manter seu posto e as ordens recebidas, sem nenhuma contestação ao estado de coisas imposto. Instituiremos o primado da voz sem vez. Seremos a “sociedade militarizada da paz”. Só que da paz sem voz. Mas paz sem voz não é paz, é medo.

liberdade, beleza e Graça...

Um comentário:

Talita disse...

Uau! Esse ficou show, hein!!!
Adoro essas análises críticas do "modus operandi" da sociedade, porque são extremamente construtivas.
Além do conteúdo, seu texto ficou muito bem estruturado! Vou aumentar minha frequencia de visitas! rsrsrsrrs