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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Filosofia do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

terça-feira, 14 de abril de 2009

“O novo império de Adriano na favela”

É difícil entender como uma pessoa que alcançou tudo na vida, morando em Milão e tendo todo o dinheiro e vantagens que um europeu bem sucedido possui, poderia trocar tudo isso por uma vida simples, andando de bermuda e descalço numa favela carioca.
Parece não ter a menor coerência a decisão do jogador de futebol Adriano, ídolo da Inter de Milão e da seleção brasileira, de “parar por tempo indeterminado”, por pura falta de motivação e por estar vivendo uma vida que não é a sua. Na cabeça de todos os que somos frutos de uma sociedade capitalista, que preza mais pelo ter do que pelo ser, isso é “coisa de maluco”. Todavia, não é tanta maluquice assim o que o jovem jogador apregoa para si.
O francês Émile Durkheim, um dos pais da Sociologia, cunhou o conceito de anomia. Anomia é o estado em que uma pessoa fica quando dos momentos de perda de referenciais; perda das regras sociais que o faziam sentir-se pertencente a um determinado grupo, concordando com este em suas práticas sociais. A anomia é, pensando na etimologia da palavra, a falta do nomos – palavra grega que pode ser traduzida por normas, regras, referências – uma vez que a partícula “a”, que vem jungida no início, tem a função de expressar negação. O indivíduo anômico é aquele que perdeu tais referenciais, portanto. Isso não é raro de acontecer com crianças, quando dos momentos de separação conjugal dos pais, por exemplo.
Adriano disse que saiu muito cedo do Brasil. Foi “retirado”, pois, daquilo que fazia sentido para ele. Foi “separado” de um grupo com o qual concordava desde sempre e enviado a um país onde a visão de mundo é completamente diferente. Entrou em contato com o estranho.
Perder “de forma proposital” tudo o que conquistou, em termos materiais, seria para muitos, um “suicídio econômico” da parte do jovem e ainda promissor jogador, e foi justamente numa obra chamada O suicídio que Durkheim conceituou estados psíquicos parecidos com esse que agora estamos tentando pensar.
Lançando mão de recursos estatísticos, o sociólogo francês percebeu que a taxa de suicídios na Europa do século XIX era muito maior entre pessoas solteiras, protestantes e não pertencentes a um grupo social determinado por regras fortes. Assim, chegou à conclusão de que a igreja católica romana, por ter regras bem determinadas de controle social, fazia com que o sentimento de pertença fosse mais forte do que no movimento protestante daquele momento, onde se apregoava justamente uma liberdade absoluta em relação ao antigo e dominador clero da cúria romana. O vínculo, ou a falta dele, em outras instituições sociais como a família, o serviço militar ou os clubes sociais de interesse também foram pensados como detentores de uma capacidade de gerar ou não anomia nos indivíduos.
Voltando à atitude do jogador, que é nosso objeto de análise, podemos pensar que o “suicídio” de Adriano – o econômico, claro, pois ele está, graças a Deus, vivo – nada mais faz do que corroborar a tese de Durkheim, uma vez que o jogador diz que “perdeu todas as certezas que tinha na vida”. Segundo suas próprias palavras: “a única certeza que sobra é a de que não deixarei de estar todos os dias na favela, andando de bermudas e soltando pipas descalço”.
Adriano é solteiro, pelo que consta não faz parte de nenhum grupo religioso ou clube social de interesse, acaba de perder um relacionamento no qual estava emocionalmente muito envolvido e tinha como único grupo social um clube num país distante e com pessoas de cosmovisão completamente diferente dos sonhos de um menino apaixonado por pipas e bailes funk de favelas. O argumento de Durkheim, portanto, se justifica e ajuda a explicar o evento.
E é por isso que não se deve ficar indignado, mas, ao contrário, respeitar atitudes como a do jogador brasileiro. Mais do que nunca, é hora de dizer, e sem demagogia: viva Durkheim e viva Adriano, o imperador da favela da Vila Cruzeiro!

liberdade, beleza e Graça...

6 comentários:

Bruno disse...

Cleiton,
o artigo é muito bom. Leitura envolvente, onde o conceito do Durkheim é muito bem utilizado. Só não consigo ver até que ponto esta decisão do Imperador se configurou pautada em uma decisão pessoal que represente uma opção de vida, ou se existem (muito) mais coisas implícitas nesta decisão e que estão sendo escondidas pelos grandes veículos de comunicação.
No mais, tomara que o Imperdador seja feliz soltando pipas e andando de chinelos na favela. Espero que seja só isso!
Saudações

BRUNA disse...

Parabéns pelo texto!!! Fez uma ótima relação entre um conceito teórico com um fato real e concreto. Seu texto reflete a sua formação como sociólogo, mas acima disso reflete o amor e a paixão que você tem pela área profissional que você escolheu pra sua vida, e como sempre, pelas coisas que você escreve também!!!
Continue com essa dedicação com o seu trabalho e com as coisas que você acredita porque quando fazemos o que gostamos de forma apaixonada e dedicada acabamos envolvendo com facilidade outras pessoas nisso!!! Grande abraço =]

Felipe Fanuel disse...

Aquilo que faz sentido para a vida das pessoas é algo íntimo e pessoal. Eu diria que somente o Amor pode servir como conexão última entre o que é significativo para cada um de nós. É o Amor que nos livra das tentações autodestrutivas. Todos nós estamos debaixo deste guarda-chuva ético. E a falta de sentido só nos ameaça quando amar é apenas tema de canções.

juliana disse...

É,
realmente gostei do que li.
Parabéns!voce ainda vai looonge! :)
Quanto ao Imperador, se o que ele alega for verídico, cabe a todos respeitar tal decisao, ainda que seja absurda à nossa sociedade que está insuportavelmente cada vez mais viciada no consumo.
Eu só espero que episódios como este, nao ganhem tanta ênfase assim por parte da mídia, visto que a mesma expõe uma idéia e grande parte da nossa sociedade a ingerem sem uma visa crítica alguma, o que possivelmente nesse caso, só prosperar o "ter" ao invés do "ser".
um abraço.

juliana disse...

correçao!
rsrs
é visao e nao "visa".
e logo no final, é...
só irá prosperar ...e nao somente ..
"prosperar".

perdao!
rs

Schwartz disse...

Acho que foi a primeira vez que utilizei os serviços de um sociólogo profissional!
Obrigado.