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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

“Um pensamento de Karl Marx e a atual Fórmula 1”

É muito aceitável que uma das frases mais felizes da obra de Karl Marx seja: De cada um, conforme sua capacidade; para cada um, conforme suas necessidades. Essa frase, que li pela última vez no excelente livro Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, ajuda muito a pensar o imbróglio em que se meteu a categoria automobilística mais importante do esporte mundial. Ajuda a explicar também o sistema de políticas de ações afirmativas (sistema de cotas), mas o assunto hoje é mesmo o esporte e as grandes corridas.
É incrível como tomou grande proporção a decisão da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) de fixar um máximo orçamentário de R$ 129 milhões/temporada (descontados os gastos com marketing, motores e salários dos pilotos) para cada equipe de Fórmula 1. Os grandes times acham o valor “muito baixo” e querem uma diminuição gradual dos orçamentos. Tal imbróglio quase invalidou o campeonato do ano de 2010, gerando uma discussão que nos traz à mente os construtos igualdade e liberdade.
Não é de hoje que a Ciência Política mostra como se faz difícil a convivência de tais construtos teóricos na prática social. É sabido que, se todos têm liberdade de fazer o que quiserem de suas vidas e posses, alguém ficará com menos e a igualdade não existirá, pois os talentos são bem diferenciados. Ficaria ratificada a desigualdade “naturalmente” aceitável, por conta dos dons individuais.
A FIA quer cortar a liberdade que as equipes têm de investir o que quiserem e puderem, para que uma competitividade maior se estabeleça nessa categoria. Porém, as grandes equipes não aceitam, pois as equipes que ficarem dentro do orçamento poderão ter vantagens que as grandes não teriam, visto que os grandes times continuariam gastando tudo o que quiserem.
Num mundo onde quem tem mais, vence sempre, me pareceu bem marxiana a proposta da Federação. Assim como no sistema de cotas, quem pode menos tem de ter vantagens, pois não dá para concorrer de igual para igual com quem tem o incalculável para gastar.
Os comentários e argumentos sobre “dois regulamentos” me parecem bem frágeis, uma vez que não se fala que já existem dois regulamentos; quem tem dinheiro vai vencer e pronto! Foi assim que a Ferrari gastou mundos e fundos e conquistou tudo o que podia. Assim também aconteceu com a McLaren. Até aqui, porém, ninguém achava que um tinha mais do que os outros! As pessoas acham ridículas as decisões da FIA, mas não acham inaceitável uma equipe pequena ficar ad infinitum como coadjuvante de um campeonato com chances de conquista para duas equipes apenas!
Se sou a favor de uma igualdade de direitos na Fórmula 1? Sim, como não seria? Sou por uma igualdade na Fórmula 1, no ingresso nas universidades públicas, nas condições de educação e saúde de todos etc. No meu modesto opinar, quem tem menos precisa ter condições de competir, sim. Só são contrários a isso aqueles que a vida inteira foram beneficiados por esse estado de coisas desigual que vivemos, no mundo que “optou” por um neoliberalismo macabro e diabólico.
Preterindo a liberdade e buscando uma igualdade de condições, conseguir-se-á o que Marx apregoava outrora; cada um oferecerá conforme a sua capacidade e receberá consoante a sua necessidade. Pode estar fora de moda e parecer muito utópico, mas, não se poderia dizer que a FIA está quase conseguindo “ressuscitar” o velho barbudo?!

liberdade, beleza e Graça...

Um comentário:

Felipe Fanuel disse...

Clei,

Muito bom seu texto! Vejo aqui uma resposta necessária aos desafios dos dias de hoje. As ideias de K. Marx ainda merecem reflexão cuidadosa pela sociedade atual. Lembro de Paul Tillich, que chamou atenção para o fato de pessoas como Marx terem desempenhado um papel que a Igreja Cristã se recusou a desempenhar: um papel profético. Para lembrar de Jesus, acho que um profeta não é bem-vindo em uma sociedade capitalista como a nossa.

Um abraço.