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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

domingo, 1 de julho de 2012

"Amizade é a alegria da presença"

São vários os ditados populares que permeiam a nossa história. Um dos mais falados, mas que agora passou a me incomodar em demasia é o "amigo é pra essas coisas". Como é sabido de todos, usa-se tal máxima quando se quer mostrar que amigo é aquele que tem a obrigação de quebrar todos os galhos, fazendo favores os mais variados - de preferência, sem reclamar! - e entendendo que sua função numa relação é mesmo essa.

Porém, e para contrastar com tal dito popular, lançando mão de uma fala de Jesus, apresento uma afirmação quase esquecida do Novo Testamento: "Já não lhes chamo servos, mas amigos". A fala neotestamentária é bastante elucidativa, uma vez que opõe de forma clara a amizade e o serviço. É óbvio que, se temos um amigo, sempre desejaremos, mesmo não sendo este o principal foco, servi-lo naquilo que ele precisar e pudermos oferecer. No entanto, a oposição feita por Jesus nos coloca diante de uma outra e bastante importante abordagem sobre a amizade. O foco dela não é o favor.

O conceito de amizade, sabemos, tem variadas abordagens, sendo que todas defendem como sendo algo bom e bonito. Contudo, o intuito da presente reflexão é, à luz de tal afirmação jesuânica, problematizar - também de forma autobiográfica - aquilo que é chamado de amizade pela maioria das pessoas, a começar pelos que não suportam ter um número pequeno de "amigos internéticos". Sim, aqueles que se alegram ao máximo, pois já podem cantar - podendo mesmo provar em números - a conhecida canção "eu quero ter um milhão de amigos".

Voltando à fala de Jesus, ela parece mostrar que não é o número de "pessoas virtuais" que podemos ter, nem são, por outro lado, os favores que as pessoas próximas podem nos oferecer, mas a simples e alegre presença de uma pessoa sincera em seus sentimentos o que, ao fim e ao cabo, conta para que possamos afirmar categoricamente: "eu tenho um amigo". Sim, a amizade é a alegria da presença. Talvez seja por isso  que não confrontamos a máxima que defende o cachorro como o melhor amigo do ser humano. O que importa para ele é a presença; ele se alegra, pula e rejubila simplesmente porque seu dono está presente.

Depois de muitos anos percebendo a amizade como troca de inúmeros favores, decidi parar e refletir sobre tal conceito. Enquanto eu refletia, sem me obrigar a continuar "amigo por favores", os amigos sumiam. Outro dito popular diz que, não havendo dinheiro ou favores, eles acabam mesmo por sumir. Cheguei a ter 300 "amigos" no Orkut, mas tudo só funcionava se a virtualidade nos "unisse", nada além. Não poderia ser real. A alegria do cachorro (com perdão da força da sentença) não existia nem em parte, infelizmente. Cancelei o Orkut e nunca quis fazer parte do Facebook ou de quaisquer outras redes "sociais", que, no final das contas, são só novas e tecnológicas maneiras de mentir para si mesmo, que é o pior tipo de mentira.

Não sei quantos amigos eu tenho e não vou ficar "na neura" por conta disso. Mas, mesmo sem querer aqui lembrar de todos, prezo por pessoas para as quais eu não posso oferecer nada, exceto a minha presença. Pessoas como o meu eterno professor Luiz Carlos, o Adão e sua esposa Suzana, o Lobão, a Fabiana, o Willen, a Liana, o Carlos Frederico, a Mileda, o Nelsinho, a Norma. Sim, sei que tenho mais alguns, mas os aqui citados me vieram mais rapidamente à cabeça, pois não se cansam de me falar: "cara, vem pra cá; vem jogar conversa fora!". O melhor de tudo: não tenho nada a lhes oferecer. Eu só preciso estar presente. É a presença o que conta; a minha para eles e a deles para mim. Eles ficam felizes. Eu fico feliz. É a amizade.

liberdade, beleza e Graça...


6 comentários:

NELSON LELLIS disse...

Obrigado pela lembrança!

Willen disse...

Na amizade, a gente fica feliz de saber que ele está feliz. E fica feliz de saber que ele fica feliz com a sua presença. É indescritível, é algo sobrenatural, divino. :)

Ah sim.. Tô muito feliz com a lembrança :)

Liana disse...

Como eu não havia lido esse texto ainda?! Muitíssimo obrigada por me colocar nessa lista, amigo! =D
Lindo texto.

Regia disse...

A amizade é algo que nos faz lembrar de pessoas como elas são...sem mascaras...e por isso é mágico esse sentimento que nem todos os seres humanos tem o privilegio de vivênciar. Lembro de tempos, palavras e algumas lágrimas suas que marcaram boas lembranças de uma amizade sem troca de favores ou interesses!! Gostei do texto e concordo que as redes sociais refletem na maioria de seus usuários, amizades superficiais em que os sentimentos são meros botões virtuais. Abçs e Deus te abençoe nos seus novos projetos.

Regia disse...

Muito boa a reflexão...amizades via redes sociais são em sua maioria meros botões virtuais. Amizades são aquelas que lembramos de pessoas que nos marcaram com boas conversas, sentimentos e vitorias compartilhadas, e que continuamos desejando o melhor em suas vidas! Abraços para um guerreiro..

DESERTOS DA RAZÃO disse...

Boa reflexao sobre a amizade meu querido!!
abracos!!