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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia, Filosofia e Ética do Instituto Federal do Espírito Santo - IFES.

sábado, 22 de março de 2014

"Ela"

A maioria das pessoas já viveu ou pelo menos ouviu falar de histórias de amores impossíveis. Pensando em tal temática, o que é proporcionado pelo excelente longa-metragem "Ela", de Spike Jonze, é algo que poderia ser assim chamado; a história de um amor impossível, só que apresentada de modo extremamente inovador e surpreendente, remontando a obras-primas do cinema, como é o caso de "2001 - Uma odisseia no espaço", do genial e saudoso Stanley Kubrick.

O filme de Jonze traz o ator Joaquim Phoenix na pele de Theodore, um redator de cartas que está vivendo um traumático momento de divórcio, e a maravilhosa Scarlett Johansson, que, mesmo não aparecendo, já que interpreta um sistema operacional, se faz realmente presente, com sua sensual voz rouca e uma química cênica que a faz quase "aparecer" ao lado de Phoenix. 

Numa era altamente tecnológica e onde as redes sociais virtuais respondem a quase tudo o que se procura em termos de relacionamentos, é interessante perceber a força de humanidade apresentada em algo que poderia ser tido como muito longe da realidade, já que o virtual e o "irreal" se apresentam de forma muitíssimo clara na história de Theodore (Phoenix) e Samantha (sistema operacional interpretado por Johansson).  

Se o "2001" de Kubrick é claro ao nos levar a uma história e espaços que sabemos se tratar de legítima ficção científica, a obra de Jonze é muito mais sutil e perspicaz - e até merecedora de premiações na categoria Design de Produção - já que, apesar de extremamente futurista na produção de arte que o cerca, o "Ela" de Spike Jonze faz com que concordemos que todo aquele cenário é algo "de hoje". Só que não.

Se Jonze mostra toda a sensibilidade de um diretor que cresceu muitíssimo desde o longa "Onde vivem os monstros", de 2009, com Phoenix atuando magistralmente, depois de um interregno que poderia ter sido o fim de sua carreira, e Johansson aparecendo num filme em que não se pode vê-la, o melhor de "Ela" ainda fica por conta do roteiro, também de Spike Jonze. O merecido Oscar na categoria roteiro original se justifica na genialidade em se mostrar algo que tinha tudo para ser o mais banal possível numa era internética.

Jungida a uma trilha sonora de tirar o fôlego, da banda Arcade Fire, a história apresentada por Jonze é o que se poderia chamar de alguma coisa de humanamente surreal. Isso porque a grande lição que fica é que quanto mais tecnológicos ficamos, quanto mais virtualmente nos relacionamos, quanto mais por conta de máquinas nos distanciamos, mais humanos somos. 

Os medos, as carências, as inseguranças, os ciúmes, bem como as grandes alegrias, que dão sentido a tudo, aparecem ainda mais fortemente à medida que pensamos que estamos seguros numa relação que poderá terminar a qualquer momento, bastando desligar voluntariamente um botão. Com ou sem os botões desligados, a tecnologia continuará a rapidamente avançar. Todavia, continuaremos a ser a mesma coisa; o que sempre fomos. O ser humano é essa coisinha frágil mesmo. É essa coisa que, se pudesse, buscaria o mais alto dos prédios para se lançar. Só que, no fundo do fundo, ele só quer braços que embaixo o acolham. Se "Ela" estiver lá, confiamos que tudo vai ficar bem.

liberdade, beleza e Graça...  


2 comentários:

Liana disse...

Ai... esses filmes de comunicação com máquinas me dão horror! Rsrs. Muito triste não receber um abraço ou um sorriso. Mas não posso falar, não vi o filme... rs.

higor disse...

Joaquim Phoenix, Johansson, Arcade Fire e Spike Jonze!!! Sei lá, não tinha como sair algo ruim mesmo. Pra mim o filme do Kubrick não aborda o mesmo tema pois fica bem claro o apelo pela violência humana. No final do filme do Kubrick só resta o pensamento de que até mesmo nossas máquinas tomaram ódio dos próprios criadores.

Sobre a vida vazia com a tecnologia, a questão que fica em pauta é a dosagem correta. Ao mesmo tempo é melhor matar a solidão com um computador do que entrar numa depressão com desilusões reais.