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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Da interpretação torta e da loucura e racismo evangélicos"

Era noite de domingo e eu tentava, pela enésima vez, dar uma oportunidade a mim mesmo de ouvir uma bela mensagem bíblica. Frustração total, como acontece já há uns 15 anos, com raríssimas exceções. É claro que não me iludo mais com os pregadores e com o mundo gospel, mas ainda insisto numa maratona que um dia ainda vai acabar com minha capacidade de viver longe da depressão gerada por um mundo evangélico adoecido.

A pregadora da noite, uma mulher tida como uma das mais respeitadas figuras evangélicas do Espírito Santo, e talvez do Brasil, assumia o púlpito, numa alegria que parecia ter força para contagiar a todos. E conseguiu, de fato, mas, para infelicidade deste que, inconformado, dava atenção a um arsenal de besteiras "teológicas" e a racismos e intolerâncias - que poderiam terminar numa delegacia de polícia, sem qualquer direito à fiança, visto que racismo é no Brasil um crime inafiançável - proferiu aquela que acaba de entrar no seleto grupo de mensagens que nunca deveriam ser pregadas.

Como afirmei em textos anteriores, pesquisas mostram que os brasileiros, em mais de 90%, acreditam que o Brasil é um país racista, mas menos de 10% se entendem como tais, visto que, ao fim e ao cabo, o racista, bem como o corrupto, é sempre o outro. O Brasil é racista, sim, mas são as pessoas, não eu! Eu sei que é, mas eu não faço parte disso! A noite de 13 de abril de 2014 respondeu a uma inquietação de longa data; o racista sou eu, com certeza, desde que você saiba contar a "piada certa".

Numa infelicidade de dar pena - ou raiva - a pregadora começou a noite com o tradicional sermão de 3 pontos, onde se lê um texto, se sai dele para contar histórias que tentam fazer deus ser Deus e se volta ao texto, no final, apenas para tentar confirmar que foi uma "mensagem bíblica", o que, como é sabido, está longe de ser, visto que a nada criteriosa mistura de Antigo com Novo Testamento e a errônea compreensão de que o "tudo posso naquele que me fortalece" significa que "eu posso TUDO" mostraram a fragilidade de nossas hermenêuticas insanas, mais afeitas ao mercado e à lógica neoliberal do que à sensata interpretação de que consigo suportar os sofrimentos da vida porque tenho fortaleza no Senhor Jesus.

Assim, para justificar o "poder de poder TUDO", a mensageira da noite propôs que seria necessário um novo olhar sobre a realidade, visto que um olhar para as barreiras poderia nos fazer perder a dimensão da grandeza do Deus que supera a todos os impedimentos. Então, para justificar que é possível viver "vendo com os olhos de Deus", a senhora que nos "ensinava a Bíblia" defendeu - exemplificando que a beleza é uma questão de olhar - que "a pessoa pode até ter cabelo ruim, mas deve se mancar e passar a máquina, sem titubeio", pois "quem tem cabelo ruim, não tem outra saída, já que tentar alisar fará dela alguém que tem não um cabelo, mas um carpete na cabeça". Para continuar o show de horrores, a pregadora disse, muitíssimo feliz, que sua filha é muito bonita, mas havia a preocupação de ela nascer com o "nariz de batata". Para evitar que isso acontecesse, narrou que sua avó ficava a apertar o nariz da menina, desde muito pequena, o que ajudou a fazer "o milagre de ela ter o nariz fino e ser um linda adolescente que escapou de ter um nariz que ninguém merece".

É claro que, se perguntada sobre um país racista, a pregadora da noite diria que é "veementemente contra o racismo, mas que entende muito bem que o país é racista", assim como a acompanhariam na resposta praticamente todos os que ali estavam, já que riram a não poder mais, divertindo-se com um dos mais nojentos aspectos dessa sociedade que se diz "a-racista" e "tolerante com as diferenças". Sim, eu encontrara os racistas; como no caso do Brasil em geral, eram praticamente todos. A pregadora da noite saiu ovacionada e continuará a ser convidada e considerada uma sumidade no meio evangélico brasileiro. Já eu, negro e pesquisador de relações raciais no Brasil, saí daquele ambiente com uma sensação de impotência infinda, uma vez que meu cabelo não é "bom"; meu cabelo, como diz a poeta capixaba Elisa Lucinda, não sobe favela para fazer caridade aos sábados.

liberdade, beleza e Graça...


8 comentários:

Patricia S C Ferreira disse...

...eu sabia que o mundo gospel tava assim... mas não tinha noção... nojo...
essa defecou pela boca!

Olga J.S disse...

Penso se um dia será possível encontrar um pregador do evangelho tipo Martin luther king,só que no Brasil. Todavia, de uma forma ou de outra, você está onde deveria estar.O lugar onde a "merda" é mais exposta, é por onde se começa a trabalhar.

AILTON ROCHA disse...

OLÁ CLEINTON,

VC SABE MUITO BEM QUE NEM TODOS OS PREGADORES DEFEREM ESTA POSTURA MENOR, SEM FAZER UMA RESSALVA JUSTA, VC APEQUENA AQUELES QUE LUTAM DENTRO DA IGREJA POR UMA SOCIEDADE MAIS JUSTA.

AILTON

Cleinton disse...

Narrei um episódio vivido por mim, Aílton. Não afirmei que são todos, embora eu acredite que no Brasil tenhamos mais de 90% de racistas. Quanto à luta da igreja, estou vendo-a, cada vez mais, e por experiência in loco, como um lugar de adoecimento de pessoas; são uns bandos de loucos que colocam "Deus" no meio. E a grande culpa é dos pastores, que precisam de tal adoecimento para fomentar sua carência de poder e dinheiro. São todos assim? Não, mas são muitos, muitos, muitos, muitos. Chegaremos, por culpa nossa, a ser um país pós-cristão, assim como a Europa já é um continente pós-cristão. Nem sei se será tão ruim, pois o protestantismo não é vivido no Brasil e o modo de vida e crença do evangélico típico dá mais nojo do que qualquer outra coisa. Ou você acredita que o avassalador crescimento dos neopentecostais vai nos levar a algum lugar decente?!

VIDA disse...

Cara essa é uma triste realidade vivida por grande parte da sociedade, que demonstra claramente a luta do Homem em busca do "perfeito" e com isso querendo "tomar" o lugar de Deus. Isso é tão sério e está tão presente em nosso dia, que mesmo aqueles que lutam contra as diferenças. vezes passam a ser incoerentes e assumem papel de racistas.
Quanto a situação relatada, trata-se de algo deplorável e que não tem nada haver com Reino. Que Deus tenha misericórdia dessa pessoa e de todos nós!

Hélio disse...

Excelente artigo, Cleinton, apesar da triste constatação do racismo impregnado no discurso de boa parte dos evangélicos do Brasil. Merece ser mais conhecido. Gostaria, portanto, de sua autorização para reproduzi-lo no meu blog, dando-te o devido crédito, é claro!
Meu blog está aqui: http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/
Um grande abraço!

Hélio disse...

Oi, Cleinton! tudo bem? Publiquei o seu artigo no meu blog no link indicado abaixo. Obrigado pela gentileza! Abração!

http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/2014/05/racismo-evangelico.html

Ana Nascimento disse...

Muito bom este post... E sabemos mas não queremos admitir que as igrejas estão cheias de pastores(as) desse "mudêlo".. aceitemos que dói menos...