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Graduado em Artes Cênicas, Teologia e Ciências Sociais. Mestre em Sociologia e Direito pela UFF e Doutor em Sociologia pelo IESP-UERJ. Pesquisador de Relações Raciais no Brasil, Sociologia da Religião e Teoria Sociológica. Professor de Sociologia e Metodologia Científica do IFES - Instituto Federal do Espírito Santo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

“Estupro, aborto e excomunhão católica”

E então, pastor, qual é a sua posição?”. Essa é a frase que está a me martelar os ouvidos, a mente e o coração nos dias últimos. As pessoas, de dentro e de fora da igreja, querem saber o que um líder religioso protestante pensa acerca do episódio da menina pernambucana, estuprada pelo padrasto no sertão católico brasileiro. Li muitos escritos a respeito e decidi, depois de muito esforço emocional (aqui o esforço intelectual não conta), dizer o que penso de tudo isso. Talvez eu seja excomungado.
“Se há aborto, sou contra”. Poderia ser essa a minha frase-resposta. Mas não é. Depois de muito tempo e muita reflexão acerca da temática, tenho de dizer que não sou mais o mesmo. Sim, no caso da menina pernambucana, estuprada pelo padrasto, e engravidada de gêmeos aos 9 anos de idade, eu sou favorável ao aborto. O pastor é a favor. Pronto, falei.
Depois do episódio pior, o estupro, seguiu-se a posição médica, o aborto necessário para preservar a vida da menina. Depois veio o imbróglio; o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, declarou que os que estivessem envolvidos na interrupção da gravidez da menina (a mãe, os médicos, os enfermeiros) fossem excomungados. Mas o padrasto-estuprador, não, pois teria cometido um crime “mais leve”. Para o bispo, é essa a “lei de Deus” e pronto.
Mas, lhes digo, Deus e igreja são coisas bastante diferentes. Deus e dogma são coisas até antagônicas, diria esse jovem pastor, à porta da excomunhão. Mas você me perguntaria: “O bispo errou?”. Não; segundo o pensamento católico ele está dentro da normalidade. Dentro do pensamento dogmático católico, deixemos claro. Assim, o arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, apenas obedeceu ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento. Mas a sociedade brasileira, ainda que de maioria católica, estarreceu-se. E todo mundo gritou um tanto.
Para Gilberto Dimenstein, do jornal Folha de S. Paulo, a excomunhão da mãe é pior, no sertão nordestino, do que o próprio estupro (a CNBB voltou atrás, dias depois, e isentou a mãe do veredicto). Para o médico Dráuzio Varella é uma questão mais política do que qualquer outra coisa, pois “Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos. Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições a todos nós”. O presidente Lula fez coro com Varella, mas o bispo o calou, dizendo que “ele é um católico mais ou menos e não entende nada de Teologia; precisa freqüentar as cadeiras teológicas ou pedir consultoria a um especialista”. Sou teólogo; um "especialista" e, por isso, digo: o presidente não precisa se tornar teólogo, pois não se trata de Teologia, mas de dogmatismo católico-romano.
Sim, a Bíblia diz que Deus já nos conhecia substância ainda informe no ventre de nossa mãe. Sim, o meu Livro Sagrado defende o “não matarás”. Sim, a Palavra de Deus entende como gente o zigoto que ainda não tem formação. Mas as Escrituras Sagradas não podem, e não devem, ser lidas sem uma prévia compreensão do seu contexto. Não podem ser acessadas sem uma árdua busca exegética (pelo menos não para a construção de dogmas). Se assim não for, deveremos voltar a contabilizar as mulheres como animais, pois a personalização da mulher foi tema ulterior (para mim, um tema paulino, após gestos jesuânicos, mas isso não vem ao caso nesse momento).
Pelo viés artístico, o poeta paraibano de cordel, radicado em Brasília, Miguezim da Princesa, escreveu o melhor texto que li até agora sobre a temática. Vale a pena dar uma procurada na internet e conferir “A excomunhão da vítima”.
Eu, por meu lado, digo que os avanços do Concílio Vaticano II, quando se foi possível estabelecer mais diálogo acerca das temáticas que nos rodeiam, inserindo o pensamento das mais variadas correntes religiosas em edificantes debates, estão sendo derrubados por um conjunto de bispos ávidos por um “retorno às trevas”. Joseph Ratzinger, o Bento XVI, é o líder dessa “volta dos que não foram”. Infelizmente, um retrógrado.
Mesmo sendo excomungado também, não consigo pensar como a igreja católica, no caso dessa criança de 9 anos de idade. Estuprada pelo padrasto, grávida de gêmeos e sem pernas para suportar o peso, sem ventre para segurar a força mortífera dos meses finais da gestação (nesse caso, certamente seriam meses mortíferos), e sem cabeça para conviver com tal evento-fantasmagórico a lhe assombrar os sonhos e a vida. Penso que um bom trabalho psicológico deve ser feito agora e que o aborto, nesse caso, foi um acerto.
De resto, é orar pela menina, pela mãe, pelos médicos, pelo padrasto (uma mente bastante enferma e carente) e, principalmente, pela igreja e pelo bispo. Afinal, eles são os responsáveis pela polvorosa que nos estuprou, engravidou e nos fez abortar, permitindo-nos dar à luz textos como esse que vos incomoda os olhos.

liberdade, beleza e Graça...

7 comentários:

Mariáh disse...

Show o post, heim Pr...mim concorda plenamente!! ;D

Aline Xuxu disse...

É meu garoto... dessa vez vc arrebentou acima do normal... acho que tb pelo tempo de maturação do pensamento,ñ é mesmo?
Vc sabe o que penso, mas acho que cabe repetir aqui. Como espírita praticante (hj em dia nem tanto) e consciente do que significa um aborto; como mulher, como tia de uma menina de 9 anos, como filha de uma mulher molestada qdo criança (na mocidade de seus também 9 aninhos), sinto-me no direito (e dever?) de dizer que concordo plenamente com sua opinião. Uma criança dessa idade ñ é capaz de suportar as dores, o peso, as angústias e o drama de ser mãe, ainda mais de outras 2 crianças. É crueldade demais sujeitar esta menina, depois de tudo que ela passou (e está passando), a esta gravidez. Nem seu corpo, nem sua mente estão prontos pra isso.
Sou contra o aborto quando utilizado como método contraceptivo, mas nos casos em que a própria lei brasileira o considera necessário, também assino embaixo. E esse é um caso desses. Acho um absurdo sem tamanho o que a Igreja está fazendo, mas como todos sabemos, o que está em jogo é uma imposição de poder desmedido, cheio de hipocrisia e maldade. Sinto vergonha pela Igreja, que se utiliza das palavras de Deus para embasar seus discurso dogmático completamente equivocado. O que todos nessa família precisam é de ajuda e não de palavras levianas que não irão contribuir em nada. Acho de verdade que Deus não gostaria de ver isso... mas enfim... sou a favor desse aborto e pronto! Tb falei!
Seremos "excomungados" juntos pelo menos, pastor!!!
Seu texto está maravilhoso e faço minhas as suas palavras, mas.. meu querido divino!! vc pediu tantas orações pra todos os envolvidos e esqueceu-se de uma pessoa que é a que mais precisa: o pai da menina. Uma mente enferma como esta precisa de muita "luz" para se recuperar.
Abraços! Obrigado por ser diferente dos demais e ñ temer dizer isso!

Cleinton Gael disse...

Querida Xuxu.
sua sugestão foi aprovada e a correção foi feita. o padrasto já aparece como objeto de nossa oração. obrigado pelas palavras.
vamos arder juntos no purgatório!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
purgatório arde, será?!! rsrsrsr
sou teólogo, mas não sei. rsrsrsr
beijo, amore.

liberdade, beleza e Graça...

Peroratio disse...

Opa, Cleinton,
estás no Mestrado da UFF?! Que legal! Parabéns! De lá só sai doutor, agora...
Um abraço,
Osvaldo Luiz Ribeiro

Felipe Fanuel disse...

Clei,

Para mim, a questão mais séria neste assunto é o lugar para onde se olha. Por que olham tanto para o feto e muito pouco para a mãe? Creio que aqui está a raiz de toda a discussão em torno da legalização do aborto. Se a mulher não está na pauta, vale apelar para qualquer coisa, inclusive para a expressão "lei de Deus".

Seguindo uma linha conservadora, o líder religioso olha para o feto, porque acredita que para a tradição religiosa é melhor defender alguém que não nasceu do que alguém que irá nascer. Ele é coerente com esse conservadorismo religioso ao se afirmar contra qualquer interrupção de gravidez.

Enquanto isso ninguém se lembra que há uma mulher viva, respirando. O mais triste é saber, no caso em questão, que a mulher não passa de uma criança.

Precisamos de um olhar de Justiça.

Um abraço.

juliana disse...

Olá Cleinton.
E aí, já foi excomungado?rss
Creio que nao.Esse texto nao é motivo para isso.Muitos cristãos pensam como voce mas, eles nao tem essa sua coragem que, creio, ter surpreendido muita gente. Ao ler o texto fiz questao de perguntar para muitos que estavam ao meu redor. Todos, exatamente todos ficaram "em cima do muro", digamos que, boa parte concorda contigo mas, assumir tal posiçao, como ja te disse, tem que ser CORAJOSO!Sou contra o aborto, mas, diante dessa situaçao é desumano querer impor leis religiosas. Ao olhar cristao, um dia essa criança será mulher, terá consciencia de seus atos, e se for o caso(creio q nao) tal situaçao lhe acusar, ela terá refúgio nas palavras de Cristo(João 8:1 a 11).
É de doer a alma um caso desse, mas, "É o mundo que anda hostil"...porem, cremos, "Deus vai dar o aval sim, o mal vai ter fim!". :)

Valew!! Contribui e muito o texto.
Que Deus te ilumine!!
bjaum

Vinicius disse...

Varão, o papa já leu seu texto?
rsrsrsrsrsr!
Num deixa ele ver não hein!
Abraço!